Por um mundo menos desigual
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de junho de 2012
Elaine Souza <br> Reportagem Local 
Samuel de Oliveira é administrador de empresa por formação e vocação, mas foi ''capturado'' pelo trabalho humanitário - não o da retórica, mas o da transformação. Aos 32 anos, já participou de quatro missões humanitárias, todas elas integrando a equipe do Médicos Sem Fronteiras, organização médico-humanitária internacional independente, comprometida em levar ajuda e cuidados médicos às pessoas que mais precisam.
O primeiro trabalho como voluntário foi em 2007, no Zimbábue, país da África Austral que agoniza entre a cólera, a fome e a tirania de uma das mais antigas e violentas ditaduras do mundo. Samuel passou doze meses naquele país, trabalhando no setor administrativo da ONG.
''Foi a primeira experiência e completamente estranha. A convivência com a ditadura, o governo secreto nos vigiando, ameaças o tempo todo. Foi um momento em que passei fome, medo e muita saudade da família, passei meses sem me comunicar com meus pais. Não havia energia elétrica, sofri um atentado'', relembra Samuel, que atualmente dirige uma empresa de próteses ortopédicas em Londrina e mantém o trabalho voluntário como atividade secundária. .
Em 2008, Samuel mais uma vez deixou de lado o ócio que sua condição abastada lhe proporcionava e seguiu rumo a República do Congo, disposto a continuar compreendendo a diversidade de experiências de vida que cada pessoa sem condições básicas de sobrevivência leva consigo. Num país em que mais de 70% da população é subnutrida, a missão era participar de um projeto de vacinação contra o sarampo.
''Inicialmente era isso, mas o projeto tomou outro rumo e virou atendimento aos feridos da guerra que havia acabado de estourar. Foi outro momento muito difícil. Para minha família foi terrível. Por mais que eu trabalhasse no setor administrativo, a convivência com as tragédias eram visíveis para todos: médicos, enfermeiros, administrativo, entre outros'', conta.
No começo de 2009, ele queria uma realização maior na organização. Depois de duas grandes experiências no currículo, Samuel estava pronto para isso e, eis que surge um convite para o londrinense integrar a diretoria que iria coordenar uma missão em Serra Leoa. Com orçamento de US$ 4 milhões e 750 funcionários para comandar, foi, segundo ele, sua maior conquista profissional.
''Todas as missões foram desgastantes. Trabalhávamos das 6h30 às 23 horas todos os dias. Foram experiências que me fizeram refletir muito. Deixei meu conforto, minha família, meus amigos. Você se coloca em modo de sobrevivência, deixa de lado sua vaidade, a mordomia. Era algo que eu precisava passar. Precisava abdicar de todo meu conforto para tentar ajudar aquelas pessoas de algum modo. Aprendi a ver o que realmente é prioridade em minha vida. Tirei várias lições e uma delas foi aprender a confiar nas pessoas, a trabalhar em equipe, saber que você precisa das outras pessoas. Além disso, você aprende a valorizar cada coisa que tem e conquista'', diz.
Estar em áreas remotas, perigosas, cheias de conflitos e catástrofes. Conviver com milhares de mulheres vítimas de estupro coletivo, pessoas morrendo por falta de comida e água, homens, mulheres e crianças mutiladas, entre outras tragédias. Como lidar com tudo isso sem pensar em desistir?
''Você não se acostuma com as desgraças, mas cria um grau de tolerância devido a tantas coisas ruins que vê todos os dias. Nunca pensei em desistir, mas vi muitas pessoas voltarem para casa por não conseguir terminar uma missão'', relata.
O londrinense destaca que antes de ingressar em um projeto os voluntários passam por vários treinamentos. ''Em primeiro lugar, é preciso falar no mínimo duas línguas e ter experiência profissional no setor em que vai atuar. Passamos por testes de liderança, sensibilidade, cultura. Depois seguimos para a Noruega, onde ocorrem os treinamentos de sobrevivência, sempre feitos nas condições que iremos encontrar no país de destino. Quando se chega no local de trabalho, você tem dois dias de imersão na cultura. Uma pessoa da organização te explica tudo sobre o país'', conta.
A última experiência de Samuel como voluntário humanitário aconteceu no Haiti, em 2010. Ele foi convocado para atender a uma emergência de cólera. E foi lá que surgiu a decisão de dar continuidade a este ato tão nobre, só que tendo outro foco. A convite de uma médica brasileira, o empresário passou a integrar um projeto que visa capacitar jovens no mundo todo para se tornarem líderes e participar de missões humanitárias.
''O projeto ainda está no papel, mas em breve vai se tornar realidade. Por todos os lugares que passei, vi que a falta da educação era o motivo de tanta desgraça. A educação é a base de tudo, de um país melhor, de uma sociedade melhor. Os líderes de muitos países fazem investimentos e decisões pensando em si próprios. Descobri muita coisa no meio humanitário que a mídia não fala. Guerras acontecem financiadas por indústrias de mineração. Não há como provar, mas acontecem. E tantas outras coisas que as pessoas nem imaginam.''
Foi na adolescência, mais precisamente aos 16 anos, que Samuel descobriu sua vontade para trabalhos humanitários. Com o tempo, passou a acreditar que cabe - também - ao Terceiro Setor uma atitude mais crítica e reflexiva que crie alternativas que possam melhorar a qualidade de vida da população. Engajado, inteligente e comprometido, o empresário é defensor de que pequenas ou grandes contribuições somadas resultam em um mundo menos desigual e mais fraterno.
''Sempre tive curiosidade de saber como era trabalhar nesse contexto humanitário, em organizações que tentam e oferecem ajuda. Eu viso fazer parte de um movimento, que não é declarado, mas sim um movimento em que as pessoas querem trabalhar para fazer o bem. Eu gosto de pensar que faço parte de uma nova geração que pensa no outro. Gosto de ter coisas boas, sim, mas para ter isso não preciso passar por cima das pessoas'', finaliza.


