Por um atendimento mais humanizado

Médico formado pela UEL atua no Hospital de Amor, em Barretos, referência no tratamento a pacientes com câncer

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha


 

"O ser humano é corpo, emoção, crença, história, sentimento. Ele tem uma biografia que precisa ser respeitada", diz Luís Fernando Rodrigues
"O ser humano é corpo, emoção, crença, história, sentimento. Ele tem uma biografia que precisa ser respeitada", diz Luís Fernando Rodrigues | Carolina Nóbrega/Agência OQ
 



“É preciso saber ouvir os pacientes”, afirma o médico Luís Fernando Rodrigues, que atua na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital de Amor, em Barretos. O complexo, construído no interior de São Paulo, é referência no País no atendimento a pacientes com câncer. Mestre em cuidados paliativos pela Lancaster University, na Inglaterra, Rodrigues é membro-fundador da Academia Nacional de Cuidados Paliativos e começou a atuar no hospital de Barretos em outubro de 2011.

 

Rodrigues nasceu em Maringá e cursou medicina na UEL (Universidade Estadual de Londrina). “Sempre tive essa vontade de ajudar as pessoas”, conta. O pai funcionário público e a mãe dona de casa incentivaram o filho. “Quando entrei na faculdade, dizia que queria fazer oftalmologia. Conforme o tempo foi passando, quis fazer pediatria, ginecologia e obstetrícia, neurologia... A gente vai se encantando pelas áreas”, confessa.




Após concluir a graduação, em 1993, o médico conquistou uma vaga na residência em clínica médica. “Quando passei pelo estágio da gastroenterologia, nosso preceptor na época, médico Faissal Muarrek, me incentivou muito para que eu fizesse a residência de gastroenterologia que havia sido inaugurada há pouco tempo”, lembra. Rodrigues embarcou então na nova empreitada.

 

“Minha família nunca teve grandes posses e fiz o que todo residente faz ao final do curso: trabalhar e trabalhar muito. Fazia plantão para poder juntar recursos e conseguir montar o próprio consultório com os equipamentos necessários”, destaca. O médico atuou no Hospital Zona Norte e na Santa Casa, ambos em Londrina. Mas foi por intermédio do colega de trabalho Edson Zuccoli que o profissional conheceu o programa Médico de Família, ligado à Prefeitura de Londrina. O atendimento domiciliar foi o primeiro passo para a jornada em cuidados paliativos.

 

“Entrei no atendimento domiciliar em agosto de 1998 e fiquei encantado com a estrutura que havia sido montada. O médico de família tem muito essa questão da promoção da prevenção das doenças, evitar que ela apareça ou minimizar os efeitos. A clientela predominante da área urbana era uma clientela pós-hospitalar, que já vinha com doenças instaladas e sequelas, pacientes acamados, vítimas de acidentes e pacientes crônicos. Eu, que conhecia a estrutura hospitalar com pacientes internados em pronto-socorro e em macas, imaginava ‘isso é uma excelente alternativa para desafogar o pronto-socorro'. Com um atendimento domiciliar forte, você consegue resolver muitos casos e evitar que grande parte dos pacientes chegue ao hospital”, explica.

 

Rodrigues buscou apoio da UEL para a realização de investimentos no serviço. Na época, ele afirma que o diretor do CCS (Centro de Ciências da Saúde) da UEL, Pedro Gordan, ficou encantado com a ideia.

 

Pouco tempo depois, o Instituto Pallium Latinoamerica de Medicina Paliativa, com sede na Argentina, promoveu um curso sobre cuidados paliativos em Curitiba. Rodrigues e outros profissionais da UEL participaram do evento. Esse foi o primeiro contato do profissional com o tema e o início oficial da trajetória de mais de 20 anos de estudos e aplicação dos conhecimentos na área.

 

“A equipe que realizava o atendimento domiciliar começou a perceber mudanças nos meus atendimentos, na forma de lidar com o paciente e com a família. Eu prezava muito a comunicação e o controle de sintomas e do sofrimento. Foi então que passei a atender mais as pessoas diagnosticadas com câncer. Outros colegas se interessaram e vieram perguntar sobre as formas de atendimento”, conta. Rodrigues também atuou posteriormente no Hospital do Câncer de Londrina.


Na medicina, as técnicas relacionadas aos cuidados paliativos começaram a ser aplicadas em pacientes no final da década de 1960, priorizando o tratamento a pessoas com câncer. Com o passar dos anos, a metodologia foi adotada também no atendimento de pessoas que apresentaram doenças degenerativas ou sequelas geradas por enfermidades.


"É uma abordagem que melhora a qualidade da relação entre paciente e família ao enfrentar problemas ou situações relacionadas a doenças ameaçadoras da vida por meio da avaliação e tratamento da dor e de outros sintomas físico-psíquico-sócio-espirituais. O ser humano é multidimensional. Ele não é só um corpo. O ser humano é corpo, emoção, crença, história, sentimento. Ele tem uma biografia que, seja ela qual for, precisa ser respeitada. A gente entra nessa multidimensionalidade e em aspectos da ética e da bioética nos cuidados paliativos”, reforça.


Rodrigues lamenta o desconhecimento das técnicas entre os profissionais da saúde e a população. Segundo ele, indicadores mundiais apontam para a falta de investimentos e capacitação. “O ranking mundial de qualidade de morte publicado na revista da Economist, em 2015, apontou que, dos 80 países pesquisados, o Brasil é o 42º pior lugar para se morrer no mundo. [...] Além disso, apenas 14% das pessoas que têm necessidades de cuidados paliativos ao redor do mundo recebem esses cuidados de forma adequada. Quase 80% das pessoas que precisam de cuidados paliativos estão em países subdesenvolvidos”, informa.

 



“Aprender técnicas de comunicação foi fundamental. Quando você cita a comunicação, a gente pensa logo em falar. Mas comunicação é uma via de duas mãos e você tem que saber ouvir também. Quando você ouve, a sua percepção aumenta. Quando a percepção aumenta, você começa a entender melhor, principalmente, quem procura atendimento na área da saúde. Talvez seja algo muito claro para os psicólogos que trabalham essencialmente com isso, com o ouvir. Mas médicos, enfermeiros e os outros profissionais são muito de fazer, de seguir protocolos. Geralmente, o sistema também não nos ajuda muito. É um sistema calcado em remuneração por produtividade e volume de serviço. Isso sacrifica o todo. Para você poder fazer uma comunicação eficaz, o tempo é extremamente precioso. O tempo tem um valor inestimável", finaliza. O profissional ainda sonha em construir o próprio serviço de cuidados paliativos baseado em estruturas europeias e norte-americanas.

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