Uma boa definição para o empresário maringaense Gustavo Augusto Serpa Rocha, 51 anos, é a de um homem de visão e de riscos. Dono da fiação artesanal de seda O Casulo Feliz, o ex-professor de zootecnia tem compradores importantes para seus tecidos, como Alexandre Herchcovitch, Mário Queiroz e Isabela Capeto, entre outros.
Uma história de sucesso comum não fosse a insistência de um homem que acreditou na sua idéia, mesmo quando quase ninguém acreditava. ''Eu dava aulas na UEM quando fiz uma visita à Cocamar e descobri que os casulos que não passavam no controle de qualidade para a indústria eram vendidos para a Ásia. Eles têm defeitos que impossibilitam as máquinas de retirar o fio. Daí pensei que eu poderia descobrir como usar aquele material aqui no Brasil. Sempre quis ter meu próprio negócio e resolvi estudar o assunto'', conta.
Filho de uma família de criadores de ovelha, onde a avó usava uma roca de pedal para tecer a lã, Gustavo possuía algum conhecimento para desenvolver a máquina que aproveitasse os casulos recusados pela indústria. Com a roca equipada com um motor, ele começou a fazer a seda rústica em casa. ''Em 1988 fui para Americana (SP) vender o que tinha produzido, mas ninguém se interessou porque não conheciam aquele material e nem sabiam o que fazer com ele'', lembra.
Mais uma vez, ele decidiu resolver o problema ao invés de desistir de seu projeto. ''Procurei alguns tecelões porque sabia que aquele tecido era bonito. Consegui vender tudo, mas aí eles reclamaram que o material tinha sempre a mesma cor. Fui estudar tingimento natural para oferecer tecidos de várias cores e sempre de forma artesanal. Nessa época contava com dez funcionários e trabalhava nos fundos de uma casa em um barracão velho'', diz.
E a localização do barracão é outro ponto interessante na história de Gustavo e seu Casulo Feliz, erguido na periferia de Maringá, numa região carente. ''Queria comprar um terreno e não tinha dinheiro para uma área cara. Como eu morava aqui perto e já realizava um trabalho na igreja com a população daqui, resolvi trazer minha idéia para cá. No início, as pessoas achavam que eu era louco, e acho que sou um pouco. Mas digo que Deus ajuda quem é bom e eu sempre fui correto com as minhas coisas'', diz.
Foi assim que ele ganhou o respeito e a amizade das pessoas do bairro, que hoje representam quase a totalidade dos 50 funcionários da empresa. ''Isso aconteceu porque um indicava o outro, era fácil porque moravam aqui perto e eles já me conheciam'', explica.
Sem preconceitos para contratar pessoas que tiveram problemas diversos, como vícios e complicações com a Justiça, Gustavo acabou se tornando um salvador para a comunidade carente da região. ''Mas não faço caridade para ninguém. Digo que pratico a honestidade com viabilidade econômica. A empresa precisa gerar lucro e só mantenho um funcionário se ele me ajuda e é sério no trabalho. Nunca atrasei salário de ninguém, mas também não admito atraso no serviço. Trato todos com muito respeito e exijo o mesmo em troca'', garante.
Em 19 anos de atividade, ele lembra que nunca teve problemas com funcionários. ''Procuro manter aqui um clima agradável. Todos os dias de manhã fazemos uma oração juntos, conheço cada um deles pelo nome e mantenho uma relação cordial com meus funcionários. Somos um país de terceiro mundo e é preciso trabalhar como terceiro mundo. Dar oportunidade a essas pessoas sempre me deu retorno. Tenho gente que está aqui há vários anos e melhorou de vida aqui dentro, comprou carro, casa'', comenta.
Há dez anos, Gustavo resolveu segmentar a atividade para outro ramo, o das peças prontas. Sua filha é formada em design e cria tapetes, mantas, cortinas, cachecóis, xales e almofadas. ''Associo o uso da seda artesanal com outros produtos naturais, como madeira. Comecei a participar de exposições e aí os produtos ganharam mais visibilidade'', diz.
A meta agora é conseguir mais espaço no mercado internacional, ainda fechado para o produto brasileiro, segundo o empresário. ''Não quero ser milionário e ter um monte de funcionários, mas quero me estabilizar mais. Já me considero um vencedor quando penso como comecei isso tudo.''

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