Ela é pequena. Fala pouco e tem medo de ser vista como antipática pela imprensa. Faz brincadeiras com os mais íntimos e é extremamente determinada quando o assunto é seu trabalho: a ginástica olímpica. Daiane dos Santos já está no patamar mais alto do esporte mundial. Ela sabe disso, mas nem assim deixa de treinar intensa e incessantemente para mais um desafio: ganhar a medalha de ouro em Atenas este ano.
Para dar entrevistas é direta. ''Quanto tempo vai levar? É que eu tenho que descansar quando acaba o treino'', avisou ao telefone quando combinou a hora em que receberia a equipe da Folha.
Daiane dos Santos é uma gauchinha nata. Além do sotaque carregado, faz uso de expressões que só quem conhece o Rio Grande do Sul consegue traduzir. Uma frase como ''tenho medo que me achem cheia'' precisa de tradução. ''Cheia'' em gauchês quer dizer prepotente ou metida à besta. Daiane não é nada disso. É uma menina que virou mulher dentro de um ginásio de esportes treinando o que mais sabe fazer na vida.
Quando era criança ela nem pensava em ser o que é hoje, um dos maiores nomes mundiais em seu esporte. ''Treinava no colégio, mas só na Educação Física'', desmistifica rapidamente a hipótese de que já nasceu predestinada para o sucesso.
É tudo fruto de muito trabalho. Há dois anos vive em Curitiba, onde treina com a seleção brasileira de ginástica olímpica. O único desconforto na mudança de ares já é fato superado, garante. ''Tu sente saudades, mas depois acostuma. Tu tem um objetivo para perseguir e se é isso que tu quer acaba te acostumando'', ensina.
A obstinação de Daiane impressiona. Em nenhum momento da conversa ela se mostra desligada do que está fazendo. Presta atenção nas perguntas e como um foguete responde. Não pensa muito. Sabe o que vai falar. O controle das emoções é natural. ''Não tenho porque ficar nervosa numa competição. Chega na hora e eu faço o que faço todos os dias. Todas as competições são iguais. Tu treinas para todas da mesma forma. Algumas são mais importantes, mas o treinamento é o mesmo.''
Nas horas de lazer faz o que todas meninas como ela fazem ''vou ao cinema com minhas amigas, ou à casa delas, ou vou para minha casa e namoro''. O namoro com um menino de Porto Alegre é levado com atitude de quem tem na profissão seu maior objetivo de vida. ''A gente fica sem se ver, mas ele sabe que é por causa do meu trabalho. Então não adianta.'' E há sofrimento neste amor? ''Eu sinto saudades e tudo, mas tem que aguentar, né? Fazer o quê?''
E o assédio da imprensa? ''Eu falo que é mais difícil que treinar. Por que às vezes eles querem que tu faças várias coisas ao mesmo tempo e tu não tem tempo para isso. Entendeu? E daí eles pensam que tu estás ficando cheia. É uma coisa complicada.''
E você se acha ''cheia''? ''Nunca ninguém reclamou. Eu procuro falar com as pessoas no horário que posso e quando não dá explico que tenho que treinar.'' O controle também é absoluto quando o assunto é comida. Aliás, uma meta difícil para qualquer mulher do planeta. ''Às vezes como um pouco mais, outras menos. Mas agora acho que já está bem estabilizada essa coisa de comida e peso.''
Com tanta persistência, Daiane não poderia dar outro conselho para futuras ''seguidoras''. ''Diria para quem quer seguir a mesma carreira que elas tenham bastante persistência e que se for o que elas querem, que sigam em frente, continuem treinando. Elas podem ter dificuldades, mas podem ter o grande prazer de, quem sabe, integrar a seleção brasileira.''
E o maior sonho? ''Ser campeã olímpica. É o que eu quero para mim. E espero que a ginástica do Brasil evolua cada vez mais.''

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