Perfume com o cheiro da ternura O empresário Júlio Burko acredita que, se houvesse mais ternura, não haveria tanta violência, tanta corrupção, tanta malandragem Albari RosaJúlio Burko: ‘‘Você só terá um perfume bom se no manuseio colocar o seu interior, seu coração’’ Zeca Corrêa Leite De Curitiba A família Burko reúne-se para o almoço nos finais de semana e, toda vez, paira no ar uma pergunta: qual será o prato do dia? O mistério desvenda-se quando o cozinheiro, Júlio Burko, traz à mesa os pratos que bolou para o encontro. É uma festa. Ali, o empresário que há 14 anos conduz a indústria de perfumes Juli & Burk é unicamente o paizão que adora mexer com alimentos, condimentos, forno e fogão. As receitas podem ser de uma infinidade que ele coleciona, ou aquelas de sua autoria. Sua preferência recai sobre os frutos do mar, mas nada impede uma variação entre a cozinha internacional e a brasileira. ‘‘Sou eclético’’, diz, na pele de mestre-cuca. Há mais de 40 anos Burko dedica-se à gastronomia, paixão que está um degrau acima do simples hobby. Como a pintura, que está um degrau abaixo. ‘‘Gosto de pintar, mas sou pintor de domingo: aquele que pega nos pincéis de vez em quando. Serve para extravasar alguma coisa’’, simplifica. As telas, jamais expostas, trazem paisagens impressionistas. Entre pinturas e comidas Júlio Burko se refaz para iniciar a semana seguinte à frente da fábrica que teve início em Curitiba, em abril de 1986, e hoje está por todo o Brasil, através de 70 franquias nas grandes cidades e em cerca de 400 pontos de vendas nas pequenas. ‘‘Essa é a nossa dimensão neste momento’’, explica, sem tirar os olhos do terreno nervoso dos negócios. Nem pode – além da natural concorrência do setor, ainda tem a onipresença do governo: ‘‘São impostos a mais, planos econômicos, medidas provisórias. O empresário brasileiro precisa ter muito jogo de cintura para poder enfrentar todas essas nuances, as variantes que acontecem’’, queixa-se. ‘‘A carga tributária é assustadora. E quando falo em jeitinho brasileiro não é para no sentido de encontrar subterfúgios, mas de poder sair desta’’. Seja como for, a empresa avança para seus objetivos. No final do ano foi lançado o perfume Talento. Por trás do frasco e das essências, está implícita uma homenagem aos artistas do Paraná. No final de novembro ele chegou às prateleiras e, no mesmo dia, um catálogo dedicado aos escritores e poetas da terra. O projeto será completado com novos catálogos – o próximo voltado às artes plásticas e depois às artes cênicas. ‘‘Se tudo correr bem, no futuro pensamos em criar uma fundação da arte paranaense’’, planeja Burko. Formado em Biologia e Odontologia, o empresário por mais de 30 anos foi professor na área biológica. ‘‘Adorava dar aulas’’, confessa. O gosto pela vida escolar reflete-se noutro de seus investimentos: ‘‘Sou um dos sócio-proprietários do Colégio Dom Bosco’’. Apreciador de teatro e literatura, além das artes plásticas, Burko faz uma analogia entre a cozinha e o laboratório de sua fábrica – em ambos os casos é necessária a intuição, a escolha dos elementos, um pré-conhecimento dos odores. A culinária e a perfumaria estão próximas mesmo na matéria-prima. ‘‘Muito aditivo de cozinha vai no perfume: um coentro, um orégano..., comenta. Nesse meio já se fala até mesmo em ‘‘perfumes-gourmet’’. Bem, um dos segredos básicos da boa comida é o amor com que a pessoa cozinha. É o tempero essencial e único, que transforma os pratos. Isso seria possível na composição de um perfume? Para Júlio, sim. ‘‘É a mesma coisa. Se você puser uma pessoa muito fria, muito calculista para fazer aquilo, não vai dar certo. Você só terá um perfume bom se no manuseio colocar o seu interior, seu coração’’. Na volatização da matéria misturam-se outras essências, como a da imaginação, dos sonhos. ‘‘Digamos que você quer inovar e fazer um perfume que lembre água gelada, cachoeira. Não dá para definir, não existe precisamente um cheiro. Como é que você vai traduzir paixão, amor, segurança, sensibilidade? É muito vago. Na criação do perfume, você viaja muito mais’’. As fragrâncias atuais trazem um toque de frutas, que remete à jovialidade. E jovialidade é uma qualidade inerente à idade. Depende da pessoa, do frescor que ela traz em sua alma. O Talento encaixa-se nesta descrição, segundo o fabricante. Ele aposta na perenidade do produto, como acontece com Hora Íntima, lançado há mais de dez anos. ‘‘Ele é extremamente delicado, de uma sutileza inigualável’’, afirma. Assim como surgem os permanentes, outros caem na vala da efemeridade. Mas num tempo de tanta discórdia, tensões, misérias e mortes, onde é quase um acidente viver, urge a criação de alguma coisa que sugira a ternura. ‘‘O mundo está precisando de ternura’’, explicita Burko. Mas, que odor viria dela, para aconchegar o ser humano? Responde: – É difícil traduzir isso. A ternura tem que ser alguma coisa que chame a atenção, mas com extrema delicadeza, que dê paz. Porque estamos num mundo muito ríspido – se houvesse mais ternura, não haveria tanta violência, tanta corrupção, tanta malandragem. Eu acho que o que falta ao mundo é ternura.