PERFIL
Zeca Corrêa Leite
Sucursal de Curitiba
O goleiro Ricardo Pinto é um retrato na parede. O moço que desenvolveu uma carreira de sucesso no futebol brasileiro trocou as constantes viagens, passes e estádios desportivos pelo figurino de empresário. Mudou o projeto de vida, mas o cenário é quase o mesmo ele agora é proprietário do Centro de Futebol Ricardo Pinto, um complexo de 4.400 metros quadrados no bairro do Portão, em Curitiba. O espaço possui duas quadras (coberta e descoberta) de 1.400 metros quadrados cada, além de dois vestiários, sauna, sala de descanso, bar e administração, que somam outros 400 metros de área construída. O empreendimento custou cerca de R$ 1 milhão.
A frieza dos números contrasta com a sensibilidade de Ricardo, um homem que quando se emociona fica com os olhos marejados. Amoroso, colocou na balança, entre outros motivos, a saudade da família para decidir-se a decretar sua aposentadoria. Eu tinha passado por tantas coisas, por tantas experiências e não via graça em ficar longe de casa, sabendo que os meus estavam precisando de mim e eu não estava por perto. Queria conviver mais com meus filhos, minha mulher. Ricardo é pai de Rafael, de 10 anos, e Gabriel, de 6.
Depois de rodar o Brasil feito cigano, resolveu se radicar em Curitiba, cidade que o acolheu com muito carinho e onde jogou por mais tempo num time (Atlético Paranaense). Até os amigos foram mais preservados aqui. Além disso tudo, a família adaptou-se de tal forma ao cotidiano curitibano que o jeito foi fixar seus planos por aqui. Achei por bem pegar tudo que tinha guardado durante a vida profissional e investir. Achei um terreno muito bom, num local excelente, e vi que ali cabia nosso sonho. Graças a Deus, consegui.
O Centro de Futebol Ricardo Pinto atende a um público variado que vai dos 5 aos 80 anos, como brinca o ex-goleiro. Atento, ele se dispõe a atender jogadores que estão sem clube e querem manter a forma. Essa clientela fará treinamento específico com Ricardo, o mesmo que ele fazia nos clubes. Também garotos interessados em serem goleiro têm aula com o astro.
Deixar o profissionalismo não foi traumatizante para ele, como acontece com tantos outros. Foi uma opção, quando ainda poderia continuar a carreira. Ligaram para eu voltar a jogar ainda este ano, e eu não quis. Sempre fui de ler muito, aproveitava a concentração para ler, para poder refletir e ver o que estava acontecendo à minha volta. Fui me preparando de tal forma, que hoje não sinto falta.
Atleticano de coração, Ricardo Pinto não guarda rancores do incidente ocorrido no Rio de Janeiro, quando um torcedor do Fluminense atingiu-o na cabeça com uma pedra. Diz ele que aquilo foi um marco em sua carreira, pois mostrou-lhe a grandeza da afetividade.
A parte mais importante foi o carinho que recebi do povo de Curitiba: coxa-branca, paranista, e acima de tudo os atleticanos. Fui operado na segunda-feira à noite, porque o acidente foi no domingo, e na terça-feira à noite teve um jogo do Grêmio e eles entraram em campo com uma faixa: Paz nos estádios. Força, Ricardo Pinto.
Sobre a fama, ele tem uma visão particular: ela não é problema para ninguém. O que prejudica é a vaidade. Se a pessoa não trabalha direito o seu emocional, como irá conviver quando chegar o tempo em que não será reconhecida na rua? Graças a Deus comigo, até hoje, não senti isso. Aonde vou as pessoas me tratam como se ainda fosse goleiro do Atlético, diz.
E se isso deixar de acontecer? Não terá problema, porque eu não busco isso. Eu busco, sabe o quê? Tratar bem as pessoas. Digamos que eu esteja num shopping, a pessoa olha e não me reconhece para mim não tem problema. Eu não tenho mais vaidade. Ela acabou no futebol faz muito tempo. Coitado daquele que pensa que a fama vai durar para sempre.
A roda-viva é uma realidade palpável. Acho que a pessoa tem que ter consciência de que na vida tudo passa. Então é preciso se preparar para o seu novo momento. Qual é o meu novo momento? Acordar alegre, feliz da vida, e vir para a minha escolinha, a minha obra. Acho que o meu sucesso, hoje, é esse.





