Perfil - ''Somos mais sensíveis''
Elisiê Peixoto
De Londrina
Esposa dedicada, mãe participante, religiosa e decidida. São características da vice-governadora Emília Belinati, que conquistou o poder, mas ainda se emociona ao lembrar da infância humilde, vivida no sítio do pai, Sebastião Carioca, na Aviação Velha, em Londrina
A vice-governadora Emília Belinati define com sabedoria a marca que a mulher imprime à política e ao trabalho em comunidade: Temos os olhos voltados para as pessoas, somos mais sensíveis, enxergamos a longa distância. Ela fala sobre o assunto com a voz pausada, tranquila, mas firme e decidida, características dessa mulher que aos 54 anos já assumiu o governo do Estado 32 vezes desde que foi eleita vice-governadora (PDT), em 1994.
Ela nasceu em Londrina, na antiga Aviação Velha hoje Distrito do Espírito Santo e se emociona ao relembrar os Natais que passava ao lado dos pais e dos irmãos. À meia-noite saíamos de casa, a 12 quilômetros da cidade, e íamos à igreja. Ganhávamos saquinhos de papel crepom recheados de nozes. Era o nosso único presente de Natal. Minha mãe costurava o vestido que eu usava e meu pai nunca deixou de ir à igreja de gravata, paletó e chapéu de feltro, comenta.
Mulher do prefeito de Londrina, Antonio Belinati, Emília começou sua carreira política em 1990, quando se elegeu deputada estadual. Foi apontada a melhor parlamentar por dois anos pela comissão de imprensa da Assembléia Legislativa. Integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou as condições de trabalho do bóia-fria e o trabalho infantil. As atividades da CPI foram acompanhadas pelo Ministério Público.
Formada em Educação Física, Emília deu aulas em escolas estaduais de Londrina e Curitiba e integrou as seleções londrinense e paranaense de basquete. Presidiu a Associação de Proteção à Maternidade e Infância (APMI).
Sobre o poder político, Emília sabe pesar os prós e contras. O lado bom é colocar em prática ações que você sonhou um dia. Como constatar a instalação de uma empresa no Estado, a atuação junto às vilas rurais, ver crianças carentes sendo devidamente assistidas, menores sendo retirados das ruas. O lado ruim é a tensão diária, a falta de tempo para a família, a cobrança constante, define a vice-governadora, que desde que assumiu teve poucos dias de férias.
A política, segundo Emília, não fazia parte de seus planos. Sua meta era cuidar dos três filhos, Simone, Cyntia e Antonio Carlos, e dos netos, Andressa, Guilherme Antonio e Emyliana (por enquanto). Mas como esposa de político, participava das reuniões, opinava. O Antonio sempre trouxe a política para dentro de casa. A sala sempre estava ocupada por pessoas do meio. É uma característica dele atender muita gente na própria casa, se reunir para discutir planos, estratégias. Essa convivência, aliada à insistência do marido e dos amigos, acabou convencendo Emília a disputar um cargo público.
Sobre o futuro político, Emília não faz planos. Membro da Igreja Metodista Central de Londrina, ela ressalta a fé que tem em Deus e a Ele entrega seu caminho. A Igreja sempre esteve muito presente no meu lar, desde criança. Fui criada dentro dos princípios cristãos, que até hoje exercem uma influência grande na minha vida e na dos meus filhos.
Mas não esconde uma pontinha de frustração ao falar sobre sua candidatura ao Senado. Eu quis muito ser candidata a senadora, mas as circunstâncias não permitiram. Na verdade, foi a única vez que planejei, mas não era a hora, Deus não quis.
A vice-governadora defende que enquanto a mulher não entender que a sua contribuição é muito importante no contexto social do País, nossa cota de participação na política não aumenta. Vamos ser sempre minoria. Mas também entende que a limitação da atuação feminina no campo político se dá mediante a dificuldade que a mulher tem de deixar filhos e marido para exercer um cargo, a não militância num partido político expressivo, a falta de incentivo dos familiares. Tudo isso contribui para a mulher desistir de sua atuação política. O que é uma pena, ressalta.
Desafiando todas as dificuldades, Emília tornou-se uma das mulheres públicas mais queridas e respeitadas do Estado. Na Assembléia convivi com outros 53 deputados. Falei, opinei, marquei minha presença em meio a tarimbados políticos. Foi uma escola que me fez, inclusive, vencer a timidez.





