PERFIL - ''Não faço nada que seja moda''
Simone Mattos
De Curitiba
Um dos mais conceituados e respeitados arquitetos brasileiros, o curitibano Júlio Pechman, 58 anos, está em nova fase. Estou encontrando uma tranquilidade que nunca tive, admite. Este processo, que teve início no ano passado, se transformou numa incansável busca da espiritualidade. Estou fazendo massagens para reorganizar meus chacras, tenho repensado minha vida e procurado ajudar mais aos outros, comenta.
Também faz parte dessa nova fase uma de suas mais recentes aquisições: uma casa de praia em Outeiro das Brisas, 20 quilômetros ao Sul de Trancoso, na Bahia. Lá tenho novos amigos, ando descalço e fico em contato com a natureza, sem nenhuma formalidade, diz ele.
Além desta, o arquiteto tem outras duas casas: uma no bairro Champanhat, em Curitiba, e uma no Pacaembu, em São Paulo. Sempre gostei muito de receber amigos. Quando o Jose Carreras estava em Curitiba, fiz um almoço em casa para 300 pessoas, conta.
Como não poderiam deixar de ser, as casas são belas, confortáveis e decoradas com extremo bom gosto. Nas paredes da residência paranaense há telas de vários artistas plásticos curitibanos. Entre eles Sérgio Ferro, Carlos Eduardo Zimmerman e Bia Wouk. Gosto de dar valor ao que é daqui, diz ele.
Há 20 anos dividindo o seu tempo entre Curitiba e São Paulo, onde além do escritório também possui uma loja, Pechman não reclama. É um prazer ter duas casas tão diferentes, de estilos e épocas distintos. A construção em Curitiba já completou 25 anos, enquanto a residência em São Paulo foi projetada há apenas quatro.
Caseiro, ele não troca nada por uma boa leitura. Leio muito, de preferência livros em inglês, comenta. Pechman é poliglota autodidata. Aprendeu sozinho os idiomas português, inglês, francês, espanhol, hebraico, iídiche e italiano.
Há 33 anos praticando a arquitetura, ele admite que atingiu a maturidade profissional. Nessa altura não dá mais para brincar de errar, diz. Entre suas novas obras estão a remodelagem do Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, e o projeto completo arquitetura e decoração de um grande hotel cinco estrelas, do Grupo Caesar Park, que será inaugurado no ano que vem na Praça do Japão, também em Curitiba.
Nesses projetos ele promete imprimir a marca registrada de seu trabalho, que é a atemporalidade. Não há modismo, não faço nada que seja moda. Hoje dá para fazer o clássico e o moderno sem errar, garante. Entre os seus muitos trabalhos que cumprem essa missão está o projeto do Grand Hotel Rayon, em Curitiba, considerado um dos dez melhores hotéis de executivos do Brasil. Ele foi feito há cinco anos e continua atual, elogia.
Leia, a seguir, alguns trechos da entrevista que Julio Pechman concedeu à Folha Gente.
Como você concilia a vida em Curitiba e São Paulo?
São duas casas, dois supermercados, dois grupos sociais... Como você não está presente o tempo todo em nenhuma das duas cidades, você começa a ficar mais sozinho. Então eu acabo ficando muito mais em casa, tendo uma vida muito mais fechada.
Quantas pessoas auxiliam você na manutenção das duas estruturas?
Em Curitiba tenho uma equipe de 20 e em São Paulo mais umas 15 pessoas... Eu tenho uma capacidade muito grande para formar equipes... As pessoas trabalham comigo há 20 anos... Na estrutura doméstica, entretanto, tenho apenas uma pessoa em Curitiba e uma em São Paulo para me auxiliar.
Suas exigências estéticas são apenas em seus projetos profissionais ou na vida pessoal também?
Está presente em tudo, começando pelo comer. Aprendi com o meu pai que se deve comer sentado à mesa e com a mesa posta. Mesmo se estando sozinho, coma como se estivesse num banquete, dizia ele. Uso copos bons, louça boa e deixo sempre a comida num aparador, jamais a coloco diretamente sobre a mesa, pois não gosto de vê-la desfeita. A comida tem que estar sempre organizada.
E qual é essa comida? Qual a preferida?
Eu sou bem caseiro. Agora estou aprendendo a me cuidar, a não misturar certas coisas, estou seguindo regimes restritos por causa do colesterol.
Você vai para a cozinha preparar seus pratos?
Não, não preparo nada, só dou palpites. Eu digo o que vou comer, arranjo receitas e a pessoa que cozinha para mim as segue à risca. Sempre dá certo.
Mas qual é seu prato preferido? Uma gula...
Alcachofras.
E para beber?
Água, água, água... Bebo muito pouco álcool, de vez em quando um dry martini.
O seu guarda-roupas é organizado?
Sim. Eu compro as coisas de forma muito focada, uma vez ao ano só. Eu vou aos Estados Unidos e gasto até US$ 3 mil de uma vez só. Passo um dia inteiro fazendo compras, é o dia da feira. Durante o resto do ano não compro mais nada. Com esse costume eu perdi uma coisa que hoje em dia é o lazer de muitas pessoas, o sair para comprar. Me tornei menos consumista.
Qual são seus estilistas preferidos?
Nada que tenha assinatura eu uso. Estou falando de assinaturas aparentes, é claro. Um terno pode ser Giorgio Armani, mas não precisa estar marcado por isso. Eu gosto muito de Zgna, Armani... Nada muito fashion, eu sou muito mais para o clássico. Ainda não consigo fazer a linha clubber (risos)... Eu ando todos os dias de gravata. Tenho umas 40...





