Chiara Papali
De Londrina
Especial para a Folha
Em meados da década de 70, em Londrina, alguns meninos e meninas embarcaram (literalmente) numa aventura que marcaria para sempre suas vidas. E, mais ainda, a do menino Luiz Alberto Maran, na época com 13 anos: eles construíram uma jangada e durante uma semana navegaram pelas águas do Lago Igapó.
Hoje, Beto Maran é praticamente um ‘‘quarentão’’ (em suas próprias palavras), e acredita que aquele episódio trouxe para sua vida a marca do desafio. ‘‘A jangada era na verdade um quadrado de mais ou menos dois por três metros, construído com madeira, bóias de caminhão e isopor, onde mal cabíamos’’, diz. ‘‘Mas durante aquela semana fomos os ‘donos’ do Igapó, sentindo o vento no rosto e o gosto da liberdade.’’
A paixão por viagens, sempre temperadas por seu espírito aventureiro, é que levou o coiffeur Beto Maran a se identificar com veleiros. E a idealizar o projeto ‘‘Povo das Águas’’, com mais dois amigos: Marcos Antonio Valério, professor de educação física e programador, e Paulo César Werner, biólogo e diretor do Museu Nacional do Mar (São Francisco do Sul - SC). ‘‘Eu adoro viajar e descobri que velejar é a melhor maneira de fazer isto’’, acredita.
Ele já cruzou o círculo polar ártico de carro e chegou a ficar três meses viajando. ‘‘Por conta disto eu já conheço a Grécia, já estive na Lapônia, na Escandinávia... e sempre fazendo viagens econômicas, ficando em casas de família, hotéis de jovens, campings, e – o melhor – conhecendo pessoas e outras culturas.’’
Beto Maran e Marcos Valério começaram, há quatro anos, a investir no barco para viajar. O veleiro Paranã (‘‘oceano’’, em tupi-guarani) está sendo construído em Itapevi (SP), no mesmo estaleiro onde Amyr Klink trabalha em sua nova embarcação, e inclusive com sua assessoria e apoio técnico.
A expedição do projeto Povo das Águas está prevista para começar em setembro do ano 2000 e terminar em outubro de 2001. Seu objetivo é percorrer toda a costa brasileira e resgatar, por meio de fotos, filmagens e desenhos, as técnicas de construção naval da população costeira e ribeirinha, além de registrar como vivem o caboclo, o índio e o pescador. O ponto inicial do roteiro é São Francisco do Sul (SC). Em Belém (PA) a embarcação entra na foz do Rio Amazonas e navega até Iquitos, no Peru. Ao todo serão mais de 200 áreas de pesquisa e 12 mil quilômetros percorridos, em 16 Estados brasileiros.
Segundo Maran, a embarcação está sendo construída com alta tecnologia de navegação e segurança, capaz de velejar nos trópicos e nos pólos, equipado com quilha retrátil, que permite a navegação em águas de pouca profundidade. O barco, de 41 pés (12,7 metros) de comprimento, tem o casco feito em alumínio, material que resiste a impactos e é de baixa corrosão. O mastro, com 17,9 metros de altura, é de carbono e considerado um dos mais modernos do mundo. ‘‘Estou investindo primeiramente em segurança, já que sou amador. No mar, você tem que respeitar à risca as leis da natureza e da vida em uma embarcação, para não correr riscos’’, diz.
O barco deve ficar pronto em julho de 2000 e seus idealizadores estão em busca de patrocínio com empresas de todo o Brasil. O projeto, inclusive, foi cadastrado e tem o direito de usar a logomarca da comemoração dos 500 Anos do Brasil. Encerrada a aventura, Beto Maran enfrentará um desafio ainda maior: uma volta ao mundo. ‘‘Eu acredito nos meus sonhos’’ – conclui.

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