Curitiba - João Acuio é o astrólogo de uma ala de modernos de Curitiba. Jovem, voz grossa, palavras suaves que atingem o âmago de quem o procura para fazer um mapa astral. Guru seria uma palavra forte e pretenciosa. Acuio é mais um psicólogo que usa a astrologia para ajudar seus clientes a alavancarem seus processos de autoconhecimento.
  Paulista, chegou ainda pequeno no Paraná, ‘‘minha mãe achava que era um lugar bacana e viemos viver aqui’’, conta o virginiano, ascendente em Libra (característica que, segundo a própria astrologia, aponta para pessoas perfeccionistas que buscam o equilíbrio). A vocação Acuio encontrou dentro do colégio. ‘‘Tinha uma professora que fez nosso mapa para nos ajudar a escolher profissões e disse se quiséssemos nos aprofundar mais que a procurássemos.’’ E foi por aí que as coisas começaram a se delinear
em sua vida.
  Ele foi logo atrás de Tatiana Teresa de Aben-Athar, nome que recebeu sua única dedicatória no livro ‘‘Céu em Transe’’, obra lançada em 2002, onde o autor traça perfil de várias personalidades brasileiras como Renato Russo, Chico Science, Paulo Leminski, fala de Batman, o cavaleiro solitário e tece comentários sobre fatos, como o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, entre outras divagações.
  No encontro com Tatiana, o jovem aluno ficou surpreso. ‘‘Me impressionou muito ver aquilo. Como que ela, em duas horas de conversa, sabia de todas aquelas coisas sobre minha vida, somente com a hora, data e local de nascimento?’’ Foi aí que começou a aprender com a professora, enquanto fazia cursinho e depois a
faculdade de psicologia. Foi um curso pessoal, básico,
que levou Acuio a
continuar sozinho depois.
  Meio poeta, meio astrólogo, é isso que se percebe somente ao passar os olhos em ‘‘Céu em Transe’’. ‘‘Sou da geração dos autodidatas’’, explica para se fazer entender num emaranhado de informações que vai passando ao longo da conversa. Essa característica de ter estudado sozinho é uma tradição na astrologia mundial. Malditos pelos céticos, os apaixonados pelo estudo acabam ‘‘trocando a biblioteca pelo professor’’ e traçam, cada qual do seu jeito, o caminho em que buscam decifrar a vida de pessoas, cidades, países e até empresas.‘‘Fui me interessando cada vez mais, juntando a astrologia com literatura, com poética, com a escrita. E aí fui aprendendo.’’
  ‘‘Minha primeira experiência aconteceu nessas feiras em shoppings, essas feiras esotéricas. Tinha uma fila enorme e eu ficava olhando o mapa no computador e falava para as pessoas. Vi que a coisa funcionava. Eu sou virginiano, preciso saber se a coisa funciona.’’
  Então a astrologia é bem exata? ‘‘Descobri que a leitura era mais simples do que eu imaginava. Vi que era simplesmente ler. Traduzir aqueles símbolos para a vida das pessoas’’, desmistifica. ‘‘A intuição e a mediunidade só vão te ajudar a compreender melhor o cliente. Vão te auxiliar a entrar na pele daquela pessoa. Mas a astrologia não depende disso. Ela é
uma tradução’’.
  Como que é para o astrólogo ter uma namorada, se relacionar com as pessoas? Difícil? Há uma etapa eliminatória ao analisar o mapa do outro? Acuio explica que sempre teve escrúpulos em fazer uma análise prévia do provável parceiro, mas, hoje, ‘‘vê com mais cuidado’’. A mudança aconteceu naturalmente. Como estudioso, acabou digerindo a ciência como uma peça-chave em sua vida. Concluiu que, se poderia usar recursos para encarar um relacionamento com mais qualidade, não haveria problema em usá-los. ‘‘Uso, evidentemente, para aquilo que é mais interessante. Tento não me proteger. Acho que as pessoas precisam se envolver primeiro e só depois, quando houver conflitos e entraves, aí deixar a
astrologia entrar.’’
  Inicialmente, o trabalho de astrólogo não estava casado com a psicologia.
Atualmente, sim. Uma dá espaço para outra.
  Sua técnica é de fazer uma astrologia de impacto. Colocando o cliente ‘‘na parede’’, tenta ajudá-lo a resolver os problemas de sua vida através de sua experiência como psicólogo. Os ‘‘toques’’ vêm com força. ‘‘Às vezes. as pessoas têm encrencas na cabeça que são completamente antagônicas. Têm dificuldades de
admitir quem são e o que querem ser.’’
  Estudioso dos seres humanos, Acuio revela um fato bom sobre o que tem percebido nesse contato visceral com os outros. ‘‘Tenho me admirado muito. Vejo pessoas e experiências de vida incríveis. É tudo muito claro e íntimo. Somos muito repetitivos e banais, mas vejo coisa sublimes também.’’
  Essas constatações o empurram. Ajudam a fazer seus clientes se sentirem melhores. Estimulando-os a pensar, ativa um processo de crescimento individual. É aí que entra seu lado psicólogo.
  Traçar um perfil de alguém tão jovem, que já se infiltrou num caminho (em volta) de letras e símbolos, é tarefa difícil. João Acuio é um bom exemplo de como se pode ser várias coisas ao mesmo tempo. E de como há sempre uma alternativa de vida nova. Talvez os incrédulos estejam deixando uma porção de descobertas passar. Num processo de acelerada compreensão dos astros, o estudioso já percebeu uma coisa: vai continuar perambulando e possivelmente um dia deixe de ser astrólogo para se dedicar a outros estudos. Isso ele já espiou no seu próprio mapa.

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