Pequeno príncipe
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de junho de 2009
Márcio Maio<br> TV Press 
Caio Blat passou anos sem querer ficar marcado na figura de mocinho. Mas sua estreia em uma novela das oito, como o doce Ravi de ''Caminho das Índias'', foi quase um confronto a tudo que o ator se recusou a fazer desde que começou sua carreira na tevê, no início da década. Agora, ele encarna o típico herói, que faz de tudo para agradar a esposa, a inquieta Camilla, de Ísis Valverde. Porém, com algumas vantagens para seu intérprete que fazem toda a diferença e deixam seus olhos brilhando: a experiência de 18 anos de profissão aliada a todos os conflitos do choque de culturas de um matrimônio entre um indiano e uma brasileira. ''Fiz tudo o que sempre quis no cinema, no teatro e também na tevê. Busquei trabalhos ousados e distantes uns dos outros para fixar a imagem de ator múltiplo. Depois de quase 20 anos de carreira, a segurança é outra. E o Ravi é um dos personagens mais difíceis que já fiz'', confessa.
Casado com a atriz Maria Ribeiro, que encarna a policial Marília em ''Poder Paralelo'', novela das 22 horas da Record, Caio aproveita para assistir com a mulher todos os capítulos das duas novelas. ''Saímos de uma e vamos para a outra'', explica. Tudo para acompanhar cada passo dado nas tramas e, um ao outro, estudar e criticar o material exibido. ''É meu programa favorito. Isso me ajuda muito a melhorar a cada dia. Essa parceria é muito importante diante de um trabalho tão inusitado quanto interpretar um indiano'', analisa.
Ele confessa que nunca teve medo de arriscar. ''Por isso mesmo busquei no cinema filmes violentos, fortes, que me ajudassem a não ter essa imagem. Sempre quis ser visto como um ator múltiplo. E, agora, depois desse giro, é bom voltar a fazer um mocinho, com esse romantismo e tudo mais que ele tem direito. Tenho 29 anos e trabalho há quase duas décadas na tevê. E, nesse tempo todo, a diversidade foi a única coisa que eu fiz questão de conseguir, que já cheguei a exigir de mim''.
Sobre seu personagem e o universo indiano em que vive, Caio diz que compor um personagem com outra cultura demanda sempre esforço. ''Me sinto num sonho, numa ficção científica. É tudo tão exótico, diferente da nossa realidade, que parece uma lenda, um conto de fadas. Tem um distanciamento muito grande. E considero isso um privilégio, porque sou muito ligado à cultura oriental e às histórias indianas. Não sou budista, mas pratico meditação há muito tempo e adoro a filosofia oriental''.
Seu persongem é um dos que não viajaram à Índia para gravar e ele admite que está ''morrendo'' de vontade de conhecer o país, ''mas é engraçado porque, nas ruas, quase ninguém acredita que eu não gravei lá. Falam sempre ''ah, estou falando daquela cena que você fez lá na Índia''. Eu respondo que não, que é cidade cenográfica. Isso me mostra que estão embarcando na história''.
Desde sua estreia em novelas, há 15 anos, Caio Blat só fez um protagonista. No entanto ele não se incomoda em não receber papéis principais. Não tenho um perfil de protagonista. Acho que eles devem ser mais fortes, belos, com jeito de galã. Mesmo o único que fiz, o Rafael, de ''Um Anjo Caiu do Céu'', não era para mim. O primeiro ator a ser convidado foi o Fábio Assunção, mas na época não rolou. Aí o Dennis Carvalho sugeriu uma mudança no perfil do anjo e optaram por criar um mocinho mais jovem e atrapalhado. Eles arriscaram me escalando e deu certo. Mas fiz papéis muito bons que eu não trocaria por nenhum protagonista. E não preciso do ''status'' de ''principal'', não tenho essa ''fome''. Só quero distribuir meu trabalho de maneira acessível à população. Nesse sentido, o cinema e o teatro ainda me entristecem''.
Ao explicar essa ''tristeza'' em relação ao cinema e teatro, o ator lembra que na infância e na adolescência teve muitas oportunidades na vida, e queria ver hoje o mesmo ao seu redor. ''Pude estudar, fazer uma faculdade, optar por uma carreira artística, mas hoje, os filmes que faço com o dinheiro público são mostrados no cinema por um preço alto. E nessa questão da pirataria, sou totalmente a favor de distribuir DVDs a preços populares.
A pirataria é um sintoma da falta de acesso das pessoas à cultura. Várias produções são feitas com incentivo fiscal, através de uma política cultural. E, no momento em que ficam prontas, tornam-se produtos de mercado. E quando chega ao cinema, a pessoa tem de pagar 20 reais. Com isso, você exclui o acesso à arte da maior parte da população. Por isso eu sou radicalmente a favor das cotas. Sejam raciais, sociais, enfim. É uma distorção sim, mas necessária para corrigir outra bem maior e mais antiga.
A carreira de Caio Blat começou por influência de sua mãe. Um dia, quando ele tinha apenas 4 anos, ela o levou para um teste de comercial. Sem entender muito bem o que estava fazendo ali, o menino fez a sua parte e se deu bem. A partir dali, gostou da brincadeira e logo iniciou seus estudos. Em 1991, já estava na tevê, participando do elenco do infantil ''O Mundo da Lua'', da TV Cultura, como o pequeno Big Bad Boy. Já no ano seguinte, com 12 anos, passou a apresentar o educativo ''O Professor''. ''Foi uma grande escola para mim. Lá comecei a aprender a fazer tevê'', reconhece.
De lá, em 1994, estreou nas novelas no SBT, na bem-sucedida readaptação de ''Éramos Seis'', que praticamente emendou com o ''remake'' de ''As Pupilas do Senhor Reitor''. Se dedicou aos estudos a partir de então e voltou ao ar só em 1998, também na emissora de Sílvio Santos, participando de ''Fascinação''. Mas um ano depois recebeu o convite para seu primeiro personagem na Globo, em ''Chiquinha Gonzaga'', quando encarnou o jovem músico João Batista, que se envolvia com a protagonista interpretada por Regina Duarte. ''É um dos trabalhos dos quais mais me orgulho'', elogia.
Agora, Caio aguarda o lançamento de cinco longas que contaram com sua participação. Em ''Bróder!'', de Jeferson De, o mais comentado, interpreta um morador da comunidade do Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Caio encarna um dos protagonistas, Macu, um branco ''sob a perspectiva dos negros''. ''Achei o máximo ter sido escolhido. É brilhante a ideia de mostrar um branco se sentindo essencialmente negro'', valoriza.
Além dessa produção, o ator filmou com a mulher, Maria Ribeiro, a comédia romântica ''Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos'', de Paulo Halm. ''Tem um tempero especial por nós estarmos juntos'', frisa. Caio também marcou presença em ''Os Inquilinos'', de Sérgio Bianchi, ''Ninguém me Avisou que era Assim'', de Laís Bodanzki, baseado em experiências de adolescentes de colégios da elite paulistana, e na adaptação do clássico ''O Bem Amado''. ''Quero, cada vez mais, me aventurar em todas as possibilidades de interpretação. Não tenho o menor medo de arriscar. Assim deve ser feita a carreira de um ator'', filosofa.


