Christine Pietraróia Nogueira, 44 anos, pode se considerar uma pessoa privilegiada. Entre os cerca de 800 mil brasileiros que vivem hoje nos Estados Unidos, muitos dos quais na ilegalidade, ela conquistou uma invejável posição profissional. Hoje, Christine ocupa um alto cargo na Harvard University, instituição com patrimônio de 19 bilhões de dólares e o nome mais conhecido no mundo depois de McDonald’s. Ela trabalha com biotecnologia e indústria farmacêutica; ‘‘vende’’ idéias, projetos e conceitos, ou seja, propriedade intelectual.
O trabalho de Christine é uma espécie de ‘‘marketing científico’’. Por exemplo, um cientista descobre um novo tratamento para o câncer. A universidade não tem condições, nem verba, nem interesse em desenvolver esse trabalho. Isso porque, entre descobrir um tratamento que pode ser eficiente, até testá-lo em humanos, conseguir aprovação do FDA (Food and Drugs Administration) e colocá-lo no mercado, é preciso muito tempo e dinheiro. A universidade busca, então, parceiros que possam investir no teste e desenvolvimento desse tratamento potencial. Uma empresa capaz de ‘‘pegar a bola e fazê-la correr’’. É esse elo entre ciência e indústria que Christine estabelece.
De passagem por Londrina, ela falou à Folha Gente sobre seu trabalho e sobre a experiência de viver nos Estados Unidos.
Nascida em Londrina e formada em Farmácia e Bioquímica pela UEL, Christine fez mestrado e doutorado em Genética, na USP de Ribeirão Preto, pós-doutorado na Universidade de Michigan, em Ann Arbor, e foi professora da Escola de Medicina da Universidade de Boston.
Pesquisava, em laboratório, a genética do câncer. Até, que, sem abandonar a Ciência, decidiu que era hora de se voltar para a carreira em business. Partiu, então, para um novo mestrado e não demorou a voltar ao mercado de trabalho.
‘‘Cheguei à conclusão de que, na pesquisa, já havia atingido tudo aquilo que queria quando comecei’’, analisa. ‘‘Tinha meu laboratório, recebia verba do National Institute of Health, tinha alunos trabalhando em minha pesquisa. Conclui, também, que não era isso o que eu queria fazer pelo resto da minha vida. Na Ciência, não existe outra alternativa senão dedicar-se exclusivamente ao trabalho, 24 horas por dia, 365 dias por ano’’, explica. Christine casou-se em 1993 com o físico Peter Garik e tem uma filha, Anna Victoria, hoje com 5 anos.
Pesou, também, na decisão, o fato de a ciência ser uma atividade muito solitária. ‘‘Eu sentia muita falta do contato com gente, e o que eu faço hoje exige isso. A pesquisa científica é uma atividade muito solitária. Fiz o curso de Business para desenvolver as habilidades que o mundo dos negócios exige. Ciência trabalha sobre a evidência, o dado; o negócio é mais sobre potencial. Isso me ajudou a fazer a transição’’, diz.
A ‘‘fome’’ por criatividade a levou a procurar formas alternativas de se expressar. Fez cursos de desenho, escultura e, recentemente, de texto de ficção. ‘‘Uma questão de sobrevivência’’, brinca. E acrescenta: ‘‘Se não exercito meu lado criativo, fico muito chateada. Adoro cinema, música, literatura, enfim, tudo o que se relaciona às pessoas e a como elas se sentem’’.
Mesmo estando há 15 anos nos Estados Unidos, Christine não troca música de nenhum compositor ou cantor gringo por Caetano, Gilberto Gil ou Milton Nascimento. ‘‘Adoro também Elba Ramalho, e a música nordestina em geral, com todo seu vigor, toda sua energia. Nossa música é nosso passaporte’’, avalia. ‘‘Infelizmente, parece que tudo o se refere ao Brasil é quase invisível nos Estados Unidos. Outros estrangeiros, como os indianos e os haitianos, por exemplo, parecem ter uma presença muito mais forte. Veja que, em Boston, o filme ‘‘Central do Brasil’’, lindíssimo, ficou em cartaz poucos dias, sem grande destaque. ‘‘Eu, Tu Eles’’ foi exibido apenas durante três dias. E isso que a crítica é boa. O Brasil quase nunca está representado em feiras internacionais’’, lamenta.
Christine tem, entre seus livros, o que ela chama de autores étnicos, ou seja, os escritores indianos, chineses e de outras culturas. ‘‘Gosto muito, também, de Isabel Allende, adoro Gabriel García Marquez’’, diz. Ela acaba de ler ‘‘O Caso da Chácara Chão’’, de Domingos Pellegrini Júnior e gostou muito.

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