Curitiba - Pode soar familiar, mas certamente não é apenas pelo nome Jaime Bernardes que o jornalista, escritor, editor e tradutor português é conhecido. Fundador da Editora Nórdica - que trouxe para o Brasil best-sellers como o clássico Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach - ele foi responsável por publicar fenômenos editoriais das década de 70 e 80. Enquanto ajudava a escrever a história do jornalismo e do mercado editorial brasileiro - país que adotou em 1964 - Bernardes ainda teve tempo de lançar obras conhecidas, que assinou com pseudônimos. Alguns exemplos: o livreto ''Pérolas da Sabedoria'', em que assina como Al Stevens e o ''Dicionário de Ballet'', no qual utilizou o pseudônimo Ana Pavlova para publicar.
Adotar pseudônimos é uma prática comum entre escritores, mas que Bernardes optou para desviar das possíveis críticas à sua profissão de editor. Como a Nórdica era referência no mercado, ele não quis misturar as coisas e decidiu ''inventar'' alguns nomes para assinar e publicar suas obras. Agora, quatro anos depois de a Nórdica encerrar suas atividades, ele lança a edição revista e ampliada do livro ''Golfe, dicas e segredos'' utilizando seu nome verdadeiro como autor.
Aos 74 anos, depois de acumular práticas esportivas, como ginástica olímpica ele investe no golfe como um dos esportes mais completos ''que movimenta o corpo e a cabeça'', e decidiu escrever tudo o que aprendeu com a prática. O jornalista esteve em Curitiba para lançar o livro e conversou com o Folha Gente.
Jaime Bernardes nasceu em Lisboa, em 1933. Já na infância viveu situações inusitadas, que ele recorda com detalhes e precisão de datas que impressionam. Aos 9 anos, por exemplo, recebeu um desafio do diretor da escola em que estudava. Poderia fazer um teste para passar ao ginásio (como se chamava na época) e ainda ganharia uns trocados. Ele não tirou nota máxima porque errou apenas uma questão, mas passou no teste (e ganhou os trocos). Entretanto, o Ministro da Educação da época não deixou que ele passasse a fase, alegando pouca idade.
O resultado é que Bernardes ficou um ano sem estudar. Ao contrário dos garotos da época, aproveitou o tempo para frequentar as bibliotecas públicas de Lisboa, onde conheceu diversos autores brasileiros, de Jorge Amado a Érico Veríssimo. Sem saber, a experiência já seria um prelúdio para o que o destino reservaria ao lusitano. Bernardes começou a trabalhar cedo, com o pai, funcionário do banco português, mas logo em seguida já conquistou uma vaga como jornalista esportivo no jornal Diário Popular, de Lisboa. Em 1956, foi contratado por um jornal sueco para ser correspondente em Estocolmo. Dois anos depois, o Brasil ganharia a 1 Copa do Mundo naquele país. Os textos de Bernardes rodaram o mundo e, principalmente, chegaram ao Brasil.
Na mesma época, Bernardes pisaria em território verde-amarelo pela primeira vez. Quando viu a praia, em Copacabana, no Rio de Janeiro, decidiu: ''É aqui que eu vou viver para sempre''. Ainda não seria naquele ano, mas menos de uma década mais tarde, em 1965, o jornalista foi enviado para o Brasil como correpondente do jornal sueco em que trabalhava. Veio com a mulher, com quem está casado até hoje, e um filho. A outra filha do casal já nasceria no Rio de Janeiro. Bernardes continuou sua história aqui.
Nos primeiros meses, Bernardes escrevia notícias da Suécia mesmo estando no Brasil, mas logo aconteceu outro fato curioso que mudaria a carreira do jornalista. Ele foi o primeiro a escrever sobre um livro lançado na Suécia que falava do ''boom'' do Japão como potência econômica. O artigo fez tanto sucesso que Bernardes decidiu ele próprio traduzir e trazer para o País o livro ''O Desafio Japonês'', de Haken Hedberg. Seria o embrião da editora Nórdica. A obra vendeu 27 mil exemplares em apenas um ano, levantado o capital necessário para Bernardes fundar a editora, em 1973.
Em três décadas, a Nórdica se firmou como uma das mais importantes editoras do mercado editorial brasileiro. Publicou cerca de 500 títulos e foi responsável por lançar escritores como Millôr Fernandes, Carlos Eduardo Novaes e Esdras Nascimento. ''Mas a transformação do mercado me obrigou a encerrar as atividades. Não fui o único. Um retrato das editoras brasileiras mostra um cenário difícil. A Siciliano, por exemplo, está à venda'', exemplifica o jornalista.
Mas se a Nórdica fechou as portas, muitas outras se abriram para Bernardes. Ele reviu e ampliou o livro sobre golfe, que acaba de ganhar nova edição (a primeira foi em 1998) e quer ter tempo suficiente para se dedicar a dois novos projetos: um livro com suas memórias e outro sobre jornalismo. O primeiro deve ter prioridade, já o segundo deve reunir muita coisa da experiência profissional do escritor, mas também fazer um raio x do mercado contemporâneo. ''Hoje em dia, o jornalismo sofre um grande fenômeno: um espírito de manada''. Para ele, o jornalismo atual esquece dos detalhes. Uma característica que ele levou em conta em toda a sua carreira, seja como editor seja como jornalista.
Se pensa em parar ou se aposentar? Bernardes não dá nem sinal de que quer deixar isso acontecer. Enquanto concede a entrevista, toma um café e fuma um cigarro. Se ele se preocupa com a saúde? Ele responde: ''Muito, mas sou uma pessoa moderada. Não faço nada em excesso, só exercício. O importante é exercitar a mente e o corpo sempre''. Recado dado.

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