Passado a Limpo
O ambientalista Francisco Amarrilla Barreto, 46 anos, transformou um hobby no ponto de partida para que Foz do Iguaçu reencontrasse sua história. Contada por poucos e desconhecida por muitos, essa história emerge do trabalho solitário realizado pelo ex-guia de turismo, que não se limitou a conhecer de forma superficial os principais pontos turísticos da Tríplice Fronteira ou simplesmente se ateve a eles.
Barreto, um curioso, como ele mesmo se autodenomina, descobriu que próximo a avenidas badaladas ou em meio ao burburinho do centro da cidade está um rico acervo que ajuda a contar fatos que hoje não constam da história oficial do município, mas que em nada perdem em importância. Quem costuma transitar pela terceira pista da Avenida Juscelino Kubitschek, por exemplo, só reconhece ali um dos pontos de efervescência da ala jovem da cidade. No final da rota de lazer, mais precisamente na Rua Rio Branco 305, está a casa onde o pesquisador suiço Moisés Bertoni passou seus últimos dias. A casa pertence à pioneira Laís Carinzio e permanece fechada desde a morte de Bertoni. Na residência ainda estão objetos e móveis da época em que família Carinzio vivia ali, entre eles objetos pessoais do pesquisador.
A descoberta do ambientalista é resultado de uma pesquisa que ele iniciou em 1975. ''Nessa época comecei a fazer um levantamento de prédios históricos, aos poucos fui descobrindo que o acervo é muito mais rico do que consta oficialmente. Muitas casas foram destruídas sem que a população soubesse que ali se encontrava um pouco da história da cidade'', relata.
O trabalho de Barreto jogou luz sobre a embalsamada lei 1500, aprovada pela Câmara Municipal em 1990, mas que nunca saiu da gaveta. Mais além, o ambientalista descobriu que alguns nomes também não tiveram seu mérito reconhecido. O sargento do exército José Maria de Brito dá nome a uma das principais avenidas da cidade, mas numa enquete rápida poucas pessoa saberiam dizer quem foi ele. José Maria de Brito comandou em 1889 o primeiro grupo do exército a chegar à fronteira. Caminhando 69 dias a pé, encontrou uma região sem nenhuma identidade. Apesar das terras já pertencerem ao território brasileiro após o fim da guerra com o Paraguai, os moradores da vila só falavam o idioma guarani. São detalhes que escapam a memória. Para reavivar estes e outros momentos a busca de Amarrilla é constante e o levantamento minucioso.
A pesquisa inclui viagens a outros municípios, entrevista com familiares, elaboração de um arquivo de fotos, tudo sem deixar de lado seu principal instrumento, a curiosidade. Todo esse esforço em nome da preservação de uma história, que hoje precisa ser contada de forma mais fiel. ''Hoje é como se eu estivesse redescobrindo a fronteira'', diz o ambientalista, que estende seu trabalho de pesquisa aos países vizinhos Paraguai e Argentina. Nesse levantamento ele inclui também outras de suas paixões, a natureza. Amarrilla vem catalogando também novos espaços de turismo e lazer escondidos em áreas que se fossem melhor exploradas contribuiriam o para sua preservação. ''Hoje desconhecidas, essas áreas estão próximas a rios e cachoeiras e poderiam figurar entre as atrações turísticas do município'', defende.
Para ele que vem dando sua contribuição na preservação da história não existe nada mas gratificante do que compartilhar suas descobertas com os três filhos. ''Sei que meu trabalho não vai morrer nunca'', diz. O próximo passo é deixar registrado em um livro todo esse levantamento, mas esse projeto permanece em repouso, mesmo porque, segundo, ele há muito o que encontrar, muito a descobrir.





