Parar nem pensar
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sábado, 28 de abril de 2007
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Japonesa naturalizada brasileira, Chizuko Yogi nunca questionou a decisão dos pais de atravessar o planeta para vir morar no Brasil - mais precisamente em Londrina. Aliás, ela é totalmente grata pela escolha. ''Sou londrinense'', afirma com orgulho. Filha mais velha, Chizuko tinha sete anos quando subiu no navio que traria a família para cá. ''Chorava porque não queria deixar os amigos, mas parei de chorar quando me disseram que poderia comprar livros'', lembra.
Anos depois, Chizuko ainda tem a mesma paixão pelos livros, mas deixou lá do outro lado do mundo o estereótipo de orientais tímidos e quietos. ''A família toda é muito extrovertida'', avisa com um grande sorriso.
Outra herança familiar foi a preocupação com educação, algo que os pais não abriram mão. Chizuko até chegou a se formar em história, mas quando descobriu que sua missão era ensinar, cursou pedagogia e pós-graduação na área. Durante mais de duas décadas se dedicou aos alunos do Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (Ilece). ''Ainda estava na faculdade de história quando fui fazer uma visita e de lá saí inspirada. Foi amor à primeira vesta'', conta.
Leitora voraz, a professora jamais imaginou, até três anos atrás, que seria autora de um livro. E mais ainda que ele se tornasse um sucesso de vendas. Mas aconteceu - ''Aprendendo e Brincando com Música e com Jogos'' já está na sexta edição e vendeu mais de 73 mil exemplares em todo o País.
Dedicado a crianças de 2 a 12 anos, o livro, em dois volumes, vem com dois CDs de músicas que fizeram e fazem parte da infância de muitas gerações. Escrito depois de sua aposentadoria, a obra de Chizuko acabou sendo uma consequência natural de 26 anos de experiência. Mas foram os 10 últimos anos que deram respaldo para que ela pudesse escrever sobre educação musical mesmo sem formação acadêmica específica.
''Eu recusei duas vezes o convite para assumir o posto (de educadora musical) no Ilece, mas na terceira vez aceitei. A direção já vinha observando o meu jeito diferente de ensinar. Sempre gostei de diversificar'', revela.
''Meus pais escolheram vir para Londrina justamente na minha idade escolar. Em três meses eu já falava português'', conta Chizuko. ''É a idade em que a criança está prontinha para receber educação''. É lógico que ela mesmo se deu uma grande ajudinha. Depois de passar o primeiro mês em casa se adaptando, Chizuko partiu em dias de aventuras para conhecer o novo mundo. ''Bati na casa da vizinha, entrei e comecei apontar para as coisas e ela ia me dizendo o que era. Criança aprende rápido. Passou um tempo e eu pensei, bom daqui já sei tudo. Agora vou para outra casa'', lembra a professora.
É mais ou menos o que ela tem feito até hoje. Quando se aposentou - e foram quatro anos até que Chizuko conseguisse se desvincular totalmente porque os pedidos para ficar eram muitos -, ela passou a se dedicar a eventos culturais, principalmente os da colônia japonesa em Londrina. Tem participação especialíssima no ensino do Ikebana (arranjos orientais) e também é uma das integrantes do grupo Ishin Ladies, de taiko (tambores). Mas a cobrança para que escrevesse um livro acabou levando Chizuko a colocar as idéias no papel. Literalmente, porque a professora ainda é das que não querem saber do computador.
''Comecei achando que faria uma apostila, mas depois de quatro meses vi que tinha algo maior''. Um encontro com Mario Furtado, amigo dos tempos de colégio e representante de livros, a levou para um grande editora em Belo Horizonte. Depois de algumas negociações fecharam um contrato de cinco anos, algo difícil de acontecer no meio editorial, segundo Chizuko.
Além de ter seus livros espalhados pelo País, a professora soube que também tem pelo menos um exemplar no Japão, que serve de material para alunos brasileiros por lá. Apesar de Chizuko não ter voltado uma única vez para a terra natal, sua criação já fez o caminho inverso. ''O livro aumentou o meu círculo social e eu continuo na minha profissão'', explica ela, que segue aceitando convites para palestras na região. ''Também recebo muitos telefonemas de professoras que querem mais informações'', conta.
Planos? ''Quero escrever outro livro, mas vai ser totalmente diferente'', avisa. Ela só não pensa mesmo é em parar.


