Sentado na primeira fila do Teatro Plaza Foz, o italiano Maximo Frachini mal esconde seu entusiasmo. Belíssimo, elogia, com a euforia de quem está vivendo grandes emoções. Uma euforia que turistas do Brasil e de vários países do mundo costumam expressar ao final do espetáculo apresentado durante quase duas horas e que retrata a cultura da Tríplice Fronteira. O que o público não sabe é que essa mesma euforia é compartilhada por quem está no palco. Quando a cortina se fecha e as luzes se apagam, não se encerra apenas mais um dia de trabalho. Para muitos integrantes do elenco, cada apresentação é uma forma de realização pessoal. Nos bastidores do teatro, famoso por receber personalidades que vão Liliana Belfiori, primeira bailarina do teatro Colón da Argentina e Yoshinory Yonyama, diretor da orquestra de Frederico Leopoldo, em Buenos Aires a celebridades e chefes de Estado, estão histórias de sonhos e desejos comuns a todo ser humano, mas que aqui só puderam ser realizados por meio da dança.   Esse enredo começa com uma curiosidade. Cerca de 90% dos bailarinos e bailarinas do Plaza não têm formação acadêmica ou passaram por uma escola de dança. A aptidão fala mais alto. Descoberto o novo talento, o conhecimento técnico vai sendo adquirido aos poucos, o que resulta na execução perfeita de coreografias que encantam um público exigente. Um exemplo é o quadro em que o tango é apresentado como destaque. Constantemente alvo de elogios, principalmente de quem conhece bem o compasso argentino. As comparações são feitas por donos de casas noturnas de Buenos Aires, que costumam incluir o espetáculo do Plaza Foz em seu roteiro de visitas.
  Nas audições realizadas pelo coreógrafo Jean Milan estão os mais diferentes perfis. O máximo de contato que Elisa Dias, 18 anos, teve com a cultura paraguaia foi quando trabalhava como vendedora em Ciudad Del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu. O ritmo de dança veio da experiência como madrinha da bateria do Porto Meira, bairro de classe média-baixa de Foz do Iguaçu. Com esse modestíssimo currículo, mas com boas doses de coragem ela participou de uma das seleções promovidas pelo teatro. Há um mês integra o elenco do Plaza, onde participa de praticamente todos os quadros, incluindo os que apresentam danças típicas do Paraguai. Quem vê Elisa no palco não percebe diferença entre ela e outros integrantes com mais tempo de experiência.   Engana-se quem acha que para ingressar no quadro de bailarinos o nível de exigência é pequeno. Não são poucos os que passaram pela decepção de serem reprovados. Beatriz Lima, 18 anos, teve que adiar por quatro anos seu sonho de pertencer ao elenco do Plaza. Fiz o teste pela primeira e não passei. Casei-me, tive filho e quando terminei o segundo grau resolvi tentar de novo, conta. Elisa e Beatriz passaram pelo mesmo processo de lapidação comandado pelo coreógrafo Jean Milan. Com a experiência de muitos anos de palco misturada a um pouco de intuição, ele vai dando uma nova função ao teatro.   Essa foi a minha proposta quando eu cheguei aqui, ocupar o valor artístico de Foz do Iguaçu que eu sempre soube que existia, revela. Jean defende essa tese não só com base na composição do atual elenco, mas também em função daqueles que se projetaram no Teatro Plaza Foz e atuam hoje em casas de espetáculo em diversos países. Aqui todos têm condições de sair para o mundo, afirma. Enquanto as fronteiras não se expandem, basta a muitos deles usufruir das conquistas pessoais.
  Ao abrir as portas do Teatro Plaza Foz para descobrir novos talentos, a direção da casa acabou dando a chance que muitos precisavam para buscar novos rumos. Exímio dançarino, o ex-menino de rua Ricardo Cristiano Freitosa, 22 anos, com poucas oportunidades de mostrar seu talento acabou seguindo passos errados. Viu sua vida mudar quando Jean Milan o convidou para participar de uma seleção. Há seis anos, eu não era uma pessoa legal, não tinha nada concreto, mas sempre tive sonhos de ser um dançarino profissional, eu nunca tive medo de conseguir. Já me acho um vencedor na vida, por ter conseguido sair de muitas coisas ruins, como as drogas, por ter saído do subúrbio. Procurei ser uma pessoa melhor não só aos olhos dos outros, mas um vencedor pra mim mesmo; me transformo quando subo num palco.
  Para o coreógrafo Jean Milan, lidar com o fator humano também tem sido fundamental para descobrir novos talentos. Ricardo é uma das revelações do espetáculo. Todos passam por uma entrevista, eu converso com todos eles. Sei quem eles são. Se essas pessoas vieram é porque elas querem toda uma vida nova, explica o coreógrafo.
  Estar no palco do Plaza Foz virou um sonho também para muitas adolescentes. Carla Patrocínio tinha 12 anos quando conheceu o teatro numa excursão da escola. Quando eu vi tudo aquilo, pensei, meu Deus um dia vou trabalhar aqui. Passar no teste para Carla acabou se tornando mais do que a concretização de um sonho. O palco virou lição de vida e não um simples passaporte para a fama. Eu já tive esse desejo de ter fama, hoje não tenho mais. Isso aqui pra mim é uma escola, foi importante para a minha formação como pessoa. Muitos entram aqui sem saber nada e saem profissionais.   Ainda que exista a possibilidade de seguir carreira, nem todos pensam em continuar por muito tempo no palco. Crislaine Marcondes de Brito, 18 anos, aprendeu a gostar de dança com as irmãs que já trabalhavam no Plaza. Ama o que faz, mas sabe que esse tempo vai passar. Crislaine, que cursa a faculdade de Publicidade e Propaganda, aproveita o tempo que se dedica ao teatro para extrair um aprendizado que ela sabe que jamais vai adquirir no banco escolar. A noite é uma lição, te mostra como viver, como você tratar as pessoas, como ser uma pessoa íntegra, mostra um todo da vida.
  A visão que Crislaine tem do mundo artístico e que muitas vezes não é compartilhada por quem conhece um outro lado da vida noturna é reflexo da ótima convivência entre o grupo. A troca de experiências é constante. É muito interessante, pessoas que a gente acha que não vão conseguir, acabam surpreendendo, o medo é tanto que a pessoa às vezes esconde o talento. Gente que você acha que não vai conseguir acaba brilhando mais do que quem está aí há tanto tempo, diz Kátia Pacheco, que tem 10 anos de Plaza Foz.   Tudo o que você passa para eles é um informação nova, então eles degustam isso. É como fazer a pessoa se descobrir, diz Jean Milan, que também credita a facilidade de aprendizado a paixão natural pelo palco. O palco é a nossa sala de estar, o suor é o nosso prêmio, e o aplauso é o grande Oscar da vida. Essa, para ele, é a verdadeira visão da arte, muitas vezes escondida na constante busca por fama e dinheiro.

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