Curitiba - ''Meu caminho é estar no terceiro setor, tentando ajudar a mudar a realidade''. A frase dita pela diretora de Relações Institucionais do Hospital Pequeno Príncipe, Ety Cristina Forte Carneiro, é o resumo perfeito quando se tenta falar sobre a vida dessa paulista, que veio ainda bebê morar em Curitiba, e por aqui optou por uma trajetória voltada a ações sociais, em especial aquelas que buscam garantir uma vida melhor para crianças e adolescentes.
À frente do Pequeno Príncipe, entidade sem fins lucrativos consolidada entre os maiores hospitais pediátricos do Brasil, desde 1999, Ety acumula inúmeras iniciativas que resultaram em melhor atendimento e garantia dos direitos de seus pequenos pacientes. Um dos programas que merece destaque é o Família Participante, que determinou que a criança internada tinha direito a ter um familiar como acompanhante. Isso aconteceu em 1982, oito anos antes do assunto virar lei com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado em 1990.
''Que direito o hospital tem de afastar as crianças de sua família justo no momento em que estão todos muito fragilizados?'', questiona. A ação se estendeu para fora do hospital, com campanhas de conscientização e de mobilização da sociedade sobre assuntos como prevenção e diagnóstico precoce de doenças e de enfrentamento à violência doméstica. ''Minha inserção foi importante para mobilizar a comunidade, porque nós, do hospital, percebemos que estávamos fazendo muito dos nossos muros para dentro, mas havia outras questões que também podíamos interferir'', conta.
Foi exatamente com esse objetivo que Ety, representando o hospital, foi participar de outras instâncias, como os conselhos Estadual e Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, dos quais faz parte atualmente, e até de instâncias internacionais de debate, como a Cúpula Mundial da Família, ligada à ONU, todas essencias para a formulação de políticas públicas para o setor.
O resultado de tanta dedicação tem merecido reconhecimento. Em dezembro, Ety recebeu o prêmio ''Mulheres Mais Influentes do Brasil'' (promovido pela Gazeta Mercantil e pelo Jornal do Brasil) na categoria Terceiro Setor. Um dos principais projetos levados atualmente pelo hospital, o Projeto de Ampliação, foi eleito o melhor case de maketing do Paraná pela Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, seção Paraná (ADVB-PR). O projeto também ganhou o Prêmio Top de Marketing na categoria ''Saúde''.
Apesar do trabalho exigir atenção constante, ela não deixa de lado a vida com a família, o que envolve o marido, o empresário e ambientalista José Álvaro Carneiro, os dois filhos, Elsa de 18 anos e Luiz, de 13, e os pais. ''Eu prezo muito a convivência com a família. Apesar da correria, almoçamos todos os dias em casa, tomamos café da manhã juntos, quase sempre jantamos juntos e todo domingo tem almoço familiar na casa do meu pai e da minha mãe'', diz.
Ela confessa, no entanto, que por conta do trabalho teve que deixar de lado outras atividades pessoais que também considera importantes. É o caso das aulas de inglês e de Pilates. A retomada dos dois cursos está em seus planos para 2008, assim como o contato maior com os amigos e uma viagem de 40 dias com a família. ''Quero retomar o inglês e que o exercício físico esteja presente três vezes por semana e também voltar a fazer almoços aos sábados em casa com os amigos e fazer uma viagem com a família'', revela.
O interessante é que sua vida podia ser bem diferente. Filha de Luiz Forte Netto, arquiteto e urbanista de renome e atual secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano, ela chegou a seguir a carreira do pai. Fez vestibular e passou em dois cursos, Medicina e Arquitetura, começou a estudar os dois, mas acabou optando pela profissão paterna. ''Quando comecei medicina, senti falta de humanização no atendimento. Muitas questões que eu valorizava, como o toque, o olhar, a escuta, naquele momento não eram diferenciais necessários. Já o começo do curso de arquitetura é muito intenso. Além de entender a importância da forma, você também aprende a função dos espaços, de abrigar, de inspirar, de realizar desejos. E optei pela arquitetura'', diz.
O mundo do luxo e da beleza da arquitetura não durou muito. Apesar de gostar da profissão, ela sentia falta de uma atividade que trouxesse mais retorno à comunidade, em especial a sua camada mais pobre. ''Sempre tive na minha vida inteira uma forte presença de ações sociais na família'', afirma, lembrando que sua mãe, Ety Gonçalves Forte, sempre foi voluntária e há 40 anos dirige a entidade mantenedora do hospital. Assim, como o pai, que também é diretor da mantenedora. Como resultado, as três filhas, Ety, Patrícia e Tatiana acabaram indo trabalhar no Pequeno Príncipe. As irmãs, formadas em Psicologia, segundo Ety, foram fundamentais para a implantação de práticas de humanização no hospital.
Ety entrou no hospital quase por acaso. Inicialmente em 1999, queria apenas desenvolver um projeto. Em 2000, no entanto, assumiu a coordenadoria de Marketing para buscar patrocínio para viabilizar um grande congresso de pediatria. Acabou fazendo um MBA em Marketing pelo ISAE/FGV e mudou de profissão. ''Fiquei maravilhada com o que estava fazendo. Organizei toda comunicação falando sobre a nossa história, contando que era dirigido por voluntários, que não visávamos lucro, que 70% do atendimento era voltado ao SUS, mas que sempre havia o desejo de fazer a melhor medicina para todas as crianças. Aí me apaixonei e nunca mais saí daqui'', diz.

‘‘Me inserir no hospital me fez perceber que a gente pode ser do tamanho dos nossos sonhos. Para isso, é preciso querer muito, capacitar-se, aprender a transformar sonho em projeto e transformar projeto em realidade. Isso é possível’’.

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