A intuição como ferramenta de criação. Na longa história que narra a paixão do artista plástico Nelson Bucalão pela arte, a intuição tem um papel fundamental. É ela quem move a mão do artista e o faz criar quase que compulsivamente. Bucalão chega a se dedicar 12 horas por dia a uma única obra, ou abrir várias frentes de trabalho ao mesmo tempo. ‘‘Se pudesse levaria o barro para a cama’’.
Falar de intuição pode soar vago quando se busca resposta para algumas de suas obras, mas é com ela que o artista consegue definir melhor como funciona seu processo de criação. ‘‘Normalmente se diz que se precisa de inspiração, de elementos para criar. Eu acredito que tudo isso é muito bom, mas ainda assim acho que se eu estivesse longe da sociedade, preso, e me dessem papel, tinta, barro, tela, as obras sairiam da mesma maneira, quer dizer, é uma necessidade, uma necessidade que antecede a inspiração, que vem antes de qualquer outra coisa. Muitas vezes é difícil a gente dizer isso porque dá a impressão de que quando se ouvem as outras pessoas dizerem ‘ah! eu me sinto inspirado, eu vou fazer’; criação não é como se fosse ao bel prazer.’’
Nelson Bárbara Bucalão nasceu em Sabáudia, no norte do Paraná. Autodidata, iniciou cedo seu aprendizado. Aos 12 anos começava a dar vazão à sua intuição, sob a chancela do mestre Alberto Paolowich. Na igreja de Sabáudia estão seus primeiros trabalhos. Foi ali que Bucalão estreitou os laços com a arte sacra. Fase que o acompanhou até pouco tempo.
Hoje o artista tem na mitologia sua base de criação, mas sempre seguindo uma mesma tendência. Todo o trabalho de Bucalão vem da figura humana, da evolução dessa figura. Essa, aliás, é uma concepção que está explícita em uma de suas mais recentes obras. No jardim da chácara, onde ele se recolhe e muitas vezes se isola para criar está uma escultura que chama a atenção não só pelos seus três metros e meio de altura ou pela beleza. Nela um homem vai moldando o próprio corpo. ‘‘Mostra o ser humano tentando se refazer em todos os momentos’’, diz. O rosto é a imagem e semelhança de Bucalão. A escultura representa uma fase da vida do artista.
Há três anos e meio Nelson Bucalão descobriu que estava com leucemia. Em mais um desafio imposto pela vida, ele foi descobrindo um novo homem. Nessa descoberta passou da tela para a escultura. Foi a forma de atender a uma necessidade do artista. Ao saber da doença, ele quis deixar marcas de sua passagem pelo mundo. Obras que pudessem ser mais facilmente contempladas e que não ficassem restritas às paredes de uma casa ou museu. O desejo deu origem a um acervo que pertence a diversos órgãos públicos ou estão em praças e avenidas. Bucalão ainda está em tratamento. Tem um caminho longo a percorrer até a cura, mas essa jornada não diminuiu a paixão do artista pela vida. ‘‘A doença me enriqueceu, aprendi com ela. O susto me fez parar para a reflexão, estou vivendo mais’’.
Bucalão procura se renovar também por meio da leitura, outra de suas paixões. Em sua biblioteca estão obras de Cícero, Homero e Platão, entre outros pensadores. Uma coletânea que prima pela qualidade, como ele gosta de frisar. ‘‘Minha biblioteca não está entre as maiores do mundo, mas eu tenho certeza de que aqui estão suas 100 maiores obras’’.
Nelson Bucalão é um artista reconhecido no Brasil e no exterior. Expondo seus trabalhos desde 1983, realizou 35 exposições. Nesse período, conquistou prêmios, títulos e medalhas outorgadas por entidades públicas e privadas. Mas o maior reconhecimento do artista está em ter suas criações compondo os mais diferentes acervos. Do Museu de Arte Moderna da Bahia ao acervo particular do ator Gianfrancesco Guarnieri, além de obras em Leningrado, Moscou, Lituânia, Alemanha, Itália, França e Estados Unidos.
Morando há 20 anos em Toledo, Bucalão construiu uma chácara para morar e montar seu ateliê. Nesse espaço ele guarda uma coleção de mais de 400 telas e cerca de 130 esculturas espalhadas pelo jardim. Quem visita o local tem logo a compulsão de questionar o artista sobre as fontes de inspiração que deram vida à imensa variedade de obras. Mais uma vez Bucalão utiliza a intuição como argumento, e acrescenta à resposta um tom filosófico: ‘‘O artista não tem tempo de buscar inspiração, o artista é arte pura’’.

mockup