Curitiba - Conversar com a escritora gaúcha Lya Luft é um frescor para a mente. Lya é uma grande observadora do mundo e, por isso, fala dele com muita propriedade. Se define otimista em relação à vida e ao ser humano e acha que vivemos num tempo fascinante e assustador ao mesmo tempo. Aos 68 anos, Lya é dona de uma obra que passeia por vários gêneros. Na conta dela estão cerca de dez romances, quatro livros de poesias, um de crônicas, dois ensaios e um livro infantil. ''Alguns escritores transitam com toda a naturalidade por diversos gêneros. É interessante que um artista plástico pode fazer pintura e escultura que ninguém estranha essa versatilidade'', pontua.
No próximo mês, a escritora lança um novo título, ''Em Outras Palavras'', uma seleção das crônicas que escreve para a coluna semanal da revista Veja, além de outro livro infantil, que será uma continuação do primeiro, ''Histórias de Bruxa Boa'' - o livro nasceu de uma brincadeira de Lya com suas netinhas gêmeas. A carreira como escritora começou mesmo em 1980, com o romance ''As Faceiras'', mas antes disso lançou dois livros de poesias, ''Canções de Limiar'' (1964) e ''Flauta Doce'' (1972) e um de contos chamado ''Matéria do Cotidiano'' (1978).
A escritora, que tem mestrado em Linguística Aplicada e Literatura Brasileira, lecionou, ao longo de dez anos, no ensino universitário e até pouco tempo, definia sua profissão como a de tradutora. ''Hoje, na verdade, não traduzo mais. Eu e o meu ex-marido (Celso Luft), já falecido, éramos professores universitários e a gente trabalhava muito, muitas horas, todos os dias. Eu traduzia porque precisava ajudar a sustentar a casa. Então, eu considero uma profissão'', explica ela, que sempre traduziu do inglês e do alemão para o português, línguas que falava em casa desde pequena.
''A literatura é para mim um prazer. Não faço isso para ganhar dinheiro. Hoje eu já coloco minha profissão como a de escritora, mas levei muitos anos para adotá-la como minha profissão'' completa Lya, dizendo que traduzir lhe deu uma cancha grande de escrever e ajudou a afirmar seu estilo. Na antiga profissão, Lya Luft traduziu autores como Herman Hesse, Thomas Mann, Gunter Grass, Bretch e Virginia Woolf e disse ser o mais difícil da atividade, não a tradução de frases, mas tentar a aproximar uma cultura da outra.
''A cultura está embutida no ritmo de uma frase, nos espaços, nos silêncios, nas alusões, na geografia, na comida, nas plantas. Traduzi vários livros de Vírginia Wolf, para a Nova Fonteira, e várias biografias dela. E só muitos anos depois, fui, pela primeira vez, a Londres. E caminhando lá eu pensei: então é essa a cor da árvore, é esse o cheiro da rua? Quem sabe, se eu tivesse ido a Londres antes de traduzir os livros dela, se eu não teria feito algo diferente'', questiona ela, que não concorda em definir diferenças entre literatura feminina e masculina.
''Os homens fazem literatura forte e intelectual e as mulheres escrevem amenidades e com o coração. Isso são velhos preconceitos. Eu me lembro, uma vez, quando era mais moça, um crítico importante me elogiou dizendo: ela é mulher, mas escreve com mãos de homem. Pera aí, tchê!'', disse. ''Existem diferenças na linguagem falada entre homens e mulheres. Elas usam certas interjeições como ai que amor, ai que ódio, enquanto que eles falam muito palavrão. Existe uma diferença biopsíquica entre homens e mulheres. Isso reflete na sua arte? Pode ser. Como? Não sei. Prefiro dizer que existem escritores bons e ruins'', observa Lya Luft.
A escritora gaúcha, que recebeu o prêmio de melhor obra de 1996, da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, com ''O Rio do Meio'', diz ser difícil falar da literatura contemporânea brasileira. ''Vamos poder falar daqui a dez anos, quando tivermos um olhar mais distanciado. Acho que as pessoas estão muito aflitas, todo mundo que ser publicado e aclamado aos vinte anos e não é assim'', observa ela, que destaca no Brasil as obras de Rubem Braga, Manuel Bandeira e Lygia Fagundes Telles. Mas confessa ser mesmo admiradora e leitora de Guimarães Rosa. ''Leio muito ensaio e pouca ficção. Lembro do meu compadre Érico Veríssimo, que dizia que 'quanto mais leio romance, menos gosto de romance''', brinca Lya, autora de muitos romances.

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