Curitiba - Em 31 de dezembro de 2004, a engenheira curitibana Tamy Cecy acabava de concluir a sua terceira corrida de São Silvestre e na hora da premiação ouviu um relato que mudou a forma de encarar o esporte. A vencedora da categoria deficiente visual feminino contou que quando estava correndo pela Avenida Brigadeiro Luiz Antônio foi alcançada pela campeã geral da mais famosa corrida de rua do Brasil. "O batedor simplesmente tirou da trajetória a paratleta e a atleta-guia para a passagem da campeã geral. Eu realmente fiquei indignada com a situação", lembra Tamy. A partir daí, ela começou a se interessar pelo trabalho do atleta-guia e a ajudar deficientes visuais a saírem do sedentarismo e a conquistar saúde e autoconfiança.

A primeira dificuldade foi justamente a falta de informações disponíveis sobre o trabalho do atleta-guia. "Fui estudando, pesquisando. Naquela época, não tinha a tecnologia do Facebook. Então, encontrar pessoas, fazer contatos e conseguir informação era garimpar no deserto", recorda. Tamy sabia os benefícios que o esporte traz para a vida das pessoas. Quando criança, praticou ginástica artística até que uma patologia cardíaca colocou um freio em atividade de alto rendimento. "A partir daí toda a história do esporte foi clandestina, porque a medicina da época prescrevia repouso", recorda.

Tamy abraçou, então, modalidades mais leves, como ginásticas localizada e aeróbica e depois decidiu que era hora de nadar e pedalar. Em 1999, um cartaz em um ônibus chamou atenção para a realização de uma maratona e, mesmo sem saber exatamente onde estava entrando, decidiu encarar os 42 quilômetros da corrida de rua.

A falta de um tênis adequado acabou causando uma tendinite e a corrida foi interrompida no meio. "Essa primeira prova que aparentemente não deu certo foi o que fez o resto dar certo", constata. A experiência malsucedida fez com que ela buscasse um treinador, realizasse acompanhamento médico, definisse metas e objetivos. "Descobri que era isso o que eu queria", resume. "Comecei a treinar. Como eu tinha essa patologia cardíaca, sempre tive muito cuidado com as minhas limitações." Hoje, ela treina corrida seis vezes por semana; e natação e spinning três vezes por semana. E 10 anos após a inspiração durante a premiação da São Silvestre, a engenheira voltou à corrida de São Paulo, em 2014, dessa vez como atleta-guia.

Disciplina, determinação e consciência da importância de estabelecer rotina nos treinos são valores que a engenheira quer levar para os deficientes visuais para que eles tenham condições de superar as barreiras que a sociedade impõe. "É preciso ter atitude, capacidade de querer fazer, sonhar e realizar", diz.

AÇÃO

A primeira prova de Tamy Cecy como guia aconteceu em 2011 na Maratona Caixa de Curitiba, ao lado do paratleta Sérgio Luis Negreiros Dias, de 46 anos, que já disputou as Olimpíadas de Seul, Los Angeles e Barcelona. Na Espanha, ele foi campeão de futebol. A engenheira também atua como atleta-guia de Fernando Tenório Carvalho, de 34, morador da cidade de Lapa. Foi durante uma prova em Pontal do Paraná que Fernando teve contato pela primeira vez com o mar, uma experiencia inesquecível para a engenheira. "A gente tem até que ser um pouco poeta. Tem que encontrar palavras para ir descrevendo, durante a prova, toda aquela beleza, a natureza, para ele ficar tranquilo e não se assustar", diz.

Não existe um manual que ensine como ser atleta-guia e quando participa de provas acompanhando paratletas, Tamy também procura divulgar o seu trabalho, que ela chama de "ação". A ideia dela é incentivar outros corredores a abraçarem a causa e a curitibana está criando um tipo de banco de dados com informações de pessoas interessadas em tornarem-se atletas-guias. A engenheira explica que o aprendizado vem com a prática. "Cada indivíduo é um indivíduo e quando você começa a trabalhar com deficientes, você tem que ser um pouco psicólogo, tem que ter noção do histórico da vida dele", afirma. É importante conhecer a patologia, saber qual o grau de visão, a vida familiar, ocupação, enfim, tudo que possa contribuir para o sucesso do projeto.

A proposta do trabalho de Tamy vai além de tirar o deficiente visual do sedentarismo. "A minha intenção como guia é fazer com que ele crie independência e autonomia para a vida dele. A sociedade vai colocar barreiras, e elas são fortes, mas é importante que ele esteja preparado para imaginar que essas barreiras são removíveis no momento em que ele quiser", afirma. Ela lembra que um dos paratletas do seu grupo era aposentado por invalidez e cinco anos depois de começar a correr o rapaz começou a cursar pedagogia, a trabalhar e ainda desenvolveu um projeto voluntário de inclusão social. O pódio não é o principal objetivo. "A classificação é um mimo", comenta. Treinar e cumprir uma meta são os pontos mais importantes.

O comprometimento é a qualidade mais importante em um atleta-guia, afirma Tamy. Segundo ela, a partir do momento em que a pessoa aceita ser os olhos de um corredor, deve se lembrar que o protagonista é o paratleta e o resultado e a premiação são dele. Ela acompanha alguns paratletas durante o ano e lembra que primeiro agenda as provas deles, para depois marcar as suas próprias competições.

Além de incentivar adultos a atuarem como guias, Tamy apresentou essa atividade para um grupo de crianças em setembro do ano passado. Por meio de uma parceria, 10 crianças de uma escola municipal de Curitiba estiveram no Instituto Paranaense de Cegos (IPC) para correrem como atletas-guias.

Quem quiser mais informações sobre o trabalho de Tamy Cecy pode entrar em contato pelo email [email protected].

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