Neste exato momento, o advogado londrinense Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy está do outro lado do mundo entre advogados e antropólogos. Por conta de um prêmio conquistado pelo Instituto Max Planck, da Alemanha, ele participa de um congresso na Tailândia sobre pluralismo jurídico. É o único representante da América Latina na Commission on Legal Pluralism. Na bagagem de Godoy, algo especial: seu livro recém-lançado, Direito & Literatura – Anatomia de um Desencanto: Desilusão Jurídica em Monteiro Lobato.
Fruto da dissertação de mestrado – que recebeu nota 10 com distinção e louvor na PUC de São Paulo –, o livro traça uma relação entre o Direito e a Literatura. Depois de ler atentamente muitos clássicos nacionais e internacionais, o advogado percebeu o que ele chama de ‘‘desilusão jurídica’’ de alguns autores. ‘‘O ponto nevrálgico do trabalho é ter descoberto esse mal-estar dos autores em relação aos advogados’’.
Da Grécia Antiga ao interior paulista, Godoy relaciona textos de Aristófanes, que compara os advogados às vespas e seus ferrões. Também entram na lista o ‘‘Boca do Inferno’’ Gregório de Matos Guerra, Thomas More, Erasmo de Rotterdam, Jorge Amado, Érico Veríssimo e, principalmente, Monteiro Lobato, autor no qual o trabalho se aprofunda.
Forçado pela família a estudar advocacia, Monteiro Lobato acabou também se tornando promotor mesmo sem querer. De acordo com Arnaldo Godoy, até mesmo nos livros infantis, Monteiro Lobato faz referências aos advogados. ‘‘Mas ele viveu num tempo em que o Brasil era diferente, e o nível de injustiça era maior’’, explica o advogado.
Para o londrinense, Monteiro Lobato é o autor brasileiro que mais simboliza a literatura. ‘‘Foi ele que disse que ‘uma grande nação se constrói com homens e livros’’’, lembra. ‘‘Ele também ajudou a indústria dos livros ao conseguir imunidade tributária’’, completa.
Como advogado, Godoy acha que as críticas dos autores devem servir como reflexão para os colegas. ‘‘A qualidade do advogado é enfrentar a realidade’’, conta. ‘‘O direito não é uma coisa estanque’’, completa. Como professor, percebe que o ensino para os futuros advogados está mudando. ‘‘Há outras fontes de saber além dos livros de direito e os currículos têm mais disciplinas meta-jurídicas’’, diz Godoy, que foi professor da graduação por sete anos e agora dá aulas para turmas de pós-graduação.
A pesquisa para a dissertação de mestrado durou cinco anos. Para se transformar em livro, foram outros dois anos. Além dos 25 autores mais pesquisados, a bibliografia de ‘‘Direito & Literatura’’ tem, segundo Godoy, cerca de 800 livros.
De acordo com o advogado, o objeto de estudo poderia ter sido outra abordagem artística. ‘‘Proponho admitir que a Arte, enquanto manifestação da expressão humana, possa exprimir opiniões a propósito do Direito’’, diz. Poderia ter falado sobre música, pintura, mas optou pela Literatura.
‘‘A Literatura presta-se a oferecer informações e subsídios para compreensão do meio social, que é o caldo de cultura onde desenvolve-se o Direito’’, explica Godoy, que se prepara para um novo desafio, a dissertação de doutorado.
‘‘Além disso, não há advogados no país, pois esses espertalhões que manipulam os processos e distorcem as leis não teriam com que ocupar-se em Utopia. É melhor, pensam eles, que cada um defenda a sua própria causa e conte ao juiz exatamente o mesmo que teria contado a um advogado’’. Thomas More.

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