Olivier Anquier vive um caso de amor com o Brasil desde 1979, quando chegou aqui para nunca mais retornar ao país de origem, ou melhor, voltou, sim, mas na condição de turista. ''Sou um brasileiro de origem francesa'', confessa com um charmoso sotaque francês que os 28 anos de Brasil ainda não eliminaram. Um País que ele já cruzou de ponta a ponta a bordo de um Fusca verde 62, à procura de duas grandes paixões: gente e comida.
Com uma articulação verbal impressionante e uma simpatia idem, seus pontos fortes, além de outros atributos que aparecem mesmo estando de boca fechada, ele recebeu a FOLHA para uma entrevista exclusiva, semana passada, quando esteve em Londrina para um evento da Teixeira Holzmann.
Estar frente a frente com Olivier é se deixar envolver por um astral cheio de alegria de viver. Conversando com ele embarca-se numa viagem com destino mágico, a França dos anos 1960. Uma jornada que o devolve à infância e ao seu primeiro contato com a cozinha, aos quatro anos de idade, ''num encontro feliz, natural, guiado pelo meu pai, muito prendado, que transmitiu essa filosofia, esse prazer de proporcionar prazer através da comida, e o simbolismo da família reunida em volta da mesa''.
Quase uma década depois, aos 12 anos, outra lembrança que ele resgata remete ao fogão, quando Olivier realmente decidiu que seria cozinheiro, contrariando a vontade do pai, médico, que sonhava para o filho primogênito a mesma profissão. ''O que você vai fazer da vida se não quer ser médico?, perguntou angustiado. ''Eu olhei pra ele e escapou, meio timidamente, um 'eu quero ser cozinheiro'. Ah é, retrucou irado, então vá pra cozinha e me mostre o que você é capaz de fazer. Então fui e fiz uma tentativa de sobremesa; depois, uma omelete e assim foi...
Hoje, aos 47 anos de idade, ele se define como ''um padeiro, com certeza, mas também tenho outros rótulos, não exatamente o de chef. Aliás, durante muito tempo eu não gostava que me chamassem de chef, por pudor, por eu não ter estudado para ser chef, não ter me dedicado às regras do ofício com disciplina. Na verdade, eu não sou um chef clássico, eu sou um cozinheiro, um bom cozinheiro. Hoje em dia, como continuo trabalhando com isso, acabo sendo um profissional do mundo da gastronomia e, de uma certa maneira, tenho menos pudor quando falam que eu sou chef, mesmo não sendo. Mas sou outras coisas também - empresário, um pouco repórter, apresentador, diretor, criador, enfim, eu sou Olivier Anquier'', confessa com um largo sorriso que insiste em permanecer o tempo todo em seu rosto.
E esse sorriso, essa espontaneidade, é sempre assim? ''Eu não me me invento, eu sou assim no meu dia-a-dia. Na minha vida, eu tive muitas oportunidades de representar e nunca deu certo, a ponto de me recusar a fazer sistematicamente algumas coisas. Se tem alguma coisa que eu não sei fazer é ser outra coisa que não seja eu. Eu acredito que se tive e tenho receptividade do público aqui no Brasil, é porque eu tenho essa sinceridade que faz com que as pessoas gostem de mim. Isso não se ensaia, isso faz parte de mim''.
Voltando ao pudor e ao fato de não ter frequentado nenhuma escola clássica, foi justamente a ausência do formalismo profissional, segundo ele, que lhe deu essa desenvoltura, essa facilidade para administrar a cozinha. ''Meu jeito de ser fez efetivamente a diferença, e somando isso à minha personalidade, me deu essa descontração, que faz com que as pessoas se sintam muito próximas quando eu cozinho, porque eu faço igual ao que se faz em casa''.
E como encarar o desafio de uma área como a gastronomia, em que é preciso se reinventar o tempo todo para não cair na repetição? ''Cada dia é uma experiência nova. Não faço somente o que está no papel, como a receita do pão que, no papel é a coisa mais insípida que tem: farinha, água, fermento e sal. A receita no papel não muda, o astral da gente é que é diferente, a cada dia a platéia é diferente, descubro coisas novas que acrescentam alguma coisa para não cair na monotonia''.
Quanto aos projetos profissionais, Olivier revela que está em fase de retomar as filmagens do Diário do Olivier, que estava no ar até julho pela TV Record, no Domingo Espetacular, e mais uma participação curta no programa da apresentadora Maria Cândida, também da Record, do qual se afastou momentaneamente há 20 dias. ''Também quero montar um verdadeiro espetáculo culinário, não só a receita em si, mas uma coisa a ser apresentada como uma peça de entertainment, isso a gente já está sendo roteirizado. Vou começar por São Paulo, ficar por lá durante três meses, e depois viajar pelo País, como uma peça teatral. Paralelamente pretendo escrever um livro sobre a minha história no Brasil, uma trajetória que, em 2009, vai completar 30 anos. Não vai ter receita, nada disso, vai ser a minha história de sucesso'', revela.
Na área empresarial, Olivier é proprietário de um atelier de pães cuja produção é comercializada nos supermercados Pão de Açúcar.
Pai de Julia, 13 anos, e Hugo, 9, do casamento de mais de 15 anos com a atriz Débora Bloch, Olivier está namorando hoje a atriz de origem africana Ramata Koitê.

Pitadas de Olivier

Homens na cozinha
- Acho que os homens se aventuram na cozinha exclusivamente por prazer. Já a mulher, pela tradição cultural, vai para a cozinha por obrigação, o que pode desenvolver até uma certa aversão. Mas não vou dizer que o homem é mais perfeccionista, a postura é que é diferente, o lado prazeroso de cozinhar, não tem a obrigação de fazer, então muda completamente a relação. E, de certa forma, é um pouco isso que eu tento passar para as mulheres, convencê-las que sendo obrigação ou não, que seja um prazer, mesmo que tenham de fazer isso várias vezes ao dia.

Na viagens do Diário do Olivier, é impressionante vê-lo degustar a comida que lhe oferecem. O que existe nesse pratos que você saboreia com tanto prazer?
Principalmente pessoas. É isso que é maravilhoso, descubro o verdadeiro Brasil, o brasileiro, e isso é sensacional, antes de qualquer coisa. É o ser humano, uma riqueza, uma generosidade, uma simpatia, uma criatividade, é genial. E, para mim, todo dia é uma revelação, por mais que hoje eu seja brasileiro de descendência francesa, para mim todo dia é uma novidade, em cada esquina, tudo tem história.

Sua última invenção culinária? Wrap de tapioca. Pensei, vou fazer um wrap brasileiro (o original é americano) e aí fiz com a tapioca, muito mais saudável. Você umedece a tapioca, põe na panela, ela se junta com o calor e vira um wrap, que é uma espécie de panqueca bem fininha. Tem a receita no meu site (www.olivieranquier.com.br).

Um pecado da gula- Você não acreditar! Aquela bala de goma, jujuba, sou viciado.

Um prato- Peixes, crustáceos, tudo o que vem da água.

Um sobremesa- Sorvete feito com água (sorbet) para mim é um luxo. (O sorbet é um geladinho criado pelos franceses para servir entre as refeições. Nada mais é que uma 'raspadinha' com bastante açúcar, o que impede que a água congele uniformemente, deixando-o macio).

Desejo gastronômico- Ser surpreendido com coisas como estou sendo surpreendido agora pelo tacacá, que prato, que invenção sensacional, delicioso, particular, único. (O prato é à base de mandioca braba e tem todo um processo de preparo).

Vinho tinto ou branco? Tinto, sempre, com peixe, com carne, com qualquer prato

Fogão a lenha, elétrico ou a gás? Quando estou no sítio prefiro cozinhar com lenha, o problema é que no verão é muito quente, então a gás funciona bem. A diferença entre os dois é mais simbólica: o fogão a lenha tem toda aquela magia, a encenação, o cheiro. Agora, influência direta na comida não acredito que tenha, já as panelas, de barro, de ferro, influenciam muito mais, com certeza.

Um tempero- O meu tempero é pimenta, especificamente a pimenta-do-reino.

Diet, light ou convencional? Convencionalíssimo. De jeito nenhum diet nem light, essas invenções alucinantes que matam o prazer, tiram a culpa das pessoas quando deveria ser de outra forma. Eu por exemplo, como muito bem, mas tomo café sem açúcar, não bebo refrigerante nenhum, enfim minha alimentação é equilibrada. Não misturo arroz e feijão com massa, batata, não faço essas coisas.

O que não pode faltar em uma receita? Sal, independentemente da quantia que você coloca, é ele que vai 'acordar' todos os aromas de uma receita.

Sua cesta básica- Manteiga, creme de leite, tomilho e alecrim.

Pão fresco ou pão velho? Para mim tanto faz pão velho ou pão fresco, mas de jeito nenhum pão recém-saído do forno, dá dor de barriga.

Por onde anda o Fusca verde? Agora está na garagem, em São Paulo, me esperando para novas aventuras.

Hoje, ele se define como ‘‘um padeiro, com certeza, mas também tenho outros rótulos, não exatamente o de chef, mas de um bom cozinheiro, empresário, apresentador, criador, repórter, enfim, eu sou Olivier Anquier’’

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