Daniela de Araújo Rubino já esteve apaixonada diversas vezes em seus 26 anos. Até foi noiva, ''de um cara da Young Flu, por cinco anos'', mas nunca cogitou a possibilidade de tatuar o nome de um homem na pele. Regra que não se aplica em apenas um caso: ''Namorado pode trocar a qualquer hora. Já o Corinthians nunca. É amor para a vida toda''.
Como ela, que dedica sua vida ao Corinthians até parou de estudar no segundo grau porque não podia conciliar as provas com as caravanas para acompanhar a equipe , cresce a cada dia o número de torcedores que têm expressado o amor ao time através de tatuagens.
Daniela caprichou no gavião, símbolo da torcida e também da Escola de Samba pela qual desfila, a Gaviões da Fiel. Além da imagem tatuada nas costas, tem outra alusiva ao Corinthians na perna: ''Mas essa nem quero mostrar, ainda está inacabada''. A moça reconhece que é bem mais comum torcedores do sexo masculino se tatuarem: ''Eu mesma só conheço outras duas mulheres, não sei por quê''.
Róbson Cícero confirma a tese de Daniela. O ajudante-geral cravou a imagem do Santos no peito, ''bem pertinho do coração''. ''Doeu à beça, mas tem de ser assim mesmo, para sentir mais forte'', diz o santista. ''O Santos é a minha vida, é tudo. Tudo o que eu faço na vida é pelo Santos'', diz, sem se importar com o discurso redundante.
Róbson, de 25 anos, afirma que gasta quase tudo o que ganha com o Santos. No caso da tatuagem que levou uma hora e meia para ficar pronta, investiu R$ 50,00: ''Mas isso foi em 1999, lá em Cajamar, que é mais barato''. Funcionário de uma empresa de caixa d'água, Róbson explica que se fosse necessário gastaria ainda mais. Mais com o clube do que com qualquer outra paixão. E volta a repetir: ''O Santos é minha vida, é tudo para mim.''
O são-paulino Rodrigo Abdalla também já pensou como Róbson. Só que ainda não tinha sido aprovado no vestibular para direito aos 18 anos quando cravou o escudo no alto da coluna. Não imaginava que o distintivo do São Paulo pudesse causar embaraços profissionais. ''Não vou dizer que é um problema, mas já causou algumas dificuldades'', reconhece o advogado trabalhista de 39 anos.
Rodrigo lembra que não sabia se deixava o cabelo crescer para ''camuflar'' a decisão tomada na época do fanatismo. ''É que se o cabelo ficasse muito comprido também não pegava bem, tinha de fazer rabo-de-cavalo.''
A alternativa foi adotar golas e colarinhos mais altos. ''O pior é quando faz muito calor. Remover, nem pensar. Até poderia porque nunca vou deixar de torcer pelo São Paulo. Mas dói demais e vai continuar tatuado sempre, de todo jeito, no meu coração.''
Tatuagem e rock andam juntos desde que Elvis Presley deu suas primeiras reboladas, nos anos 50. Como os famosos também têm sua paixão por futebol, alguns juntam tudo e expressam pela pele. Caso de Jão, guitarrista do Ratos do Porão. O músico de 36 anos, único remanescente da formação original da banda que surgiu há 22 anos, ostenta o Corinthians em cima do fígado.
''O pessoal não acreditou, falaram que era coisa de bandido'', conta morrendo de rir. Mas o músico explica o sentido do gesto. ''Era uma fase complicada, a gente estava meio assim freguês do Palmeiras. Ai avisei o pessoal que se a gente ganhasse aquele Paulistão contra eles (1995) eu ia fazer a tatuagem. Ganhamos, tá aqui.''
Sorte que o porão dos ratos é democrático. Renato Martins, o empresário da banda, amigo dos rapazes desde 1988, também adora futebol, só que seu time é justamente o Palmeiras cujo símbolo está tatuado no braço direito. ''Eu vou sempre ao estádio, só quando não dá mesmo por causa da agenda. Esse ano só não vi contra o Botafogo (0 a 0)'', conta o empresário.
Também nunca houve problemas entre Jão e o baterista João Gordo, palmeirense declarado. ''O João só é torcedor quando o time tá na boa. Agora que tá numa fase assim ele nem lembra que é palmeirense'', delata.

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