O TIME GRUDADO NA PELE
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sábado, 20 de setembro de 2003
Agência Estado 
Daniela de Araújo Rubino já esteve apaixonada diversas vezes em seus 26 anos. Até foi noiva, ''de um cara da Young Flu, por cinco anos'', mas nunca cogitou a possibilidade de tatuar o nome de um homem na pele. Regra que não se aplica em apenas um caso: ''Namorado pode trocar a qualquer hora. Já o Corinthians nunca. É amor para a vida toda''.
Como ela, que dedica sua vida ao Corinthians até parou de estudar no segundo grau porque não podia conciliar as provas com as caravanas para acompanhar a equipe , cresce a cada dia o número de torcedores que têm expressado o amor ao time através de tatuagens.
Daniela caprichou no gavião, símbolo da torcida e também da Escola de Samba pela qual desfila, a Gaviões da Fiel. Além da imagem tatuada nas costas, tem outra alusiva ao Corinthians na perna: ''Mas essa nem quero mostrar, ainda está inacabada''. A moça reconhece que é bem mais comum torcedores do sexo masculino se tatuarem: ''Eu mesma só conheço outras duas mulheres, não sei por quê''.
Róbson Cícero confirma a tese de Daniela. O ajudante-geral cravou a imagem do Santos no peito, ''bem pertinho do coração''. ''Doeu à beça, mas tem de ser assim mesmo, para sentir mais forte'', diz o santista. ''O Santos é a minha vida, é tudo. Tudo o que eu faço na vida é pelo Santos'', diz, sem se importar com o discurso redundante.
Róbson, de 25 anos, afirma que gasta quase tudo o que ganha com o Santos. No caso da tatuagem que levou uma hora e meia para ficar pronta, investiu R$ 50,00: ''Mas isso foi em 1999, lá em Cajamar, que é mais barato''. Funcionário de uma empresa de caixa d'água, Róbson explica que se fosse necessário gastaria ainda mais. Mais com o clube do que com qualquer outra paixão. E volta a repetir: ''O Santos é minha vida, é tudo para mim.''
O são-paulino Rodrigo Abdalla também já pensou como Róbson. Só que ainda não tinha sido aprovado no vestibular para direito aos 18 anos quando cravou o escudo no alto da coluna. Não imaginava que o distintivo do São Paulo pudesse causar embaraços profissionais. ''Não vou dizer que é um problema, mas já causou algumas dificuldades'', reconhece o advogado trabalhista de 39 anos.
Rodrigo lembra que não sabia se deixava o cabelo crescer para ''camuflar'' a decisão tomada na época do fanatismo. ''É que se o cabelo ficasse muito comprido também não pegava bem, tinha de fazer rabo-de-cavalo.''
A alternativa foi adotar golas e colarinhos mais altos. ''O pior é quando faz muito calor. Remover, nem pensar. Até poderia porque nunca vou deixar de torcer pelo São Paulo. Mas dói demais e vai continuar tatuado sempre, de todo jeito, no meu coração.''
Tatuagem e rock andam juntos desde que Elvis Presley deu suas primeiras reboladas, nos anos 50. Como os famosos também têm sua paixão por futebol, alguns juntam tudo e expressam pela pele. Caso de Jão, guitarrista do Ratos do Porão. O músico de 36 anos, único remanescente da formação original da banda que surgiu há 22 anos, ostenta o Corinthians em cima do fígado.
''O pessoal não acreditou, falaram que era coisa de bandido'', conta morrendo de rir. Mas o músico explica o sentido do gesto. ''Era uma fase complicada, a gente estava meio assim freguês do Palmeiras. Ai avisei o pessoal que se a gente ganhasse aquele Paulistão contra eles (1995) eu ia fazer a tatuagem. Ganhamos, tá aqui.''
Sorte que o porão dos ratos é democrático. Renato Martins, o empresário da banda, amigo dos rapazes desde 1988, também adora futebol, só que seu time é justamente o Palmeiras cujo símbolo está tatuado no braço direito. ''Eu vou sempre ao estádio, só quando não dá mesmo por causa da agenda. Esse ano só não vi contra o Botafogo (0 a 0)'', conta o empresário.
Também nunca houve problemas entre Jão e o baterista João Gordo, palmeirense declarado. ''O João só é torcedor quando o time tá na boa. Agora que tá numa fase assim ele nem lembra que é palmeirense'', delata.


