O sucesso não veio por acaso
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de novembro de 2005
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- Tem gente que desde pequeno quer ser engenheiro, médico, dentista, embaixador, advogado. Luiz Felipe Rauen não. Ele nasceu para ser comerciante. Vender sempre foi seu prazer, seu ópio, sua satisfação. Nascido em Chopinzinho, interior do Estado, o hoje empresário de 53 anos e dono da Racco, empresa de cosméticos classificada como a 3ªem venda direta no Brasil, Rauen já veio ao mundo com determinação. Sempre tive dentro de mim que quando eu fosse adulto não queria ser pobre. Queria fazer algo para crescer. Acabei fazendo. E o primeiro emprego que eu queria era ser vendedor e depois, se não me aceitassem, aí iria trabalhar em qualquer outra coisa.
Para chegar aonde está, no entanto, ele passou por uma verdadeira saga. Ainda bem pequeno, após ter sofrido um acidente e precisar de cuidados médicos, naquele tempo somente encontrados nas capitais, o menino mudou-se para Curitiba com a mãe e uma das irmãs. Fomos morar na nossa primeira casa. Era um galinheiro nos fundos da casa de uma senhora conhecida da minha mãe. Elas trabalhavam juntas como costureiras.
O pequeno Luiz Felipe tinha então 6 anos e até hoje as recordações são bem claras. Sempre fui uma criança feliz. Sempre pensei positivamente. Isso foi um grande diferencial na minha vida. Minha mãe também, mesmo sem cultura, sempre buscou uma melhoria de vida contínua.
A busca de Felipe começou cedo. Logo aos 9 anos ele já batalhava. Dependia disso para sobreviver e levava essa condição numa boa. Os primeiros trabalhos? Eu vendia coisas em torno da minha rua. Meus vizinhos eram todos empreendedores. Um deles tinha um caminhão e ia para São Paulo. Quando voltava parava em Registro e comprava bananas. E eu ia lá pegava um carrinho de mão e saía a vendê-las. Eu adorava. Porque eu era vendedor. Já tinha isso no meu sangue. Além de bananas, Rauen vendeu pipoca e amendoim na porta do circo dos irmãos Queirolo.
Depois disso veio a melhor época. Arranjei um emprego de engraxate numa barbearia. Trabalhei dois anos lá e lembro que ganhava dois salários mínimos. Já tinha um hábito de juntar dinheiro. Eu tinha cabeça de poupar. Queria um dia ter dinheiro para montar alguma coisa. Engraxando sapato, com 12 anos, pensava em um dia ter uma fábrica.
Engraçado no pequeno Felipe é que ele sempre pensou em fazer algo grande e se destacava no meio dos outros meninos por isso. A perseverança tem explicação, para quem crê, na astrologia. Peixes com ascendente em áries, Felipe tem um lado que sonha e outro que realiza. Foi assim desde o começo e é até hoje.
Com o passar dos anos o jovem foi crescendo de posto. Deixou de ser engraxate. Passou a trabalhar em estatal. Mudou-se para o Rio de Janeiro e lá, ao ser honesto com um amigo que estava sendo trapaceado numa construtora, acabou virando seu sócio. Era a vida devolvendo aquilo que ele sempre acreditara.
Ao voltar para o Paraná, Luis Felipe trabalhou na Xerox do Brasil. Sempre como vendedor. Aí conheceu aquela a quem credita a responsabilidade da grande guinada. A esposa Gisela, ou Gi, como ele mesmo fala. Ela é uma pessoa com uma cabeça muito forte. Acabamos casando em seguida. E tem sido maravilhoso nesses anos todos. É minha parceira em todos os projetos que fizemos juntos. Gisela vendia cosméticos. O marido queria crescer na vida. Montou uma rede que construía hotéis. Mas ainda não era aquilo que seria o grande pulo em sua vida.
Ao ver que a venda de cosméticos de Gi ia cada vez melhor, Luiz Felipe resolveu acompanhá-la no trabalho. Surgia então a Racco. Isso foi há 20 anos. A empresa nasceu com 63 produtos. A venda seria direta. Porta a porta. O negócio que a gente acreditava era venda direta e o marketing multimidia, conta. O sucesso chegou na hora. Em um ano eles abriam a primeira fábrica. O crescimento foi absurdo. Começaram a ver os recordes de produção. Pronto. A coisa estava feita. Enfim Luis Felipe havia achado o ponto certo. Ao lidar com beleza não haveria erro e se houvesse algum problema seu otimismo não deixaria nada atrapalhar.
Numa linha de pensamento que se assemelha ao zen-budismo, mas que, para ele é a forma do Felipe pensar, o empresário foi crescendo tendo suas filhas com Gi e, hoje, a Racco já exporta e tem linhas de produtos de alta tecnologia. São 18 anos de trabalho, viagens pelo mundo para aprofundar conhecimentos e uma preocupação em valorizar a troca de informações com quem iam conhecendo.
Acho que esse é um grande diferencial. O de se relacionar bem com as pessoas. Nós não tratamos apenas de negócios. Valorizamos os contatos.
Nessa trajetória toda entraram também as três filhas. As meninas e seus maridos são braços importantes na Racco hoje. O tempo passou e Luiz Felipe reflete: Acreditei sempre que é possível. Nunca imaginei que algo não é possível. E se um dia eu tenho alguma coisa contra, tem minha mulher que é extremamente política, que não deixa ninguém ser negativo. Então não há essa possibilidade. E se eu for falar o que aconteceu de bom nesses anos todos vou dizer que foi ter conhecido ela. Foi a melhor coisa que me aconteceu.
Desse sucesso fica a certeza de que a união familiar é uma grande base e de que centrar a energia no que dá certo é a melhor saída para tudo. Com a experiência de ter crescido num país tão cheio de dificuldades e de estar com prosperidade, onde muita gente não consegue se sair bem, Luiz Felipe aconselha: Deixe o que não está bem à sua frente de lado e vá atrás das coisas boas. Porque com elas você vai solucionar aquilo que não estava bem. Esse é o caminho. A gente não consegue mudar aquilo que é, está e existe. Se eu tenho um problema na minha frente e fico pensando nele, ele vai continuar ali. Agora, se eu pensar nas coisas boas, eu vou acabar consertando ou ele vai desaparecer. Então não adianta perder tempo com problemas.


