O sucesso é doce
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sábado, 24 de abril de 2010
Angela Raizer Barbosa<br> Reportagem Local 
Criatividade e determinação são traços marcantes na trajetória da chef de patisserie Angelica Calderaro e Silva, 56 anos. No início, ela nem sonhava transformar em profissão um cotidiano doméstico que em muitas mulheres causa arrepios. ''Sempre tive uma ligação muito forte com a cozinha'', confessa.
Aos 18 anos, recém-casada com um empresário do setor imobliário, Angelica assumiu forno e fogão com boa vontade e muita pesquisa. Seu prazer pela leitura também incluía livros de gastronomia. Assim, ela levava sempre à mesa as novas receitas que testava. Isso numa época em que as mulheres procuravam outros caminhos de realização, de preferência longe das tarefas caseiras.
Vieram os filhos, três homens e uma garota, e o cardápio caseiro foi ficando cada vez mais versátil e primoroso. Anos mais tarde, com os filhos na escola, surgiu o que pode ser chamado de ''pedra fundamental'' do negócio que iria abrir mais tarde: o Bolo Trufado, que ela fazia para os familiares e amigos dos filhos que frequentavam sua casa. Quando a fama do bolo extrapolou os domínios domésticos, a vida da dona de casa já estava com os dias contados. O resto é história, e das mais bem-sucedidas.
Em 1996, Angélica resolveu junto com o marido, José Roberto, que era hora de abrir um négocio próprio, levando consigo os filhos adolescentes para ajudar. Ainda insegura quanto ao seu potencial, abriu uma loja que revendia pães e biscoitos, em uma casa de madeira que pertencia à família, na esquina das ruas Sergipe e Santos. Em meio aos produtos de terceiros, ela arrumou um cantinho para seu Bolo Trufado e tortas salgadas que fazia em casa. O sucesso foi quase instântaneo, e, um ano depois as prateleiras já não exibiam nenhum produto terceirizado. A casa antiga foi sendo adaptada para abrigar equipamentos e tornar a produção 100% própria. ''Transformei meu hobby em profissão. Sem contar que trabalhar em família é uma dádiva; dividir tarefas com o marido e os filhos... ah, eu me sinto poderosa, no bom sentido, é claro''.
Hoje, 14 anos depois, o bolo de chocolate que deu impulso à carreira de Angelica ainda é o ''doce de resistência'' de sua Mister Cuca, um misto de confeitaria, panificadora e sorveteria. ''É o mais pedido, inclusive por clientes de outras cidades'', revela. A receita da iguaria é segredo de família, o que não impede que muitas confeitarias de Londrina façam réplicas no rastro de sucesso do bolo original.
Em 2004, com o novo layot da casa e o aumento da produção, Angelica resolveu que era hora de fazer alguns cursos no exterior e dar uma reciclada. Foi para Buenos Aires, para se atualizar na área de confeitaria, e para a Itália, onde aprendeu tudo sobre gelateria, a centenária arte dos italianos na produção de sorvetes. Esse também foi um período de redescobertas, que a levou a investir em doces clássicos, resgatando receitas que há séculos fazem parte da história da gastronomia, como a Torta Sacher, criada em 1832, em Viena; e o Macaron, biscoito de origem italiana à base de amêndoas, que ficou famoso quando foi levado para a França, em 1553, por Catarina de Médici para seu casamento com o rei Henrique II.
Com 120 funcionários sob seu comando, Angélica não faz pose de empresária e diariamente coloca as mãos na massa. Tudo isso contribuiu para ela receber, no dia 8 de março passado, em Foz do Iguaçu, o Prêmio Destaque Paraná Mulher Empreendedora, por indicação do Sebrae, e entregue pela Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios de Londrina.
Simples e criativa, ela tem opinões firmes sobre assuntos que envolvem seu mundo, que inclui, acima de tudo, sua família. Ela, mais o marido e três filhos - Arthur, Eduardo e Gustavo - comandam o negócio em duas lojas. A filha, Stephanie, seguiu os passos da mãe, porém, longe dela - depois de cursar Gastronomia em Buenos Aires, assumiu o posto de chef de patisserie num hotel em Bristol, na Inglaterra, ao lado do marido, o chef espanhol Ariel Lettieri.


