O SENHOR ''POPNEJO''
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de julho de 2010
Omar Godoy<BR> Equipe da Folha 
Quem quiser entender o fenômeno do sertanejo universitário em Curitiba deve conversar com o empresário Kiko Martins, 35 anos. Longe de ser um oportunista, ele é dono de uma trajetória que se confunde com a do próprio movimento, responsável por urbanizar ainda mais a música caipira e atrair fãs de diversos extratos sociais - para o desespero dos puristas de plantão.
Por meio de sua empresa, Kiko administra a carreira de mais de 20 duplas locais e cuida de toda a produção artística do Woods, a casa noturna mais badalada do gênero por aqui. Em novembro do ano passado, ele também abriu seu empreendimento: a Momentai Music & Fun, misto de boate e espaço para shows. Mas sua ligação com a ''cena'' vem de meados da década de 90, quando o primeiro boom sertanejo na capital começou a se desenhar.
Formado na área de informática e recém-saído de um período de quatro anos como tenente do Exército, Kiko engrenou uma improvável carreira como dançarino country. Baladeiro inveterado, frequentava o extinto Pantaneiros quando arriscou os primeiros passos na pista, com o amigo Paulo. ''A galera começou a copiar o que a gente fazia e logo apareceram os primeiros convites para dar aulas. Primeiro, nas próprias casas noturnas. Depois, em academias de ginástica'', conta.
Na televisão, a novela ''O Rei do Gado'' despertava, outra vez, o interesse do público pelas duplas sertanejas. As novas músicas, no entanto, estavam um pouco diferentes - mais dançantes, com levadas aparentadas do axé. Criou-se, então, uma espécie de ponte entre o country americano e os ritmos baianos, com ênfase nas coreografias. Era o que faltava para a agenda de Kiko e Paulo lotar de uma vez por todas.
Além das aulas, os dois passaram a se apresentar em bailões, acompanhando artistas ou entretendo o público nos invervalos dos shows. Naquela altura do campeonato, Curitiba já vivia a febre dos ''grupos country'', turmas organizadas que circulavam pela cidade e seguiam o circuito de rodeios no interior. ''Chegamos a fazer 12 apresentações por semana, às vezes mais de uma por noite'', lembra o empresário, citando lugares como Dixies, Black Bull, Fórum e Cia do Laço.
Novo conceito
Quando a onda se enfraqueceu, no início da década passada, a dupla se desfez e cada um seguiu o seu caminho. Kiko foi ajudar a mãe numa escola de culinária que ela mantinha e praticamente se afastou da vida noturna. Só retornou em 2005, como frequentador (e mais tarde funcionário) do Woods, espaço que prometia ofecerer um ''novo conceito'' de balada sertaneja, para um público de maior poder aquisitivo.
Por ''novo conceito'', leia-se boa localização, qualidade no atendimento, cardápio elaborado, segurança, camarotes... Enfim, um serviço mais sofisticado que realmente atraiu uma audiência que antes torcia o nariz para a música dita caipira. Em paralelo, surgia outra safra de duplas, encabeçada por nomes como João Bosco & Vinícius, Cesar Menotti & Fabiano, Victor & Leo, etc. Todas incluídas no balaio do ''sertanejo universitário'', um fenômeno impulsionado pelo boca-a-boca e a divulgação via internet.
''As letras, que antes eram muito românticas, sobre amores platônicos, ficaram mais claras, diretas, explícitas. Como no axé, no pop e no rock. As bandas também ficaram menores, enxutas. Se um cara da dupla toca violão, dá para fazer um show só com quatro pessoas'', explica Kiko, definindo o que ele chama de ''popnejo''.
Para o empresário, quem vai às festas ''universitárias'' não é, necessariamente, fã de música sertaneja - tampouco usa o figurino cowboy de outros tempos. ''O que interessa é diversão, bebida e mulherada'', diz. Por essas e outras, a Momentai é eclética. ''Eu e meus sócios já estamos percebendo uma saturação no cenário sertanejo, pois abriram muitas casas nos últimos meses. Não vemos muito futuro em apostar num estilo só'', diz.
Kiko, no entanto, acredita que o som sertanejo (universitário ou não) jamais perderá terreno por estas bandas. ''Nas festas que a gente faz, eu e meus amigos, sempre tem um violeiro tocando músicas antigas de Chico Rey & Paraná, Milionário & José Rico. Essa cultura é muito forte no interior de São Paulo, no Mato Grosso e aqui no Paraná. A raiz continua viva'', garante.


