O senhor das artes
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de maio de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele já foi daqueles homens-atração da cidade. Os cabelos hoje grisalhos eram pretos, o sotaque valenciano trazido da cidade de Valência, Espanha, onde nasceu, deixava todos inebriados. Manolo Saez hoje está com 69 anos, mas não perdeu os ''ss'' de sua terra natal.
Ele chegou ao Brasil no pós-Segunda Guerra. Era meados da década de 50. Os europeus agonizavam lá. Então a família veio embora para o Brasil. Queriam sobreviver. À custa de muito trabalho e seriedade. ''Se você quer sobreviver e vencer na vida trabalhe'', aconselha Saez confortavelmente sentado em um dos sofás de sua imensa cobertura num dos bairros mais cobiçados de Curitiba.
A chegada ao Brasil trouxe à tona um talento nato de Saez. Ele gostava de trabalhar com cenários, vitrines, decorações. E por esse caminho o espanhol foi trilhando. Primeiro foram cenários de peças teatrais. Depois as vitrines da Rua Augusta, em São Paulo. Manolo Saez criava e levava ao delírio os transeuntes. ''Me lembro até hoje de uma vitrine que fiz. Reproduzi um cenário veneziano que fez maior sucesso.''
Naquela época, Manolo tinha em uma irmã chamada Lola nome mais espanhol impossível, e que remete aos personagens do cineasta Pedro Almodóvar , a maior amiga.
''Nós sempre nos entendemos muito bem. Ela pensava como eu'' relembra. Através da irmã, Saez deu nova guinada na vida: virou fotógrafo por acaso. Lola ficou viúva repentinamente. Ela, o marido e os três filhos sobreviviam do dinheiro proveniente do trabalho de fotografar colegiais. Durante a semana eles clicavam, e nos finais de semana chegavam a montar quase cinco monóculos. Dessa labuta vinha todo o sustento da família.
Saez teve que assumir as funções do cunhado. Durante três anos a rotina era pesada. Mas o dinheiro entrava e era isso que importava. Foi nessa época que Manolo e Lola tiveram seu primeiro contato com Curitiba. Uma cidade com 600 mil habitantes que bateu na ''veia'' dos dois na primeira visita. Quando vieram para cá, a passeio, conheceram personagens importantes da cidade como o ex-governador Ney Braga, já falecido, e uma turma de gente do poder.
Uma delas aconselhou Manolo a vir para Curitiba. Aqui não havia decoradores e esse seria um bom nicho a ser explorado para o espanhol ávido por trabalho e crescimento. Aí vieram Manolo, Lola e as crianças.
E abriram a Lola Flores, uma floricultura em homenagem dupla: à própria irmã e à grande artista espanhola com o mesmo nome.
A Lola Flores foi gradativamente crescendo. Manolo fazia arranjos que, segundo ele, são copiados até hoje. Faziam festas de casamento. Tudo com muita referência barroco-brasileira. ''Adoro o Brasil. Viajar por aqui. Conheci quase todos os estados. Sou um apaixonado pelo Brasil. Quando estou aqui falo bem de Valência. Lá sou 'brasileÀo'. Falo muito bem do Brasil. Meus parentes já vieram quase todos para cá. Na Espanha, eles acham um absurdo vir. Eles acham muito longe atravessar o Atlântico. Agora já se acostumaram. Me sinto mais brasileiro do que espanhol. Vim para cá com 15 anos'', se derrete.
E o que mais adora no Brasil? ''A beleza do País. Sempre gostei muito da arte brasileira. Tanto que a primeira vez que fui até Salvador, peguei um táxi e dei uma volta pela avenida do contorno. Eu falava tanto da maravilha da cidade que o motorista acabou desligando o taxímetro e me mostrando a cidade inteira. Quando cheguei lá meu coração parecia que ia sair pela boca.''
Com tanto entusiasmo e capacidade de trabalho o espanhol acabou conquistando o povo curitibano e hoje não troca os amigos e a cidade por nada nesse mundo.
Com o tempo, Manolo passou a decorar casas de gente importante da cidade. Empresários, políticos, socialites, todos se renderam ao estilo ''manoelino'' de decorar. Ele mesmo desenhava, talhava algumas portas de madeira, abajures. E até hoje faz isso. ''Não deixo de ver minhas obras. Faço isso todos os dias. Gosto de acompanhar de perto o que está sendo feito.''
Ainda faz suas decorações, mas dedica-se a outras paixões. Tem uma galeria de arte e pinta nas horas vagas. Nas noites em que acaba de dar aquela ''zapeada'' pelos programas televisivos, Manolo se retira a seu ateliê e pinta. São as praias brasileiras que surgem nas telas brancas. Saez já fez várias. São imagens de Santa Catarina. Bahia. Tudo do Brasil. ''Quero fazer uma exposição só com as praias brasileiras'', conta. E fora isso quer muito ficar perto dos amigos. Para ele a vida não teria sentido sem eles. Compartilhar, fazer paella (prato tipicamente valenciano) e, quando viajar, trazer coisas boas de outros lugares para eles sentirem o gosto daquilo que ele sorveu mundo afora. Esse é o maior tesouro de Manolo.


