Durante quase duas décadas, Fábio Elias, 34, foi uma das figuras mais simbólicas da cena musical paranaense. À frente da banda Relespública, fundada quando ele ainda era adolescente, o cantor e guitarrista gravou discos, videoclipes, DVDs e rodou o Brasil fazendo shows. Mais do que isso: ergueu a bandeira do rock and roll clássico num país que praticamente ignora o gênero.
Mas algo mudou na relação do músico com seu fãs fiéis. Há exatamente um ano, Fábio anunciou uma guinada radical na carreira. Estava trocando os porões alternativos pelos bailões caipiras. Seu alvo, a partir dali, seria o público do subgênero emergente conhecido como ''sertanejo universitário''. Para os roqueiros xiitas, não poderia haver traição maior.
Meses depois, em abril deste ano, veio o primeiro lançamento, um CD com 13 faixas intitulado ''Me Dê um Pedaço Seu''. A estratégia de divulgação incluiu um clipe ''polêmico'', em que ele aparecia bem mais magro, vestido à moda country e se arriscando numa dancinha desajeitada. Foi o suficiente para que os antigos admiradores e os detratores de plantão promovessem um verdadeiro linchamento virtual nas redes sociais da internet.
Sobrou até para a mulher do músico, a psicóloga e âncora de rádio Maria Rafart. Doze anos mais velha do que Fábio Elias, e com forte influência sobre o músico, ela foi apontada como a grande responsável pela mudança de rumos do marido - uma espécie de ''Yoko Ono da Relespública''. A banda, entretanto, não terminou. Apenas interrompeu suas atividades por conta das divergências, digamos, conceituais.
Maria já era empresária do grupo quando os dois se casaram numa cerimônia roqueira, em cima de um palco e com direito a uma canção composta especialmente para a noiva. Pouco depois, ela sugeriu que Fábio se mudasse para São Paulo, com o objetivo de ficar mais próximo de gravadoras, produtores, empresários e grandes veículos de comunicação.
Em sua peregrinação pela megalópole, o músico chegou à conclusão de que não havia espaço no mercado para o som retrô da Relespública. Disposto a buscar novos caminhos artísticos, flertou com as batidas eletrônicas e acabou chegando à nova onda caipira. ''Sempre cantei música sertaneja em casa, nas churrascadas. Só os parentes e amigos próximos sabiam disso'', afirma, defendendo-se das acusações de oportunismo.
Para Fábio, o grupo era um ''investimento sem retorno''. ''Sou um artista profissional, meu trabalho é compor e tocar. Quero viver, e não apenas sobreviver, de música'', diz. A questão financeira, no entanto, não foi o único fator que pesou na mudança. ''Gosto de ver o público cantando, dançando, feliz. Os últimos shows da Relespública tinham menos de 60 pagantes'', conta.
Isso não significa que a carreira sertaneja já esteja indo de vento em popa. O cantor ainda é pouco conhecido no meio e suas canções não são tocadas nas rádios da capital. Por enquanto, é como se ele estivesse num limbo musical - muito roqueiro para os caipiras, muito caipira para os roqueiros. ''Não tenho medo de cair nesse limbo, porque o meu diferencial é justamente esse'', afirma.
Seja como for, Fábio faz uma avaliação positiva deste primeiro ano. ''Eu tinha dois problemas para enfrentar: saber se esse era mesmo o meu caminho e aguentar a mediocridade das críticas vazias. Mas já estou lançando um segundo CD, vou gravar um DVD e agora ninguém me segura mais. O pior já passou''.

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