Nos quatro anos que separam a primeira e a segunda visita do estilista Amir Slama a Londrina, a mudança mais significativa é que ele está mais magro. Regime? ''Não, é correria mesmo'', contou Slama, que esteve recentemente na cidade para falar sobre posicionamento de marcas para empresários da confecção. ''O trabalho tem que ser contínuo. Se no mercado interno a concorrência é com 20 a 30 marcas, lá fora são duas mil marcas'', explica o estilista de moda praia, que não se gaba, mas já conquistou espaço nos Estados Unidos e Europa.
Na primeira visita, também no mês de novembro, Slama ainda estava sob o impacto dos atentados às Torres Gêmeas em Nova York. O desfile da sua grife Rosa Chá teve que ser cancelado porque aconteceria no dia seguinte ao fatídico 11 de setembro de 2001. Slama já havia feito um desfile nos Estados Unidos, mas sabia que a data seria uma reafirmação de suas criações em território estrangeiro. Mas o que poderia ter sido trágico, acabou se revertendo numa história de sucesso. A Rosa Chá não só continua desfilando na badalada semana de moda nova-iorquina como se transformou em objeto de desejo de européias e norte-americanas. E já começa a se ganhar o interesse das asiáticas.
Não por acaso, o estilista esteve recentemente no Japão. ''Foi o choque da minha vida'', lembra Slama, que nunca havia pisado na terra do Sol Nascente e já pensa em voltar. Levantando a bandeira da Associação Brasileira de Estilistas (Abest), da qual é presidente, Amir Slama atravessou o planeta para apresentar os associados à imprensa nipônica. Poucos dias depois, um grupo de estilistas brasileiros desembarcou no Japão, incluindo a paranaense Erika Ikezili.
Em agosto, quando passou pelo Brasil, o filósofo francês Gilles Lipovetsky falou sobre luxo e biquínis. Um dos mais conceituados do mundo principalmente quando o assunto é moda, Lipovetsky veio lançar por aqui o livro ''O Luxo Eterno, da Idade do Sagrado ao Tempo das Marcas''. Entre um compromisso e outro, contou que o ''biquíni brasileiro já é posicionado na Europa como artigo de luxo. Basta olhar os valores pelos quais é vendido''.
O filósofo não chegou a citar nomes, mas são as criações de Amir Slama para a Rosa Chá que mais causam sensação no exterior. Os minúsculos pedaços de pano custam entre US$ 90 a US$ 300. ''Enquanto aqui a gente tem que segurar os preços, lá fora precisamos subir'', explica o estilista. ''No primeiro show-room, a compradora da Bergdorf Goodman (loja de departamentos de alto luxo em Nova York) adorou nossa coleção, mas disse que infelizmente não poderia comprar porque era muito barato'', sorri. ''Ficamos rindo da situação'', completa Slama, que trabalha ao lado da mulher Riva, responsável pelo estilo da grife Sais, a ''irmã mais nova da Rosa Chá''.
As franquias internacionais de Slama estão em Miami e Lisboa há três anos, além disso suas criações estão em lojas badaladas pelos quatro cantos do mundo.''Cada vez menos temos que fazer adaptações da modelagem para as exportações'', relata. Se antes as estrangeiras ficavam incomodadas com as diminutas proporções dos biquínis brasileiros, hoje elas já estão se sentindo bem mais confortáveis.
Apesar de tanto sucesso no exterior, a Rosa Chá ainda concentra 80% da sua produção para o Brasil, segundo o estilista. ''As coleções são sempre pensadas para o mercado interno'', garante. ''Com a globalização, as tribos estão ficando cada vez mais parecidas'', constata Amir Slama, que já se prepara para a próxima investida internacional da grife: o leste europeu. Novamente, deverá ser pioneiro. ''Fomos a primeira marca de moda praia a fazer desfiles na semana de moda nova-iorquina. Agora outras estão fazendo'', conta.
Com tantas idéias e projetos na cabeça, descansar acaba virando artigo de luxo. Mas no caso de Slama, os desejos são até bem simples. ''Adoraria passar uma semana sem fazer nada em Águas de São Pedro, a uma hora de carro de São Paulo. E gostaria de ir dirigindo'', confessa o estilista para surpresa geral. ''Todo mundo pensa que quero ir para o Taiti ao algo parecido. Mas eu não descanso na praia. Fico ligado no que as pessoas estão usando'', afirma. Se depender da agenda de Slama, o descanso ainda demora um pouco. Além do desfile da São Paulo Fashion Week em janeiro, ele levará suas criações para um show-room em Paris no Carnaval.
''Minha vida é mesmo misturada com trabalho. Foi assim no meu aniversário de 40 anos'', entrega Slama, que celebrou a nova idade comemorada no início de novembro na loja que estava sendo reinaugurada. Colegas de trabalho acabam se transformando em bons amigos também. Caso da modelo inglesa Naomi Campbell, que não esconde de ninguém que adora o Brasil e brasileiros especiais como Slama, para quem faz questão de desfilar em Nova York.
''A Rosa Chá é o retrato de uma empresa brasileira'', define o estilista, que começou com uma pequena estrutura familiar e mesmo hoje ainda segue cuidando da criação e da administração da grife. Haja fôlego! E ele encontra tempo para dar palestras, presidir a Abest e desfilar suas coleções também no inverno. Aliás, é a única grife a fazer isso. ''Nunca olhei para a moda praia pensando só em biquíni'', avisa.

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