O Rei da Cebolinha
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sexta-feira, 02 de março de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Há quase três décadas o paranaense Walter Toshio Saito partiu para o Japão em busca de uma vida melhor, assim como tantos outros brasileiros. Recém-casado, foi junto com a esposa após se formar no curso de Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. E assim como tantos outros também sofreu os efeitos da crise econômica de 2008. Mas ao invés de voltar, buscou novas fontes de renda. Hoje é conhecido no Japão como o "Rei da Cebolinha". Produz diariamente entre sete e dez toneladas de cebolinha, além de mandioca e ocasionalmente brócolis, quando faz o rodízio da plantação.
No início de fevereiro, Saito foi agraciado com o título de Cidadão Honorário de Londrina, concedido pela Câmara Municipal. Nascido em Terra Boa, no Noroeste paranaense, ele veio para Londrina com 4 anos de idade, de onde mais tarde saiu para ir para o Japão. "Para a gente é uma coisa que não tem explicação. Na verdade, com quatro anos de idade você não se lembra de nada. Você consegue se lembrar depois de seis, sete anos. E eu me considerava londrinense, mas as pessoas diziam que não. Era uma coisa desde criança, mas que eu achava que não ia chegar. E mesmo sendo (um título) honorário, não tem como explicar, a felicidade não tem preço", afirma, em entrevista à FOLHA por telefone.
Reinvenção
Saito conta que por falar relativamente bem o japonês, era convidado por colegas para os acompanhar em entrevistas de emprego. Era algo que ele fazia de forma voluntária e através disso foi conhecendo diversos empresários até que um dia um deles questionou porque ele não abria uma empresa de recrutamento também. "Ele disse que me dava uma força e foi assim que abrimos a empresa, foi através de um serviço voluntário que surgiu a oportunidade."
Na época, segundo ele, muitos concorrentes se negavam a contratar casais com filhos no Japão e ele viu ali uma oportunidade de se destacar. Fundou uma escola que oferece educação do berçário até o Ensino Médio e assim conquistou novos clientes. Hoje são cerca de 100 alunos, que estudam em uma instituição reconhecida pelo governo japonês e é a única a receber subsídio fiscal para atender filhos de brasileiros e crianças da comunidade local. "Fiz a escola porque se eu não tivesse isso, não tinha como trazer as crianças. E quando as crianças estão tranquilas, os pais também ficam tranquilos. Isso era um diferencial e meu trunfo quando comecei aqui", aponta.
Com a crise mundial de 2008 foi necessário fazer vários cortes e a empresa passou de 430 funcionários para cerca de 80. Como havia crescido de forma rápida, Saito conta que tinha diversas dívidas e foi então que saiu em busca de alternativas.
"Eu achava que não podia ficar parado, fomos procurar outras oportunidades e vimos que o Japão naquela época era um país, assim como ainda é hoje, que tem uma população de idosos muito grande e que vem aumentando. Vimos um déficit de pessoas para trabalhar na área da agricultura e uma chance para começar. Eu não me considero um agricultor, eu sou um empresário. Eu faço a produção e vendo, não tenho atravessador. Essa é a minha forma de trabalhar, meu diferencial. Hoje colocamos (os produtos) aqui em lojas de departamento de luxo. Criamos uma grife chamada 'Rei da Cebola', e hoje nossos produtos estão nos supermercados mais sofisticados do Japão", relata Saito.
Com técnicas diferenciadas de plantação de mandioca, espaçamento e adubação, ele também consegue uma produção maior do que a que obtêm agricultores brasileiros e por isso já veio compartilhar sua experiência aqui diversas vezes. Aliás, o empresário volta ao Brasil anualmente, entre duas e três vezes, não só para visitar a família mas também para investir em outra área que gosta muito: o voluntariado.
"O voluntariado sempre nos dá grandes oportunidades, por isso sempre faço trabalho voluntário. Em Londrina doamos verbas para reformas em algumas creches, compramos cadeiras de rodas para algumas entidades que precisavam e vamos reformar um berçário de uma creche. Mas eu não faço isso pensando em ter alguma coisa. É uma forma de retribuir o que recebi, que foi através dos meus conterrâneos, (então) nada mais junto do que tentar retribuir o mínimo, pelo menos."
No Japão, Saito criou uma fundação para ajudar jovens a irem para a universidade, já que todas são pagas, mesmo as públicas, custando em média 10 mil dólares por ano, o que inviabiliza que muitos deles consigam chegar ao Ensino Superior.
"Muitas vezes o aluno não tem como pagar isso, porque precisa pagar antecipado. Se fosse japonês teria algum subsídio do governo, mas o estrangeiro não tem isso. Fizemos a Fundação e a partir de abril estaremos mandando dois alunos, filhos de brasileiros, para a universidade, com tudo pago. Queremos formar cidadãos para o mundo. Uma criança que estuda no Japão vai aprender inglês, japonês e português, é alguém trilíngue e por isso vai conseguir viver em qualquer lugar do mundo. Hoje, nosso maior objetivo é formar cidadãos para o mundo, sempre de forma voluntária."
Além de formado em Educação Física, Saito também foi judoca, tendo competido em inúmeros campeonatos, jogos universitários e jogos abertos. Em sua próxima vinda ao Brasil deve trazer 200 jogos de uniformes, um equipamento caro e necessário para a prática do esporte. "O esporte me ajudou muito, o judô tem muito da metodologia japonesa e isso nos ajudou bastante na vida aqui. O Japão tem uma coisa de hierarquia que no judô ainda persiste no Brasil também. E no Japão é muito valorizado. Isso me ajudou bastante, tento continuar esse trabalho, de formar mais cidadãos úteis para a sociedade", finaliza.


