O percurso afetivo das Tarsilas
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sábado, 12 de julho de 2008
Kátia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ela é a mais nova dos três irmãos e, quando nasceu, os pais decidiram homenagear a tia-avó famosa, Tarsila do Amaral. Foi assim que a paulistana Tarsila ganhou o mesmo nome forte de uma das artistas plásticas mais representativas do País. Hoje, a sobrinha-neta de Tarsila guarda muito mais do que o nome idêntico: é responsável por toda a obra da artista, que morreu em 1973. Depois de mergulhar numa extensa e inédita pesquisa familiar, ela escreveu o livro ''Tarsila por Tarsila''. Agora, prepara o lançamento de um catálogo raisonné com as mais de duas mil obras pintadas pela autora do Abaporu e ainda acompanha um documentário que está sendo feito sobre a tia.
Tarsila esteve em Curitiba para a abertura da mostra ''Tarsila - Percurso Afetivo'', em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, e que reúne, além de quadros, objetos pessoais garimpados nas casas da família da artista. A paixão pela tia-avó começou ainda na infância, quando a família visitava a pintora, que já estava debilitada e numa cadeira de rodas. ''Nós éramos seu núcleo familiar. Meu pai era o advogado dela e eles eram muito ligados'', conta Tarsila, que tinha oito anos quando a artista morreu.
Naquela época, a morte da tia ainda não tocaria a pequena Tarsila. ''Essa emoção aconteceu quando eu estava resgatando os objetos dela para a pesquisa. Fiquei muito tempo de luto. Chorei bastante até conseguir retomar o trabalho'', revela. A pesquisa começou efetivamente há cerca de 10 anos, depois de Tarsila ter cursado Direito, em São Paulo, e já ter assumido de uma vez outra de suas paixões: a equitação. Praticante assídua e professora do esporte, ela costumava treinar equitação na fazenda da família, mesmo local em que estavam guardados algumas raridades de Tarsila do Amaral, como cartas e lembranças das inúmeras viagens.
''Ela foi uma mulher muito à frente do seu tempo. Olhando esse material, eu fui descobrindo a maravilhosa personalidade dela. Fui descobrindo minha tia como ser humano, porque até então ela era uma pessoa da família, da minha convivência familiar'', conta Tarsila, que define o processo de pesquisa biográfica da tia-avó como um resgate da própria história. Tarsila debruçou-se no rico acervo encontrado na própria casa e na casa de familiares durante cerca de três anos. Encontrou fotos que levam às origens dos quadros pintados pela artista e outras raridades. ''Ela tinha uma personalidade marcante. Tudo nela era muito forte''.
Tarsila do Amaral, a artista, nasceu em setembro de 1886, em Capivari, interior de São Paulo. Contrariando os costumes da época, casou-se três vezes. No primeiro casamento teve a única filha, Dulce, que morreu na década de 40. Tarsila começou a pintar ainda na adolescência e, depois que se separou do primeiro marido, deu início ao que seria uma longa fase de estudos e viagens. Foi no segundo casamento, com o também artista Oswald de Andrade, que ela pintou o famoso ''Abaporu'', que seria um presente de aniversário para Oswald. Entusiasmado com a obra, ele criou o famoso ''Movimento Antropofágico'', que faz parte da história da arte brasileira e mundial.
Hoje, o quadro não está no Brasil. Foi vendido, em 1995, para o empresário argentino Eduardo Costantini por 1,4 milhão de dólares. É a segunda tela mais cara vendida no Brasil. A primeira também é de Tarsila: em 2001, a obra Cartão Postal foi comprada pelo banqueiro carioca Luiz Antonio de Almeida Braga por 2,4 milhões de dólares.
A transação com o empresário portenho não desestimulou a família. ''Existe um sentimento de perda, mas saber que a arte brasileira ganhou uma dimensão maior no exterior conforta'', diz a sobrinha-neta da família, que criou uma empresa familiar para registrar, manter e cuidar do acervo da tia-avó.
Tarsila separou-se de Oswald de Andrade em 1930. De volta ao Brasil, deu início a uma série de pinturas sociais. Mais tarde, ela conheceu o escritor Luís Martins, com quem viveu por quase 20 anos. Época em que também trabalhou como colunista e que viu sua pintura ganhar um reconhecimento ainda maior, tanto aqui, quanto no exterior. Hoje, quadros da artista podem ser encontrados em coleções espalhadas pelo mundo todo. Catalogar todo o acervo e cuidar da manutenção dos quadros e objetos pessoais que ainda pertencem a família foi a escolha da sobrinha da artista, que agora tenta dividir seu tempo desse extenso trabalho com a equitação. O Direito e a Matemática, que ela também chegou a cursar, estão fora dos planos profissionais.
''Só não sei pintar. Não desenho nada. Acho que Tarsila ficou com todo o talento para ela'', brinca a sobrinha. Mas não deixa de lado, claro, o gosto pelas artes plásticas. ''Aprendi a gostar de arte vendo os quadros da minha tia. Não tenho dúvidas quanto a isso''. Herança familiar, certamente, das mais valiosas.
Serviço:
A exposição ''Percurso Afetivo - Tarsila'', permanece aberta até o dia 5 de outubro, no Museu Oscar Niemeyer, à Rua Marechal Hermes, 999, em Curitiba.


