O pensador da moda
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
O estilista mineiro Ronaldo Fraga da grife homônima foi uma das atrações do Curitiba Fashion Art, esta semana. Respeitado, arrojado, excêntrico e um grande interessado no lado acadêmico da moda, Fraga veio convidado para um whorkshop sobre moda. Aproveitou a oportunidade e mostrou em primeira mão um DVD com imagens de seus 15 desfiles, ao longo de sete anos de carreira.
Com esse material inédito, que será oficialmente lançado na próxima edição da São Paulo Fashion Week, Fraga quer mostrar a evolução de seu trabalho através de eventos. E foi para contar um pouco de sua história e da evolução da moda no Brasil que o estilista falou com exclusividade à Folha. Acompanhe a entrevista:
Folha Por que resolveu fazer esse DVD com a história de seus desfiles agora em 2003?
Fraga Eu tive a grande sorte de ter desfilado nos maiores eventos que definiram e que vem definindo a cara da moda brasileira. Primeiro foi o extinto Phytoervas Fashion, depois a Semana de Moda e agora o São Paulo Fashion Week. Acho importante estar falando disso agora por que a gente revê a história da moda brasileira. Para muita gente, essa história nem existe e ela já vem de muito tempo. A virada determinante aconteceu nos anos 90, mais precisamente de 1996 para cá, com a organização do mercado. Com o calendário de lançamentos as coisas ficaram melhores. Antigamente, cada um lançava em uma época diferente. Agora, até a imprensa está mais voltada para a divulgação da moda.
Folha E esse calendário, incentiva ou atrapalha a criação? A obrigatoriedade de datas pode interferir no processo criativo?
Fraga Não atrapalha. Ele vem para organizar todo setor. Tem todo um sistema relacionado à moda. Por exemplo, a indústria têxtil está se programando melhor para receber os pedidos. Os lojistas já sabem que o período de lançamentos do São Paulo Fashion Week é que define todos os shows-rooms do País. E isso veio para amadurecer o setor, para ajudar.
Folha E o seu trabalho? Como ele evoluiu nesses sete anos de carreira?
Fraga O que é muito bacana e surpreendente para mim foi quando eu comecei a selecionar o material e vi que não tinha noção de quantas coleções tinham passado e percebi a construção de um estilo. Construção de uma identidade que não se faz da noite para o dia. É caro e eu costumo dizer, nas faculdades onde eu dou palestras sobre moda, que você ter uma peça reconhecida como sua, antes mesmo que as pessoas vejam a etiqueta, é muito bacana. E isso só o tempo te dá. O que venho conquistando é um estilo Ronaldo Fraga.
Folha E esse estilo está calcado no Brasil?
Fraga Um trabalho de moda hoje tem que ser feito para que ele seja lido em qualquer parte do mundo. Por mais que eu procure falar de referências minhas e, portanto do Brasil, desenvolvo um produto que tenha uma qualidade internacional. Por exemplo, o desfile Quem matou Zuzu Angel? teve uma divulgação muito grande, tanto na imprensa nacional quanto na internacional. Até hoje programas de moda da Holanda e França continuam a exibi-lo. Ele fala de um tema de uma abordagem totalmente brasileira. De um momento político daqui e de uma estilista 100% nacional. Até aí não tínhamos noção de quem foi Zuzu Angel.
Folha Falando em mercado internacional, você já tem roupas sendo vendidas fora do Brasil?
Fraga Sim. A minha estrutura é pequena. A empresa Ronaldo Fraga não é da indústria bélica de moda. Eu até venho fazendo parcerias com indústrias de calçados, de fios do Rio Grande do Sul. Hoje tenho pontos de venda fora do Brasil. Vendo para Hong Kong, Amsterdã e Londres. Tudo em pequena escala.
Folha Essas peças sofrem alguma modificação para o mercado de lá?
Fraga Não. São todas peças daqui, da coleção. Eu nem divulgo muito por que ainda é uma produção pequena. E até aqui no Brasil a distribuição é complicada.
Folha E o DVD que você mostrou em primeira mão em Curitiba?
Fraga Ele tem uma parte gráfica que é extremamente importante na produção de moda. Tem os convites dos desfiles, os croquis, a trilha de cada um deles, alguma coisa de backstage e as fotos dos desfiles.
Folha Como você traduziria o trabalho de um conceito na moda? No Brasil há muita gente preocupada em desenvolver seu estilo próprio ou continua existindo muita cópia?
Fraga Até bem pouco tempo as pessoas perseguiam a tendência. Ficavam de olho no que foi lançado lá fora para poder fazer aqui e isto ainda existe. Eu acho muito perigoso você trabalhar com tendência. A tendência lançou-se em Paris na semana passada e na que vem já está no Bom Retiro, em São Paulo, sendo vendida para o Brasil inteiro. Com a democratização da informação, a dita tendência que você levava seis meses para ter, hoje é imediata. Qualquer um que for para fora compra uma peça e copia. Com a mudança desse perfil, o próprio mercado passou a exigir que as pessoas invistam mais em criação. Ter uma cara para tua marca, isto se consegue justamente com uma pesquisa de conceito. Quando se fala em conceito tem gente que pensa que é roupa só de passarela, que ninguém usa. Não é nada disso. Eu particularmente admiro estilistas que trabalham cada coleção. Com isso naturalmente você ultrapassa o limite da roupa e é aí que você está falando de moda.


