Não fosse a tradição familiar, Haruhisa Katata teria seguido a carreira musical como sempre foi a sua vontade. E, sabe-se lá o que teria acontecido. Mas, nascido em um templo budista, não conseguiu desviar o rumo. Tornou-se monge, como o pai, de uma igreja que surgiu há 750 anos no Japão. Natural da província de Shiga, Katata veio para o Brasil como missionário há quase 10 anos. "Cheguei em maio de 2006", lembra o monge, que morou em São Paulo e Presidente Prudente, antes de se mudar para Londrina em 2010.

"O chefe internacional disse que seriam no mínimo 10 anos morando fora. Mas agora que o tempo está acabando, não penso em voltar", avisa. Para quem desembarcou no País sem falar o idioma local e passa boa parte do tempo convivendo em ambiente nipônico, Katata se esforça para que as respostas saiam em ótimo português. Ouve a pergunta, reflete por um tempo, solta uma interjeição bem japonesa (algo como o nosso então) e responde.

Para melhorar ainda mais a comunicação, Katata vem usando a música para aprender. "Faço aulas de choro e samba porque queria aprender outros ritmos e o professor me ensina português", explica. Uma das canções que aprendeu até virou trilha sonora do seu casamento, na terra natal, em 2011. "Toquei o Violão que Chora, mas não cantei", lembra o monge, casado com uma conterrânea. "No Japão é chique tocar samba e bossa-nova nos restaurantes", conta.

Assim como aproveita a música para se inteirar do idioma, Katata também utiliza os sons e acordes para chamar a atenção para a igreja. "Queria que as pessoas se interessassem, principalmente os jovens", explica ele, que já vem sendo chamado de monge roqueiro. Com a banda Oteraizão, que contou com a participação de intercambistas japoneses, gravou, com dinheiro próprio, um CD em 2014. "Mas já consegui pagar os custos", contabiliza.

Quando escolheu o nome da banda fez uma relação entre os significados em japonês e português. "Em japonês é algo como 'sem oterá (templo) não consigo viver', mas também tem a ver com o 'zão' em português, de grande oterá", ensina o monge. Compositor, Katata avisa que está providenciando novas canções para um segundo CD. ""Já estou acumulando 10 músicas", diz. Convidado para se apresentar em eventos nikkei como as festas na Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel) e encontros de animes, ele formou uma nova banda, considerando que os primeiros integrantes, os intercambistas, tiveram que voltar para o Japão. "Antes dos eventos os ensaios são mais constantes", conta o monge, que toca violão e guitarra.

"Quando cheguei em Londrina, não havia jovens no Oterá, hoje já são cerca de dez", alegra-se. "Encontrei essa maneira, a música, para que eles participassem", conta. "Cada missionário tem a sua maneira", diz, lembrando que a igreja tem templos espalhados também nos Estados Unidos, incluindo o Havaí, no Canadá e na América Latina. Em Londrina, o Templo Honpa Hongwanji tem cerca de 65 anos e traz como ensinamento o Shin Budismo da Terra Pura, fundado por Shinran Shonin, que viveu entre os anos de 1173 e 1293.

Além da música, o monge Katata também utiliza o Facebook para interagir com os grupos e na própria página do templo. O CD, todo em japonês, está à venda no oterá.

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