A começar pelo custo total do evento R$ 5 milhões os números desta edição da São Paulo Fashion Week são grandiosos. E tudo o que eles representam também. Basta olhar para trás e tentar lembrar o que era a moda brasileira antes da existência de um calendário oficial de desfiles. Tanto em termos de identidade como de estrutura de mercado, o que foi feito, nos últimos oito anos, pode ser definido, sem medo de exageros, como uma revolução.
À frente da empreitada, um legítimo ariano (signo solar, ascendente e lua em Áries), capaz de arrebatar seguidores fiéis com seu discurso articulado e preciso, que traduz a credibilidade e o entusiasmo dos líderes natos. Mantendo pulso firme, riso largo e senso visionário, Paulo Borges comemora o oitavo ano de sua cria dedicando a 16 edição da SPFW aos 450 anos da cidade que hospeda a moda brasileira.
O evento começa extra-oficialmente hoje, com um desfile em homenagem ao aniversário de São Paulo no Palácio das Indústrias, uma ''grande ópera construtivista'', como Borges define, sob a direção de Daniela Thomas. E segue até o dia 3 de fevereiro, com lançamentos de 38 marcas, 41 desfiles, seminários e novidades dos mais diversos setores da moda nacional. Afinal, todos querem pegar carona no maior evento da área na América Latina.
Como um maestro, Paulo Borges rege toda essa orquestra fashion sem se deixar enlouquecer pelo stress, como era de se esperar de qualquer simples mortal. Amante de cinema e de Carnaval na Bahia, fã de música clássica, blues e jazz e fascinado pelo mar, o big boss da SPFW conseguiu um tempo (que ele administra como ninguém) no corre-corre do Amni Hot Spot (outra cria sua), dias atrás, para um bate-papo com a Folha Gente.
Entre as novidades desta edição que vai homenagear a terra da garoa trazendo à tona reflexões sobre identidade brasileira a partir dos movimentos Modernista, Antropofágico e Concretista está a criação do Salão de Moda e Design. De acordo com Borges, o salão acontecerá no terceiro andar da Bienal, quatro vezes por ano, com lançamentos de inverno (em janeiro), primavera (maio), verão (junho) e outono (outubro). Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Folha Qual o segredo de se manter zen no meio de tanta correria?
Paulo Faço o que eu gosto. E o que faço é uma missão, não é um trabalho. Então não tem horário. Não fico doente, por exemplo. Na minha equipe, na hora que acaba o evento, está todo mundo doente. Eu saio numa boa.
Folha No começo da sua carreira, nos anos 1980, quando trabalhava com a Regina Guerreiro na Vogue, você tinha algum feeling sobre o que viria pela frente?
Paulo Não. Comecei a trabalhar na Vogue por acaso. Eu trabalhava na área de informática, achava que eu iria ser um gênio da computação. Sempre fiz teatro, adorava cinema. Fui trabalhar com a Regina por acaso. E adorei. As coisas foram acontecendo visceralmente, sem nenhum tipo de controle. Eu não imaginei nada disso. Tudo começou a ter uma velocidade meio geométrica. São visões. Eu tenho visões de coisas. É muito rápido. Não sei explicar.
Folha Que análise você faz dos eventos de moda que acontecem em outros Estados?
Paulo Eu acho maravilhoso. Só que as pessoas não podem confundir. O calendário de moda que mexe com a indústria e com o mercado e que é internacional é o da São Paulo Fashion Week. Nós não fazemos um evento. Nós trabalhamos uma estrutura de negócio. E as pessoas sempre acham que tudo é um monte de eventos, que o SPFW é o maior evento, daí tem o segundo maior, o terceiro maior... Acho uma grande bobagem, não tem competição. Todos os eventos são importantes porque mexem com a cultura de moda, dão trabalho, geram negócios e desejos de moda, trazem informações. Mas calendário de moda como tem em NY, Paris, Milão, Londres, só em São Paulo.
Folha Quanto a SPFW consome do seu tempo?
Paulo Todo o tempo. O ano todo. Tudo o que está acontecendo agora a gente estava discutindo há um ano. São seis meses de produção e tempo ininterrupto de planejamento. O nosso planejamento sempre é feito por etapas: são objetivos para serem alcançados em estágios cronometrados. Todas as nossas ações são para os próximos três anos.
Folha E mesmo assim acontecem problemas...
Paulo Não são problemas, são nozinhos, porque você está trabalhando ao vivo, com pessoas. Não é cinema, que já está feito, aperta um botão e começa a projetar o filme. São seres humanos, 2.500 pessoas trabalhando. São humores, ansiedades, nervosismos.
Folha Que quase sempre você tem que administrar...
Paulo Tenho uma equipe enorme, mas vou apagando as coisas mais conflitantes. As pessoas ficam muito ansiosas, é muita pressão. É muito angustiante para o estilista. São 1.500 jornalistas em cima daqueles 10 minutos, de seis meses de trabalho e de milhões em investimentos. Isso gera um nervosismo natural. Mas é maravilhoso. Tanto que cada vez acontece de forma mais bacana.
Folha Você também é tão planejado e organizado na sua vida pessoal?
Paulo Sou muito tranquilo. Divido a minha vida entre uma chácara e um apartamento, mas fico mais na chácara. Não saio tanto, não fumo, não bebo, não uso droga, sou supercaseiro, adoro ir à Bahia, ficar no mar. Adoro essa coisa fechada, entre amigos. Minha vida é muito simples.

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