O lado humano do vilão
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domingo, 18 de novembro de 2012
Paula Costa Bonini <br> Reportagem Local 
Quem assiste às cenas protagonizadas por Russo, um dos maiores vilões da televisão brasileira do momento, não imagina que por trás do personagem truculento e malvado, no ar em ''Salve Jorge'' - trama das 21 horas da Rede Globo - está uma pessoa batalhadora e muito diferente do que se mostra nas telas.
''Às vezes perguntam se eu sou bravo, mas não sou. Sou pacífico, cordial e 'da paz'. O que eu tenho em comum com o personagem? Acho que a agitação e a ansiedade'', afirma o ator Adriano Garib, 47 anos, que conversou com a reportagem da FOLHA por telefone. Sem pressa para desligar, ele contou sobre o tempo em que morou em Londrina, entre 1983 e 1994, onde cursou a faculdade de jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
''Foi em Londrina que nasceu a minha alma artística em todos os sentidos.
Tem uma energia positiva que passa por esta cidade. É um lugar muito fértil do ponto de vista inventivo e de criação'', declara o ator, que já atuou no teatro, cinema e televisão.
Apesar da longa trajetória e das muitas participações nas telas e palcos do Brasil e do mundo, ele acredita que o seu momento de ascensão é agora. ''Creio que o Russo vai mudar a minha vida. As coisas são difíceis no meio artístico. Estou tendo uma grande oportunidade. O personagem chegou no momento certo da minha carreira. Há muitos anos não me sentia tão feliz do ponto de vista profissional'', diz entusiasmado.
Questionado sobre o assédio dos fãs, ele ressalta que por enquanto não está sentindo muito. ''Às vezes as pessoas me olham meio esquisito na rua. Acho que ficam se questionando: será que é aquele cara da televisão?'', aponta Garib, que tem contrato assinado com a Globo somente para esta novela.
Assim como outros vilões que marcaram a teledramaturgia brasileira, ele sabe que o seu personagem vai despertar raiva. ''Quanto melhor o ator, mais o personagem é odiado. A raiva mostra que um bom trabalho está sendo realizado'', opina.
De personalidade forte, Garib adianta que já está se preparando para quando alguém questionar se está apanhando na rua devido ao personagem. ''Vou responder que não e que as pessoas estão, na realidade, me cumprimentando pelo meu trabalho'', salienta.
Garib não poupa elogios ao falar sobre a função social da novela. ''O tráfico internacional de pessoas vem crescendo de maneira assustadora, sendo a terceira receita do crime organizado a nível mundial. A Glória (Perez, autora da novela) quer apresentar definitivamente o problema. O Tribunal de Justiça está apoiando a iniciativa, tanto que liberou o tema em pleno horário das 21 horas em que a censura é 12 anos'', pontua.
A rotina de gravação é árdua. ''Gravamos no mínimo quatro vezes por semana do meio dia às 21 horas''. A agenda atribulada, no entanto, funciona como um ''combustível'' para o ator, que é apaixonado pelo o que faz. ''Ainda quero investir muito em televisão e cinema. Mas não vou parar a minha atividade como ator de teatro, que foi onde eu nasci e fui formado'', avisa.
E, nos momentos livres - já que ninguém é de ''ferro'' -, gostar de sair com os amigos para beber e dar boas risadas. ''Também gosto de escrever, ler, ir ao cinema e caminhar por essa cidade linda que é o Rio de Janeiro'', revela.
De jornalista a ator
Nascido em 1965 na cidade de Gália, interior de São Paulo, Adriano Garib mudou-se com a família para Bauru (SP) aos 7 anos de idade. É o terceiro de quatro filhos. ''Meu pai, já falecido, era dentista, e minha mãe, que ainda vive em Bauru, é professora aposentada. Meus irmãos são todos dentistas. Dois moram em Bauru'', conta o ator que é pai de Gabriel, de 17 anos.
Atualmente solteiro, ele revela que foi casado algumas vezes, mas nunca de papel passado. ''Prefiro não falar muito sobre isso'', despista.
Em 1983, veio para Londrina cursar faculdade. ''Quando cheguei na cidade minha vida deu uma guinada. Ao pisar pela primeira vez no Calçadão, 'pirei'. Estava com os pés descalços e fiquei completamente fascinado'', lembra.
Indagado sobre os motivos que o levaram a optar pelo curso de jornalismo, Garib diz que ''existem coisas que são difíceis de explicar''. ''Acho que por ser um curso da área de comunicação e pelo fato de eu desde pequeno me interessar pelos assuntos do mundo. O jornalismo aconteceu na minha vida'', destaca.
Quando se formou, em 1988, passou por diferentes veículos de comunicação em Londrina. ''Trabalhei em jornal impresso, rádio e televisão. Fui repórter no Grupo Paulo Pimentel e TV Tropical. No impresso, não cheguei a ser contratado, mas fui colaborador da Folha de Londrina e do Correio Londrinense'', cita, destacando que durante quase dois anos teve um programa semanal na Rádio UEL. ''Foi um período bacana. Conciliava o trabalho de jornalista com o teatro'', comenta.
Nas veias de Garib, o interesse pelo mundo artístico sempre correu forte e desde muito cedo. ''Ainda em Bauru já me envolvi com um grupo de teatro. Foi uma coisa de adolescente, mas muito importante para mim.''
Foi em Londrina, porém, que as coisas começaram realmente a acontecer. ''Estava cursando jornalismo quando conheci o Grupo Delta de Teatro, do diretor José Antonio Teodoro. Fiz uma peça com eles, que mudou a minha vida. Foi o espetáculo 'Toda Nudez Será Castigada', de Nelson Rodrigues, em que vivi o vilão Patrício. Acabei ganhando vários prêmios e viajando o Brasil e o mundo'', recorda.
Em 1988, passou a integrar a Companhia Armazém de Teatro, com o diretor Paulo Morais, e fez outro grande personagem, o Ariel na peça ''A Tempestade'', de Shakespeare, em meados de 1993. ''Foi a primeira vez que contracenei com o grande Paulo Autran. Para comemorar o aniversário de Londrina, nos apresentamos nas margens do Lago Igapó. Foi excepcional'', afirma Garib, que tem grande admiração e gratidão por Autran, falecido em 2007.
Em 1994, mudou-se de Londrina para São Paulo, onde acompanhou o nascimento do filho e definitivamente assumiu a profissão de ator, deixando o jornalismo. Em 1996, transferiu residência para o Rio de Janeiro, onde está até hoje.
Logo que chegou lá, ele lembra, começou a ser sondado pela Rede Globo. O primeiro contrato com a emissora foi entre 1996 e 1999. ''Gravei a novela 'Salsa e Merengue', em que fiz o personagem Juarez. Na época, era muito inexperiente e não soube aproveitar tão bem a oportunidade. Depois que terminou a novela, fiz uma série de episódios de 'Você Decide''', lembra.
Neste mesmo período, ingressou na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde ainda atua como professor de interpretação. Entre 2002 e 2009, fez parte da Companhia de Teatro Autônomo, mas não deixou de fazer participações na TV Globo. Em 2008, por exemplo, atuou na novela ''Duas Caras'', interpretando Silvano, um gerente de supermercado.
No cinema, participou do filme ''Meu nome não é Johnny'', em 2008, e ''Tropa de Elite 2'', em 2010. '''Tropa de Elite' foi um trabalho decisivo. Após o filme comecei a ser sondado pela Record e fui contratado para fazer a novela 'Vidas em Jogo'. Assim que o contrato com a Record terminou já me ligaram para conversar sobre 'Salve Jorge'. Levei um susto'', finaliza Garib, que antes de desligar fez questão de mandar um abraço para esta ''cidade maravilhosa''.


