O lado didático da moda
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de julho de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Os avanços que a moda vem passando no mundo ao longo dos últimos 100 anos, não são apenas relacionados a fatos fúteis como aparecer belo para a sociedade. A moda, assim como a arte, a filosofia, a ciência, a matemática, entre outras matérias, também evolui desde o tempo dos bárbaros. Da tanga pré-histórica até o jeans o homem mudou muito, e sua indumentária é a grande prova disso. Quem se atreve a pensar ao contrário pode achar nos livros a fundamentação para essa afirmação. E é isso que João Braga, estilista, professor de História da Arte e Cultura da Moda na Faculdade Santa Marcelina, Faculdade Senac de Moda, IB Moda e Universidade Anhembi Morumbi prova com sua recente obra. ''História da Moda: Uma Narrativa'' teve a coordenação de Kathia Castilho e vai lá na pré-história, na antiguidade oriental, na Mesopotâmia e Egito para começar a traçar a relação homem-roupa. Braga passou por Curitiba nesta semana para dar um workshop sobre o assunto e lançar seu livro, no Centro Europeu.
Já nas primeiras páginas do livro lançado no começo do ano e entrando para sua segunda edição, Braga se entrega: dedica todo o conhecimento adquirido à professora Serafina do Amaral, a quem dá créditos pelo seu fascínio ao assunto. ''Eu comecei a fazer vários cursos de história, inclusive da moda, e a conheci. Aonde ela ia, eu ia atrás. Fiz aproximadamente uns sete ou oito cursos de História da Moda com ela. Até que finalizei com uma pós-graduação pelo Instituto Paulista de Museologia Escola de Sociologia Política em História da Moda. Ficamos muito amigos e antes dela morrer ela me indicou para substituí-la e eu estou tentando dar continuidade ao seu trabalho''.
Foi através de Serafina que Braga teve o primeiro lampejo de que seria esse o caminho que aprofundaria em meio a tantos cursos. ''A primeira particularidade que me levou à moda foi a professora. Ela era de um conhecimento tão amplo e voltado para uma área que normalmente as pessoas são tidas como banais''.
A busca pela fundamentação histórica e sociológica fez de Braga um jovem respeitado pelo mundo da moda brasileira. Ele já foi professor e é ainda de vários estilistas brasileiros com nome feito e de outros ainda em processo de 'fermentação criativa'. ''Vi que queria fazer moda como estilista, como sou com minha camisaria chamada João Braga, mas também queria pesquisar a fundamentação teórica, especialmente pelo viés da história. Você pode ter outras como a antropológica, sociológica, econômica, mas eu quis percorrer esse caminho''.
A Escola de Moda brasileira ainda está começando. Datam apenas 16 anos desde que os primeiros cursos começaram a aparecer. Hoje, o Ministério da Educação exige um currículo muito além do fútil e fugaz. ''Os novos estilistas têm que saber como se fazia uma tanga na pré-história. Vai longe. Desde quando o homem cobriu o corpo, seja pelo caráter de proteção ou por adorno. Ou pelo pudor que é antropologia teológica'', explica.
Nesse caminho mais didático aparecem outros fatores importantes sobre o assunto: ''A moda não se alimenta só de moda. Ela vive de diversas outras áreas, numa interface muito grande. Para você entendê-la tem que entender política, religião, sociologia, antropologia. Tem que ter um repertório muito amplo de conhecimento. O que eu vejo é que você não precisa ser banal para lidar com moda''.


