Curitiba - Numa época em que a roupa deixou de ser prioridade até para quem sempre foi consumidor, apresentar um crescimento de 18% no ano é um milagre. O País não vive um momento de glamour, mas tem lá seus ícones de atitude, empresariado e bom gosto. Nelson Alvarenga, dono da grife Ellus é um deles. Personalidade meiga, atitude arrasadora no mercado. São 30 anos de história. Mutações imensas ao longo desse tempo. Alvarenga, no entanto, continua com um mesmo tino: o de liberar a criação.
Não é homem de centralizar nada. Sabe que a imaginação precisa de liberdade. Toda história da grife tem pitadas de liberação. Alvarenga sabe delegar, dar as tintas para bons pintores pintarem boas obras que lhe reverterão em frutos sólidos. ''A Ellus foi criada baseada na idéia de dar oportunidade a novos talentos. Há 31 anos, nasceu da iniciativa de estampar em camisetas, o espírito de liberdade da comunidade hippie. Na ocasião, tinha contato com uma comunidade de jovens no Rio de Janeiro. Eles tinham liberdade para pintar e bordar peças com a visão romântica do mundo da época. Tudo que era produzido vendia rapidamente. A filosofia da Ellus sempre foi essa de apoiar novas iniciativas, novos talentos. Tanto é que, em 1986, começamos com o Ellus Look, concurso que apoiava a profissão de modelo, que na época não tinha todo esse glamour que existe hoje. Depois disso surgiram as grandes agências no Brasil e as nossas tops.''
Essa atitude aponta para o precursor da febre da customização que atualmente é uma obrigação entre os modernos do planeta. Transformar peças comuns em peças com uma característica única é coisa antiga para o empresário. ''Estrategicamente, o objetivo da grife é ser desejada. Este é o nosso desafio. No fundo, nós vendemos felicidade. A coisa do utilitário, da roupa em si, é só 50%, a outra metade é feita por coisas intangíveis: é a sensação de estar moderno, bacana, atualizado, informado, fazer parte de uma elite.''
Agora, Alvarenga deu mais um passo forte rumo ao incentivo de novos criadores. Criou, junto com a estilista e mulher, Adriana, o 2nd Floor, um projeto que dá oportunidade para novos talentos mostrarem suas criações dentro das suas lojas em todo Brasil. Sobre a idéia inovadora, conta que é simplesmente um desdobramento do que vem fazendo há 30 anos. ''Nos dá muito prazer promover projetos que incentivam carreiras e novos talentos. Alguns nomes que passaram pelo 2nd Floor integram a nossa equipe de criação. A Karla Girotto (estilista em alta entre os descolados brasileiros) já tem sua própria carreira, mas criou algumas peças da linha Limited de 2003 e foi um sucesso.''
Uma outra característica sua é ser parcimonioso. Quando o assunto é mercado internacional mais ainda. Para ele investir lá fora é um processo dúbio. Mistura uma dose de vaidade, em querer ser reconhecido mundialmente, e uma outra que é a vontade de vender mesmo.
''O processo de internacionalização requer muito trabalho. Leva tempo. Queremos ir pra fora com a nossa cara, cara de Brasil, sem muitas pretensões, com o nosso jeanswear e a linha Limited. Não temos pretensão de concorrer com o que é lançado no prêt-à-porter. No Chile, temos duas lojas e somos líderes de mercado. Temos um show-room em Paris, que também atende o Japão e Oriente. Em Nova York temos cerca de oito a dez butiques vendendo nossa produção. Estamos em Toronto, no Canadá e começamos a vender para a Bélgica''.
A preocupação, segundo Alvarenga, não é vender em quantidade mas, sim, com qualidade. ''Queremos estar em lojas legais, frequentadas por formadores de opinião. Essa é a melhor maneira de ser bem-visto e benquisto. Queremos vender o nosso charme, a nossa identidade, a nossa história. É um novo desafio. Já sugerimos ao Paulo Borges, e talvez até comece nesta edição do SPFW, fazer uma coleção exportação no terceiro piso da Bienal para convidar mais compradores e imprensa internacionais. Assim, saímos apenas do fashion show e entramos no real thing. O Brasil não tem tradição na área de design de moda, tudo é muito novo, somos teenagers nessa área, mas eu acredito que a tendência é crescer e muito'', garante.

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