O homem que reconstrói vidas
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2008
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Uma nota publicada na FOLHA, num domingo de julho de 1983, mudou a trajetória de vida do médico especializado em microcirurgia Edson Kenji Takaki, 51 anos, retratado recentemente nas páginas deste jornal por causa da realização da cirurgia inédita que reimplantou as duas mãos do operário Degilânio Verônica de Lima, amputadas em um acidente de trabalho em Apucarana, no mês passado.
Natural de uma família de agricultores de Guaraci, na região norte do Paraná, Takaki ainda era estudante de medicina, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), quando entrou em contato com a obra do médico japonês Kiyonori Harii, primeiro cirurgião do mundo a fazer transplante de um tecido através da microcirurgia.
Com o sonho de fazer a mesma especialidade, mas sem condições financeiras de realizar o curso no Japão, ele já se conformava em seguir outro caminho quando, em uma edição da FOLHA de 25 anos atrás, viu a nota que divulgava uma bolsa de estudos do governo japonês para estudantes brasileiros.
''No mesmo dia liguei para a Universidade de Tóquio e falei com o professor Kiyonori Harii, que se comprometeu a me dar uma vaga no curso se eu conseguisse a bolsa. Fiz oito viagens a Curitiba durante o processo de seleção, mas consegui ser aprovado'', recorda-se. Desde então, ele dedica-se diariamente ao ofício de devolver aos pacientes - a maioria deles trabalhadores ou vítimas de acidentes de trânsito - a esperança de uma vida normal após a iminência da amputação de algum membro.
Casado pela segunda vez com a enfermeira Luciane, ele tem três filhos do primeiro casamento. Bruna, 23 anos, e Edson Jr, 21, seguiram os passos do pai e cursam medicina na UEL. Rodrigo, de 19 anos, faz administração de empresas. ''A Bruna nasceu no Japão'', conta Takaki, que passou três anos no país do extremo oriente aprendendo sobre microcirurgia.
Ao final da especialização, ele foi convidado a permanecer como professor da universidade japonesa, mas declinou para honrar o compromisso firmado com o Hospital Evangélico antes da viagem. É nessa instituição, aliás, que ele realiza, há 21 anos, as cirurgias nas especialidades de microcirurgia, cirurgia da mão e plástica reconstrutora.
As muitas esculturas em forma de mãos que decoram o consultório do médico - todas presenteadas pelos pacientes - dão uma idéia da diferença que ele fez na vida das pessoas que atendeu e tratou. Modesto, o médico não se considera especial, mas apenas responsável pela missão de fazer o melhor possível para ajudar pessoas em situações dramáticas. ''Tive mais oportunidades que muita gente, por isso tenho a obrigação de cumprir meu papel na comunidade em que estou inserido'', pondera.
De hábitos simples, Takaki, que foi criado para ser engenheiro, tem uma oficina mecânica em casa. Habilidoso, também realiza serviços de carpintaria e manutenção elétrica e hidráulica. A habilidade manual utilizada nos hobbies é fundamental para o sucesso das microcirurgias que envolvem dimensões microscópicas e, pelo grau de dificuldade, chegam a durar mais de 24 horas.
Por essa característica de trabalho, ele também desenvolveu uma grande capacidade de concentração. ''É na hora da lavagem das mãos, antes das cirurgias, que começo a me concentrar. Nesse momento, sempre peço a Deus para me dar condições de fazer o melhor possível'', diz ele, que, acostumado a ser chamado no meio da madrugada para atender pacientes acidentados, tira do olhar fragilizado dessas pessoas a força para focar toda a atenção no trabalho. ''Nunca penso que não vai dar certo'', afirma.
Por saber que pode ser chamado a qualquer hora do dia ou da noite, Takaki nunca toma bebidas alcoólicas. A dedicação ao trabalho traz a ele a consciência tranquila que privilegia os que oferecem o melhor de si aos semelhantes. Por isso, as minuciosas cirurgias não são nunca associadas a desconforto ou estresse. Muito pelo contrário, o médico considera o exercício das técnicas aprendidas e aperfeiçoadas em mais de duas décadas como o ápice da satisfação profissional.


