O homem por trás das passarelas
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sábado, 27 de outubro de 2018
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 
"Veja agora, compre agora." Na opinião de Reginaldo Fonseca, consultor de moda internacional, diretor da Cia Paulista de Moda, escritor e empresário com mais de 30 anos de experiência, esse é um conceito essencial para o futuro da moda, já que o consumidor não quer esperar mais para ter aquilo que acabou de ver. Ele esteve em Londrina neste mês a convite da Forum Model para o "Workshop Fashion Business - Como trabalhar com moda no mundo moderno", quando falou sobre a importância da moda atual e o caminho a ser seguido. "Se nós não entendermos o principal motivo de estarmos aqui e fazermos nosso trabalho, se nós não entendermos o mundo e o mercado, dificilmente sobreviveremos", atesta.

Com vasta experiência no mercado nacional e internacional de moda, Fonseca conta que sua carreira começou ao acaso. Estudante de psicologia, Fonseca tinha um amigo modelo que o convidou para assistir a uma palestra sobre o assunto, que até então não lhe despertava nenhum interesse.
"No final dos anos 1980 a moda praticamente não existia. Eu não pensava em ir, achava que não tinha nada a ver comigo, mas acabei indo, fiquei encantado e no final fui falar com o palestrante. Não imaginei que moda era isso, aí ele me disse que precisava de um assistente."
Ele aceitou a proposta e tentou conciliar o trabalho com os estudos, porém, com a necessidade de viajar foi necessário fazer uma opção. "Percebi que já não era dono de mim e fui dizer para a minha mãe que não tinha mais como continuar com a faculdade. Eu ia ingressar em outro mercado e era bastante complicado, moda não tinha a mesma importância quanto tem hoje. Eu não tinha pai, minha mãe queria muito que eu fosse para a faculdade e por causa das viagens era impossível eu fazer isso. Mas na nossa vida nada é por acaso, e eu fui trabalhar com moda, fui me envolvendo, vi que tinha tudo a ver comigo, com o mercado", conta, acrescentando que depois ficou uma temporada morando em Paris.
"SEE NOW, BUY NOW"
Muito antes do conceito aparecer em destaque, Fonseca já acreditava que a moda era algo para ser consumido de imediato, logo após os desfiles. Especializado em trabalhar com o consumidor final, ele acredita que o futuro da moda está justamente relacionado a isso, oferecer aos compradores o que acabaram de ver nas passarelas. E foi pioneiro ao levar os desfiles para dentro dos shopping centers.
"Quando fui trabalhar com moda fui buscar o que é o corpo, e o que cai bem nesse corpo, o que as pessoas precisam. A moda é uma grande necessidade, duas das maiores é comer e vestir. Podemos até sair com fome, mas sem roupa, nunca. As pessoas gostam, precisam e querem comprar roupa. Trabalhar com o consumidor faz com que cada vez mais crie uma fonte de informação precisa e isso é o 'see now, buy now'. A crise envolve o planeta todo e se olharmos tudo o que temos no nosso guarda-roupa, pensando em consumo consciente, não precisaríamos comprar roupas pelos próximos cinco anos, sem nenhum problema. Mas precisamos continuar comprando, e eu vejo que as Semanas de Moda, em algum momento, vão ter que fazer os seus lançamentos rapidamente, vão ter que lançar e vender rapidamente. As pessoas não querem ver uma peça na passarela e esperar quatro ou cinco meses para poder comprar aquilo. Você precisa ver agora e precisa comprar agora", contextualiza.
E continua: "Nós nos especializamos nisso, o que o consumidor quer, a necessidade dele, que quer para hoje e que quer levar para casa. Por isso fomos trabalhar dentro do shopping. Quando vi a primeira edição do SPFW (São Paulo Fashion Week), eu pensei que tínhamos que levar isso para dentro do shopping, porque quem está dentro do shopping? É o consumidor final, é aquele que decide pela sua compra imediatamente. E é uma troca muito rápida. Por que os desfiles, mesmo com toda a crise, nunca perdem esse contágio, essa sedução? Porque é vida. Quando começamos a levar os desfiles para dentro dos 'malls', vimos que o efeito era imediato, as pessoas olhavam e compravam rapidamente."
a necessidade dele, que quer para hoje e levar para casa"
CONSUMO CONSCIENTE
As pessoas querem estar na moda, mas também passaram a se preocupar com o quanto consumiam e isso, segundo ele, é um reflexo da crise americana de 2008. "O que é o consumo consciente? É levar para casa só o que realmente precisamos, seja roupa, decoração, smartphone. Cada vez mais eu vejo que as pessoas vão comprar menos, comprar conscientemente, comprar o que precisam. É lógico que cada vez mais queremos coisas melhores, com preço justo. A vantagem de fazer (o desfile) no mall é comprar com um preço justo, das mais caras às peças de R$ 9,99. Isso é democracia, atingindo todos os públicos."
ANGOLA
Há cinco anos a Cia Paulista de Moda se tornou responsável pela direção-executiva e toda a produção do Angola Fashion Week, considerado hoje o maior evento de moda da África.
"Angola entrou na minha vida como o maior laboratório de todos. Eu acreditava que sabia tanto e vejo que não sabia nada. Acho que é uma troca muito bacana. Acho um país fantástico, onde as pessoas gostam e respiram moda, um país onde há uma desigualdade social muito grande, como na África toda, onde não existe classe média - ou é classe alta, uma pequena parcela, ou classe baixa, a maior parcela."
Ele conta que para elevar o evento ao calendário da moda internacional contou com a presença de nomes importantes na moda internacional em todas as edições, como Roberto Cavalli, Tom Ford, Lanvin, além de profissionais brasileiros como Lino Villaventura, Roberto Braga, Dudu Bertholini, Juliana Jabur e finalmente neste ano foram apresentados trabalhos exclusivamente de profissionais angolanos.
"Isso era um outro momento para colocarmos o Angola Fashion Week na mídia internacional. Conseguimos. Agora fizemos uma edição muito diferente, levamos para dentro de uma tenda e trabalhamos exclusivamente com designs angolanos. Tivemos 23 desfiles em três dias, com marcas nacionais. É um trabalho muito legal e o mais importante de poder trabalhar lá é a troca de conhecimento, de experiências, é a gente de alguma forma poder ajudar a profissionalizar um mercado que é tão promissor, que gosta e entende do assunto."


