O homem no espelho
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Nos desfiles das mais importantes semanas de moda brasileira, ele é tratado como celebridade. Disputa atenção e os flashes dos fotógrafos com os famosos, que geralmente ocupam as cadeiras da fila A, vedete desse tipo de evento. Tantos holofotes, no entanto, não tiram a luz do consultor de moda Lula Rodrigues. Esse carioca que passou a infância no Paraná tem uma história de vida que renderia um livro, mas, por hora, ele deixa de lado as experiências pessoais como tema principal e prepara o lançamento de um catatau sobre a moda masculina. O ''Almanaque da Moda Masculina'', que faz um passeio minucioso pelo comportamento dos homens quando o assunto é moda, tem previsão de lançamento para a próxima São Paulo Fashion Week de Inverno, em janeiro de 2009.
O livro aborda a moda masculina desde o século 17 até os dias de hoje. O período escolhido tem uma justificatica: ''No século 17, a gente vê surgir o primeiro 'pavão' da história, que é o Luis XIV. Esse ciclo termina com o jogador David Beckham, que é o 'pavão' do século 21'', diz Rodrigues. Há mais de duas décadas, ele se debruça sobre as principais referências da história mundial da moda. Tudo começou quando um amigo trouxe de Nova York o livro ''Clothes and The Man'' (1985), do escritor americano Alan Flusser. ''Foi o meu primeiro manual de estilo. Depois disso, comecei a me inteirar sobre moda masculina efetivamente'', revela. Há cerca de três anos, ele decidiu compilar essas informações em um manual.
O resultado vai culminar numa obra de mais de 300 páginas. Em conversa com a FOLHA, entre um desfile e outro da concorrida semana de moda paulista, em junho, ele adiantou que a primeira parte do livro vai trazer a trajetória da moda. No segundo capítulo, Rodrigues mostra a história de todas as peças do guarda-roupa masculino. ''Tem a história da calça, da bengala, dos óculos, do colete, do fraque. Enfim, é uma radiografia das peças masculinas''.
O livro encerra traçando um perfil do homem moderno. ''Termino o ciclo da história da moda falando sobre o metrossexual, o homem-alfa, o homem-beta, o neopatriarca, que são rótulos que não existem mais, mas foram importantes na história'', diz. Ele ressalta que esses rótulos ''já eram''. ''Temos agora um homem sem rótulo, mas não podemos descartar essas nomenclaturas. As pessoas precisam de um padrão. Embora o homem tenha medo de dormir metrossexual e acordar gay'', brinca.
Para a pesquisa, ele consultou pelo menos 353 livros (citados na bibliografia) além de centenas de revistas. Todas essas obras ocupam uma mesa de dez lugares no antigo apartamento de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde Rodrigues mora atualmente.
Nascido em Campos, em 1953, ele mudou-se para uma fazenda próxima de Nova Esperança, no Paraná, com apenas dois anos. O motivo foi um casamento arranjado pela influente família dele, para encobrir a gravidez da mãe. No Paraná, ele viveu com o padrasto até o início da adolescência, quando voltou para o Rio de Janeiro. ''Não posso dizer a data correta porque minha mãe está com Alzheimer e não se lembra de muito detalhes'', conta.
Foi no Rio que ele decidiu cursar comunicação visual. ''No início, eu queria fazer desenho industrial, para trabalhar com grandes espaços de shows e moda, mas me desestimularam dizendo que não tinha mercado''. Nem por isso, a moda deixou de fazer parte da vida do agora escritor e consultor de moda. Ainda na faculdade, ele começou a trabalhar com histórias em quadrinhos, na Rio Gráfica Editora (atual Globo). ''Foi ali que eu comecei a olhar a moda com mais interesse''.
Tempos depois, na década de 80, ele se ofereceu para trabalhar na já extinta revista Moda Brasil, a principal publicação sobre o tema na época. ''Eu queria ser produtor, mas disseram que eu tinha o perfil de diretor de arte''. Enquanto se decidia, ele passou algum tempo acompanhando os editoriais e assinando a publicidade de moda da revista. Quando a companhia de dança do David Parsons veio ao Brasil, ele teve uma idéia que mudaria o conceito dos editoriais. ''Levamos as roupas e, na hora, sugerimos que David posasse. Ele ficou amarradão e topou. O resultado foi um editorial lindo, que foi capa do Segundo Caderno''.
Depois disso, Rodrigues passou a trabalhar como produtor no Jornal do Brasil e em seguida assumiu a coordenação de produção. Depois foi para o GNT Fashion, teve passagens pelo Vídeo Show e agora é colaborador regular do jornal, escrevendo sobre comportamento e, claro, moda.
Dono de um estilo muito próprio de se vestir (óculos e chapéu são sua marca registrada), ele analisa as mudanças do mundo fashion com propriedade, mas, quanto ao espaço que a moda masculina ocupa hoje, ele é categórico: ''Vai ser difícil a moda masculina ganhar o mesmo espaço que a moda feminina. Isso é um comportamento histórico. O homem sempre foi e será mais sisudo e menos consumista. É só olhar para o mercado: enquanto a mulher compra uma média de cinco vestidos, o homem compra um terno''. Mas não dá para negar que a moda masculina ganha cada vez mais atenção. Lula Rodrigues também.


