O grande enigma de Íris
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Não fosse por um detalhe, a pesquisadora e artista plástica curitibana Íris Koehler Bigarella seria uma senhora comum. Casada há 60 anos com o pesquisador João José Bigarella, ''dona'' ãris tem uma característica que a destaca : o desejo intrínseco de desvendar os mistérios da vida. Uma busca que ela condensa agora no primeiro livro que lança, aos 86 anos. Depois de décadas de pesquisa e quatro anos de dedicação quase que exclusiva, ela publica ''O Grande Enigma'', um livro que reúne parte das suas telas e poemas que questionam os principais mistérios do universo: de onde viemos e para onde vamos.
Essas questões sempre permearam a vida de Íris, mas ela confessa que durante muito tempo teve de deixá-las guardadas. Porém, nunca parou de se questionar, e a busca por respostas sempre foi uma constante. Nascida em Curitiba, de família de origem germânica e aristocrática, ela foi criada sob uma educação extremamente rígida. ''Inconscientemente eu me revoltava com isso'', revela. Uma revolta que fez com que ela procurasse outros enfoques para a vida. Tanto que se formou em Filosofia, além de Geografia, História e Antropologia. Foi na faculdade, aliás, que ela conheceu o marido, em uma excursão à praia, a título de pesquisa.
Casada, fez o que muitas mulheres da sua geração fizeram: deixou de trabalhar e de estudar para cuidar dos filhos. Nas suas obras, muitos dos sentimentos que reprimiu durante essa época aparecem de forma velada. São mulheres acorrentadas, presas e estáticas. Não que esse período cuidando da família tenha sido um cárcere. Pelo contrário. Íris fala com carinho de toda uma época de extrema importância para que o marido, que tem centenas de obras e pesquisas publicadas, pudesse realizar o seu trabalho.
''Ele realmente tem uma carreira brilhante, que foi construída enquanto eu cuidava de tudo. Lembro que ele ficava dois, três meses fora, em países como a África, enquanto eu ficava com as crianças'', conta a artista, que teve três filhos e agora tem netos e bisnetos complementando a família.
Depois dos filhos criados e encaminhados, Íris passou a dedicar-se ao conhecimento interior. Queria entender as agruras e delícias da vida e entrou em contato com o universo da psiquê. Passou a se dedicar a uma extensa pesquisa sobre o comportamento humano. Autodidata na área, viajou para Europa e para outros países para participar de cursos e workshops que a ajudassem a entender as complexidades da vida. Fez até mesmo um curso de xamanismo no México, que fazia com que os participantes passassem uma noite em um cemitério.
Nessa mesma época, Íris - que fala fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol e ainda arranha o dialeto suíço - também descobriu duas coisas que a fizeram mudar o modo de pensar e agir: a biodança e a yoga. Duas descobertas que, conforme conta, a ajudaram a manter a vitalidade que esbanja perto de chegar aos 90 anos. ''E a aparência também, não é?'', ressalta, bem-humorada.
Sobre o processo constante de busca do auto-conhecimento, Íris tem uma explicação convincente: ''É preciso muita coragem para olhar para dentro de você mesmo. Mas isso também traz muito conhecimento'', diz ressaltando que toda a sua busca não tem nada a ver com auto-ajuda. ''Me conhecendo consegui superar todas as dificuldades. Também descobri que o sofrimento é necessário. É preciso transformar a dor em crescimento interior.''
Toda essa expressão ela traduziu em pinturas e poemas e escolheu parte deles para o livro ''O Grande Enigma''. As pinturas reproduzidas são apenas parte das cerca de 800 que já produziu. São obras bi e tridimensionais, desenhos, aquarelas, óleos e acrílicos sobre tela e esculturas de argila. No livro, essas obras estão dispostas em três partes que traçam um cronograma da breve passagem do ser humano sobre a terra: o surgimento do homem; as buscas e os grandes questionamentos e o encontro do amor; e, por fim, a força de enfrentar o grande desafio.
Para escrever o livro, a autora baseou-se nos conceitos do psiquiatra Carl Jung. A introdução da obra traz um texto de 25 páginas do filósofo, teólogo e psicólogo francês Jean-Yves Leloup, e o prefácio é assinado pelo psiquiatra de referencial junguiano Newton César. A obra será lançada amanhã, às 19h30, na Livrarias Curitiba do ParkShopping Barigui, uma ótima oportunidade de conhecer a autora que se destaca por um diferencial: não deixa nunca de questionar os mistérios da vida e de si mesma.


