Amanhã é o Dia Internacional da Mulher, e Patricia Amorim, um bom exemplo para comemorar: é bonita, corajosa, bem preparada e, acima de tudo, competente. Aos 40 anos, ela enfrentou cinco concorrentes - todos homens - para chegar à cadeira da presidência do maior clube esportivo do Brasil, o Flamengo, com seus 35 milhões de torcedores fanáticos. E venceu. Foram 792 votos contra 699 - de Delair Dumbrosck, o segundo colocado. Não foi fácil. Além da disputa, teve de lidar com o mundinho machista. Afinal, tornou-se a primeira mulher a chegar à presidência do clube. ''Foi difícil, trabalhei duro e me dediquei muito'', diz a poderosa, que não deixa de exaltar sua experiente equipe.
Durante a campanha, emagreceu seis quilos. ''Não queria perder tempo fazendo uma refeição. Mas já recuperei uns dois'', conta. Pior foi ter de ouvir que deveria se candidatar à vaga de vice-presidente, já que o cargo máximo não seria lugar para mulher. ''Puro pré-conceito. Subestimaram minha capacidade. Mas o que me sustenta não é papel, é trabalho'', responde. Seu grande desafio no clube é baixar a dívida de R$ 300 milhões, já que o orçamento para 2010 é de R$ 148 milhões. ''Temos compromissos e não vamos fugir disso.''
Sua rotina não sofreu grandes mudanças, pois sempre trabalhou muito e teve uma vida regrada, como todo atleta dedicado. Mas, para dar conta de um clube dessa dimensão e de cinco homens dentro de casa - além do marido, ela é mãe de quatro meninos -, Patrícia conta com uma boa estrutura doméstica, além de ser uma pessoa superorganizada. Conta que não perde o foco, tem apoio do marido e procura sempre conversar e esclarecer as coisas com os filhos. ''Trabalho muito, mas gosto do que faço.''
Desafio é dar conta dos compromissos pessoais. Claro que, em algumas situações, ela não consegue estar presente. Só tem uma coisa da qual não abre mão: participar das reuniões escolares dos filhos. ''Todos praticam esporte no clube. Foi a maneira que encontrei para conseguir encontrar com eles em algum momento do dia.''
E o estresse? Para conciliar o trabalho no clube com a família e a casa, Patricia tem uma receita que sempre deu certo. ''O segredo é não se culpar nem sofrer. Se por acaso chego a uma situação extrema que beira o insuportável, me reprogramo'', diz com simplicidade.
Imaginar que há tantos milhões de fanáticos pelo time que passou a presidir desde o início do ano, pode assustar. Mas Patricia não tem medo do tamanho do clube e garante que sua relação com a torcida é saudável. ''O que for melhor para o Flamengo vai ser feito. E o que depender de mim, também'', assume.
O que ela quer é mudar a história do Flamengo em relação à administração. ''Nada melhor do que uma mulher para arrumar a casa'', brinca. Para isso, dedica-se integralmente. Sua filosofia é não ser linha dura e confiar no ''olho no olho''. Como foi atleta e esteve do outro lado, tem facilidade de compreender, usando armas como a sensibilidade e bom senso, peculiaridades femininas. ''Temos de lidar com a complexidade do ser humano, tentando convergir interesses e objetivos.''
O fato de ter uma mulher à frente do clube trouxe um furor que ela realmente não esperava. Bom é ver a repercussão e o apoio da mulherada nas ruas, o que a deixa muito orgulhosa. Tanto que já pensa em alguma estratégia de marketing, especialmente para o público feminino. ''Temos de aproveitar a euforia.'' A única coisa que a deixa incomodada dentro do clube é algo que acompanha desde criança: a falta de manutenção das instalações, que estão muito degradadas.
Carreira
Aos seis anos de idade, Patricia surpreendeu a família ao completar, a nado, a travessia entre a praia do Flamengo e a praia Vermelha, no Rio. Mais tarde, na década de 80, já era a principal nadadora brasileira. Foi atleta de 1977 a 1994. Aliás, a primeira da natação brasileira a conquistar um patrocínio individual (da Kibon). O Brasil completava dez anos sem ter um nome nas Olimpíadas quando ela representou o País, em Seul, em 1988. Aos 25 anos, carregava em seu currículo 28 títulos nacionais e 29 recordes sula-mericanos.
Formou-se em Educação Física e mergulhou no comando dos esportes olímpicos do Flamengo, quando encerrou a carreira de atleta, em 1991. E passou por diversos departamentos no clube. Foi esportista, estagiária, professora, comandou equipes de polo aquático, basquete, ginástica e natação, diretora, vice-presidente... ''Fui tudo o que poderia ser'', orgulha-se.
E ainda tem a verve política. Patricia é vereadora do Rio pelo PSDB, no terceiro mandato. E sempre lutou pelo incentivo ao esporte.
O preconceito não pauta suas ações. ''Quando sou espetada, transformo isso em motivação''. E tem mais: ''Quero falar pouco e fazer muito''. Será que algum machão duvida?

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