Curitiba- O artista Edílson Viriato é ''ligado na tomada''. Nasceu em Paraíso do Norte, interior do Estado, tem 39 anos, trabalha com arte desde os 15, já participou de uma Bienal brasileira, chocou Curitiba e foi expulso de Ponta Grossa por trabalhar de um forma crua em uma mostra que abordava sexualidade e temas como Aids e hoje é cotado em países como Alemanha como um profissional no assunto.
Recém-chegado de rápidas temporadas em Londres e Colón, cidade alemã onde a arte ferve e dita tendências para o mundo inteiro, Viriato entra numa fase em que o incentivo à volta ao figurativo tanto em seu trabalho quanto no de seus alunos da escola em Curitiba passa a ser a principal forma de criação.
Para a carreira chegar onde está, ou seja, cotado lá fora como um profissional e cheio de convites para exposições em Madri, Paris, Londres, Viriato fluiu naturalmente. Não se lembra de ter feito outra coisa a não ser ter se envolvido com arte na vida. ''Com 15 anos de idade ganhei meu primeiro prêmio no Salão Nacional em Brasília'', conta ao começar a detalhar sua trajetória.
Esse foi o primeiro prêmio e também a prova para que os pais, até então reticentes com a escolha do filho, aceitassem de vez o talento ditar seus passos. Até conseguir o prêmio, o artista teve que dar uma ''rebolada'' bem brasileira para conseguir pintar. ''Na minha cidade tinha um atelier chamado Marise Canabrava e como eu era meio entrão falei que também queria pintar. Ganhei de presente de meus pais os pincéis e algumas tintas, só que pintura não é um curso muito barato e eles não quiseram investir muito em mim.''
Mas isso não foi empecilho para que o menino pintasse. O jeito que Viriato encontrou foi oferecer seu trabalho para os outros alunos. Ele limparia os pincéis deles. ''Eu tinha apenas três tubos de tinta e precisava de outras cores, então, o que eu fazia? Como a tinta era óleo e não secava de um dia para o outro, eu limpava as paletas de todo mundo recolhia e passava para a minha. Minha paleta ficava super-rica com a sobra dos outros. E para as outras pessoas era maravilhoso porque a paleta (deles) ficava limpa.''
Esse aperto durou pouco. No próprio atelier Viriato passou a orientar outros alunos. ''A Marise foi embora para Londrina e eu fiquei cuidando do atelier para ela. Desde essa época que eu sou independente. Vivo e como arte 24 horas por dia.''
Em 1984, ele veio para Curitiba estudar belas artes e dançar no balé do Teatro Guaíra. Contatos paralelos com várias formas de arte que só foram desenvolvendo a sensibilidade do artista, que é conhecido pelo seu lado polêmico de trabalhar. A saída definitiva de outras formas para se consolidar nas artes plásticas veio com um pulo de ousadia que projetaria o talento de Viriato definitivamente como um grande artista brasileiro em um mundo fechado: a participação na Bienal de São Paulo em 1991.
''Pela primeira vez, a Bienal abriu para artistas mandarem seu currículos. Eu concorri com mais de 5 mil propostas do mundo todo. Fui um dos 40 brasileiros aceitos.''
A obra que o artista levou para a exposição era uma capela mortuária. Uma instalação dividida em quatro salas em que o sagrado e o profano foram trabalhados sem medo. ''Tinha uma cama de motel dentro da capela. Trabalhei com uma série de questões até irônicas.''
Com tanta ousadia foi criando a fama de chocar. Essas investidas sem medo já lhe causaram momentos engraçados: convidado para levar a exposição da Bienal para Ponta Grossa causou tanto choque que foi expulso da cidade.
''Até hoje qualquer exposição que eu faça sempre tem muita polêmica. Ficou rotulado isso. Sempre tem um fuzuê. É tratado como uma surpresa. Isso é muito bom por que provoca mídia espontânea. Mas, o mais importante de tudo isso, é que o trabalho não só se tornou aceito em Curitiba e pulou para o mundo, como agora mudou: ''ter um Viriato está na moda'', confessa. ''Curitiba é uma cidade conservadora. Mas hoje ela já está mais cosmopolita. Tem guetos. Deu uma mudada, ou seja, ela está mais antenada com o mundo.''
A chegada a esse ponto de ter ultrapassado preconceitos, e estar valorizado no mercado nacional e internacional deixam o artista feliz e empolgado com a idéia de ensinar aos outros o que sabe fazer. Em sua volta, no momento em que concedeu essa entrevista à Folha, várias alunas pintavam suas telas. Num astral harmônico, as aprendizes já estão todas sendo encaminhadas na profissão. Viriato não quer ficar com o poder das paletas somente consigo. Acredita que expandir sua experiência é tão importante quanto difundir seu próprio trabalho. O espírito de mestre já o fez um curador conhecido também. É ele quem cuida do espaço que a rede de hotéis Mabu tem no Estado. Lá ele organiza mostras de gente que precisa trilhar, que está despontando no mercado.
''Oriento mais de 80 artistas. Tiro de dentro deles o potencial que eles já têm. Acaba virando uma terapia profissional''. O atelier de Viriato já tem 13 anos. Seus alunos mais novos têm no mínimo quatro anos de casa. Por ali já passaram mais de 200 pessoas. A orientação ultrapassa os limites da cidade. ''Oriento artistas de outros estados também por eu estar antenado com o mundo.''
Essa antena ligada chega de tanto que o artista vai atrás do que acontece em grandes centros.''Acabei de chegar de uma viagem em que constatei que a pintura está de volta. Na próxima Bienal nós já vamos poder comprovar isso.''
E a influência dessa fase mundial no trabalho próprio do artista está prestes a sair do forno. Em dezembro, ele abre uma exposição intitulada ''Viriato a Ferida da Arte'', em Curitiba, no Solar do Barão. Irá ocupar as dez salas que compõem o prédio dedicado a mostras para trazer surpresas e mais uma vez causar polêmicas. ''Vai ser um boom para Curitiba porque agora eu escancaro mesmo'' avisa. Nesse trabalho em fase de produção desde o início do ano, ele irá perambular pela fotografia, instalações, pinturas e gravuras.
Paralelo a isso, Viriato lança seu livro. Com 185 páginas, a publicação conta a história de sua vida. ''Agora as pessoas vão poder conhecer mais a fundo o processo de minha obra.'' Depois de Curitiba, já em 2005, Viriato leva a suas ''feridas'' para Madri, Paris e Colón e continua com a parabólica ligada: vai ficar um tempo por lá. Na rota pretendida está passar alguns meses em cidades como Tóquio, Londres, Madri e ainda uma passadinha na Índia. ''Quero ver como funciona a arte nesses locais e me interar mais. Agora começo a me preocupar mais com minha carreira internacional.'' E haja fôlego.

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