Quando a preservação do meio ambiente ainda era um tema incipiente no Brasil, um evento marcou a juventude mais antenada no assunto. Era 1978, ano em que o famoso inventor, cientista, pesquisador dos oceanos e ecologista em tempo integral Jacques Cousteau esteve no Brasil – e passou por Curitiba, onde proferiu palestra em congresso universitário.
  Malu Nunes fazia cursinho pré-vestibular. Depois de ouvir a explanação de Cousteau, decidiu prestar exame para Engenharia Florestal. ‘‘Aquele evento foi um marco na minha vida, e na de muita gente. Naquela época, era difícil conhecer gente que lutava pela conservação da natureza, e conseguir informação sobre isso. Mais raro ainda que uma pessoa como Cousteau viesse para cᒒ, relembra.
  A opção pela Engenharia Florestal foi decisiva para aquela jovem, que hoje é diretora executiva da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza. Malu fez mestrado em Conservação da Natureza e entende do assunto. É categórica ao afirmar que os ambientalistas ainda têm enormes desafios a enfrentar no Brasil e no mundo. A devastação caminha a passos largos, e os interesses econômicos são fortes.
  Ela rebate com veemência os rótulos de ecochatos ou xiitas que os defensores da natureza recebem. ‘‘O foco não é esse, e há muito exagero por parte dos detratores. A verdade é que toda vez que aparece um grupo, privado ou no poder público, tentando boicotar nossas causas, existe algo por trás. Interesse econômico, evidentemente’’, afirma.
  Ela logo chega ao xis da questão. ‘‘Tudo que existe em termos de proteção ao meio ambiente no Brasil é resultado de leis. De regulamentação. Que vem de cima para baixo. Se dependesse somente da boa vontade de empresários, da iniciativa privada... praticamente ninguém é tão bonzinho assim. Por isso temos mesmo de lutar, e fazer o Governo nos ouvir’’, dispara.
  Não se imagine, porém, que Malu é uma ambientalista que usa sapatos de lona e roupa de algodão cru, com quem mal se pode conversar devido aos exageros do discurso. É uma executiva afável, inteligente e elegante, que trabalha mais dentro de escritórios e gabinetes do que perto da natureza selvagem. Viaja pelo mundo e Brasil afora, viabilizando projetos da fundação mantida pelo O Boticário e conhecendo iniciativas de outras ONGs e governos.
  Dona de temperamento expansivo, somado ao traquejo de mais de 20 anos batalhando pela conservação e valorização do meio ambiente, Malu tem pragmatismo e jogo de cintura. Defende uma postura ‘‘meio termo’’ dos ambientalistas – é preciso saber conciliar em alguns momentos, e em outros, confrontar, explica. ‘‘O ambientalista moderno precisa pensar estrategicamente’’, resume.
  A antena da executiva está plugada na realidade, percebendo que a mentalidade dos brasileiros vêm mudando – de forma positiva. ‘‘Hoje o mercado exige, embora ainda em escala pequena dentro do País, que a empresa tenha boas práticas ambientais. Que pratique reciclagem, que não polua, que seja eficiente na questão da sustentabilidade, por exemplo’’, analisa.
  Malu vê futuro e preconiza: ‘‘Temos grandes mudanças recentes, e vamos adiante nesse caminho. Principalmente na postura dos consumidores, que passarão a ter mais consciência e optar por marcas e empresas comprometidas’’.
  De acordo com ela, a discussão mundial sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, que vem ganhando espaço na mídia e no dia a dia do cidadão comum, é responsável por boa parte da evolução de mentalidade nos últimos dois anos.
  Outra boa notícia é que os chamados ‘‘empregos verdes’’ vão ganhar mais espaço. ‘‘Trabalhar com gestão ambiental, por exemplo, é um campo enorme que só tende a crescer. Hoje, ambientalista não é somente aquele cara que vai para o meio do mato e fica isolado – há muito que se fazer em diversos lugares e setores. Os desafios, porém, são grandes. O setor ambientalista ainda precisa evoluir muito. Falta ganhar visibilidade, ter mais dinheiro, estrutura e organização’’.
  No momento, uma de suas preocupações é o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, que ajudou a criar pela Fundação. É um dos maiores e mais reconhecidos eventos sobre o tema na América Latina. Este ano, na sexta edição, o evento acontece em setembro, em Curitiba.
  Outras conquistas da Fundação O Boticário, que Malu acompanhou de perto, são as reservas privadas, que protegem remanescentes dos dois biomas brasileiros mais ameaçados: a Reserva Natural Salto Morato, na Mata Atlântica, em Guaraqueçaba, litoral norte do Paraná; e a Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante, Goiás, no Cerrado.

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