O empresário que virou cônsul
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domingo, 05 de fevereiro de 2006
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- O começo de vida do Cônsul Honorário da França na agência consular francesa do Paraná, Joseph Galiano, tem roteiro de minissérie. Nascido em Oran, Argélia, em 1939, quando o país ainda era um ''departamento francês'', Galiano foi criado sempre em meio a conflitos de independência. Filho de uma dona-de-casa e um motorista de praça (nome dado antigamente aos motoristas de táxis), já aos 12 anos foi viver no Marrocos. Lá a vida seria mais fácil para a família e lá também começava uma saga de vida que o leva hoje a ser, além de cônsul, um importante empresário curitibano (ele é dono da rede de Imóveis Apolar).
Logo cedo Galiano virou contador e ''nem pensava em vir para o Brasil e ser vendedor''. Foi logo cedo também que ele conheceu a esposa. E aí tudo mudaria. Como o Marrocos vivia uma revolução (ela duraria até 1957), a família da amada resolveu vir embora para o Brasil. E foi assim, para não perdê-la, que ele embarcou numa aventura brasileira sobre a qual não tinha a menor idéia do que se passaria. ''Moral da história? Depois de dois, três meses, eu disse: vamos casar. E no dia 20 de dezembro de 57 nos casamos, no dia 7 de fevereiro de 58 estávamos embarcando num navio para o Brasil.''
A escolha por Curitiba também não foi feita por Galiano. O cunhado já tinha decidido tudo. E ele não tinha a menor noção do que estaria lhe esperando por aqui. E o que o senhor sabia do Brasil? ''Sabia dos chapéus, do Rio e nem sabia que São Paulo existia.'' Uma aventura e tanto para um jovem casal que ainda não tinha nem 20 anos de idade. Ele tinha 19 e ela, 17. Eram duas crianças. ''Aí que a gente faz as coisas. Se fossemos mais velhos teríamos medo de arriscar.''
No começo tudo foi muito difícil. Ele era contador e fazia testes e mais testes em empresas, mas, na hora do português, emperrava. O jeito foi trabalhar como lavador de máquinas para escritório numa empresa suíça. ''Eu tinha que trabalhar, não queria depender de meus cunhados. Depois de alguns meses fomos morar sozinhos numa meia-água. Foi difícil. Nos quatro, cinco, primeiros anos, posso te dizer que até passamos fome.''
Mas tudo isso não lhe causa arrependimentos. No começo, a mulher trabalhava como costureira de alto padrão numa empresa, mas depois vieram os filhos e a fonte de renda ficou somente a cargo do homem da casa. Com o tempo ele foi passando de lavador para técnico em conserto de máquinas. E foi conseguindo mudar para casas um pouco melhores. Como era incansável na vontade de prosperar achou um emprego melhor. Virou vendedor de máquinas. Aí a coisa começaria a mudar. Logo nos primeiros meses, Galiano batia os recordes da empresa em que trabalhava. Lá ficou alguns anos, investindo em imóveis com o dinheiro que conseguia juntar. ''Honestamente? Sempre investi em imóveis. Em geral para o europeu, ao contrário do carro, a primeira coisa é o imóvel.''
Mas como nunca foi de se acomodar em uma coisa que já estava dominada, lá se foi Galiano mudar de novo. Arranjou um emprego na imobilária 2000, de quem era amigo dos donos. Pegou gosto pela coisa e, como já estava com a vida mais ajeitada, resolveu abrir seu próprio negócio. Em 1969 nascia a Apolar. Fruto de uma luta intensa de alguém que nunca se cansou de trabalhar. Passaram-se quase 40 anos e, hoje, Galiano trabalha num confortável prédio próprio da empresa no centro da cidade. Criou uma série de inovações no mercado e continua pensando sempre em melhorar.
Como nada na vida é perfeito há alguns anos ele teve um sério problema de saúde. Sofreu o primeiro enfarte aos 49 anos. Estava de férias na Espanha e foi surpreendido. Alguns anos mais tarde teve um derrame, mais tarde outro. Esse último lhe deixou algumas sequelas físicas. ''Tive que minimizar meu trabalho'', conta. Três dos cinco filhos o ajudam hoje na administração dos negócios. E o trabalho na agência consular veio por Galiano nunca ter esquecido suas origens. Ele acredita que, assim como ele foi bem recebido no Brasil, precisa fazer as honras da casa para os imigrantes que aqui chegam.
Com um astral de quem não parece ter limitações, o empresário e Cônsul segue em frente e aponta para a imagem de Jesus Cristo que tem ao lado de sua mesa. ''Não é astral não. Ele sempre me ajudou''.


