'O curso de arquitetura não me faz falta'
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sábado, 24 de maio de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O que a sociologia tem a ver com decoração? Do ponto de vista do curitibano Lupércio Manoel e Souza, tudo. E não é só pelo fato dele transitar entre as duas vertentes. Formado em sociologia pela PUC-PR, em 1980, ele enveredou na mesma época para a área de decoração e arquitetura. Hoje, mais de duas décadas depois, é considerado um dos mais relevantes profissionais da área em todo o Estado. Seu nome figura em publicações nacionais e internacionais e ele acaba de ser o único paranaense a integrar a 14 edição do Décor Year Book Brasil, obra referência no mercado editorial da arquitetura, design e decoração e que reúne o que é tendência na área.
Autodidata na profissão que escolheu trabalhar - ou que o escolheu, como ele gosta de ressaltar - Lupércio levanta uma polêmica ao ressaltar que a faculdade não é essecial para o mercado. ''A faculdade não ensina bom gosto, você já nasce com o dom'', revela, ressaltando, que ''o curso de arquitetura não me faz falta''. E se ele aprendeu na prática os conceitos que o ajudaram a se destacar na profissão, a vida acadêmica no curso de sociologia lhe ensinou as referências que o fazem passear com facilidade entre gêneros distintos. ''Vou do clássico ao contemporâneo numa boa, dependendo do gosto do cliente''.
Não interferir no gosto do cliente, aliás, é uma de suas características e que vai ao encontro dos estudos sociológicos. Lupércio escolheu o curso, aliás, por este estar mais próximo do seu gosto pessoal. Filho de militar e o único entre os irmãos que queria optar pela área artística, foi impedido pelo pai. ''Ele queria que eu fizesse medicina. Se eu tivesse seguido sua opinião, com certeza seria um médico frustrado''. O pai, no entanto, não se opôs à escolha final do filho. Paralelo ao curso de sociologia, o futuro decorador passou a pintar e a trabalhar como designer de jóias. Mas foi quando se casou e seguiu para Pato Branco que sua carreira como decorador começou a ser desenhada.
''Naquela época existia uma vazio muito grande nesse mercado e que não era proporcional à demanda. As pessoas acabaram por solicitar isso de mim. Me colocaram nesse mercado'', brinca Lupércio. Depois de 18 anos em Pato Branco, Lupércio decidiu voltar para Curitiba. Aqui já tinha clientes cativos conquistados no interior. E quando lançou o site próprio, há seis anos, viu a importância do seu nome dentro de um mercado até então pouco promissor.
''Assim que inaugurei o site, eu tinha 500, 600 acessos por dia. No finais de semana, as visitas pulavam para duas mil. Foi assim que, numa pesquisa, me classificaram como formador de opinião e acho que é isso que as pessoas procuram'', supõe. Além de reunir uma carteira com inúmeros clientes formada por importantes empresários curitibanos, Lupércio é também responsável por criar um novo nicho de mercado em Curitiba: o da cenografia corporativa. ''Não existe nenhuma dificuldade nisso. Você pega o produto e o transforma em estrela. É diferente de fazer um projeto para o cliente porque não tem envolvimento emocional, é uma situação comercial'', diz.
Quando o assunto volta à decoração de casas ou escritórios, Lupércio é categórico: ''Eu me moldo ao gosto do cliente e a sociologia me ajuda nisso'', reforça. Ele complementa que, ao atender um cliente e decorar o espaço solicitado, ele acaba se tornando íntimo. ''Alguns são meus amigos até hoje, mesmo depois do projeto concluído.'', conta.
E talvez por isso, intimidade não é um tabu para o decorador. Ele revela duas manias que se tornaram fetiche na sua vida: o de colecionar óculos e gravatas. ''Eu já fui mais exagerado. Cheguei a ter 243 gravatas no closet, agora são só 60'', conta. Já os óculos, uma de suas marcas registradas, são em menor número, mas ainda assim ajudam a compor seu estilo no dia-a-dia: são mais de 10. E é na intimidade também que Lupércio conta como recebeu o conselho de um médico para se livrar da síndrome do pânico, adquirida depois de um assalto sofrido durante o dia, quase em frente à sua casa: comprar um cachorro.
No começo, ele era cético. Mas hoje reconhece que o maltês que mora com ele e a mulher, no charmoso apartamento no centro da cidade, é o bebê da casa. E a receita médica deu certo? Ele garante: ''Hoje nem lembro mais da síndrome''. E outras situação contribuem para a melhora. Além de uma rotina de trabalho que quase não deixa espaço para a vida pessoal, ele revela que está com um projeto em andamento de lançar um livro - no mercado nacional - com um levantamento de toda a sua carreira, e também sonha com o dia que for morar em Milão. ''Não é exatamente um sonho, mas uma ambição. Quando me aposentar, quero me mudar para lá''. Curitiba sentirá falta.


