PERFIL -

O comunicador da família

Com um estilo próprio de conversar com os ouvintes, Antonio Godoy completa 50 anos de rádio neste mês

Gustavo Andrade - Especial para a FOLHA
Gustavo Andrade - Especial para a FOLHA

O comunicador da família
Gina Mardones
 



Da sala de espera da Rádio Alvorada, observo a aproximação de um táxi. Após alguns minutos, lentamente, o passageiro desembarca do veículo com uma certa dificuldade, troca meia dúzia de gentilezas com o motorista e se despede já dentro do escritório da emissora. “Como é bom estar de volta”, diz, suspirando aliviado como quem chega em casa após muito tempo ausente. 


Com dois troféus em uma das mãos e um roteiro preparado especialmente para nossa conversa, Antonio Godoy é cercado e celebrado pelos colegas de trabalho. “Cuidado com os abraços”, alerta, pois está, como ele mesmo diz, em convalescença. 




Após os reencontros, estendo a mão para me apresentar, pois havíamos nos falado apenas por telefone. “Perdoe-me o atraso, não pude evitar”, desculpa-se, utilizando suas características: uma voz grave, mas calma, tranquila, e o vocabulário sempre rebuscado. 


Antonio Godoy, nascido em Uraí (Região Metropolitana de Londrina) no dia 27 de novembro de 1950, “dia de Nossa Senhora das Graças” - enfatizado por ele mesmo -, formado em Pedagogia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e jornalista por direitos adquiridos, completa neste dia 17 de novembro 50 anos de rádio.  


O COMEÇO 

Apesar de ter se tornado referência no rádio londrinense, Godoy sonhava em ser professor, porém, foi na igreja católica que começou sua trajetória como locutor. Em 1968, na comunidade Nossa Senhora de Lourdes (zona leste), fazia os comentários das missas e logo foi convidado pelo padre para participar de um programa na Rádio Difusora, ainda sem contrato.  


O então arcebispo de Londrina, Dom Geraldo Fernandes, encantado com o dom da voz daquele menino de apenas 17 anos, o convidou para fazer um curso na Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo. E foi ali que Godoy se encontrou. 


Ao retornar a Londrina, foi o responsável pelo script das missas na TV Coroados. Com o destaque, muitas emissoras de rádio passaram a convidá-lo a fazer parte de seus quadros de colaboradores. Na Rádio Atalaia não deu muito certo, pois foi convidado para ser ator das antigas radionovelas. Foi então que no dia 17 de novembro de 1969 assinou seu primeiro contrato com a Rádio Londrina. 


Entre tantas emissoras, há de se dizer que é na Alvorada que construiu a maior parte de sua carreira. São 41 anos emprestando e pondo a serviço uma voz privilegiada que encanta e cativa os ouvintes sedentos de uma palavra amiga, de fé, “dando primazia à palavra de Deus”, conforme ele faz questão de frisar. Em 2010, recebeu o título de cidadão honorário de Londrina, mas é de seus troféus que o locutor mais se orgulha. “Por duas vezes ganhei o 'microfone de prata', prêmio instituído pela então União de Radiodifusão Católica. Em 1989, ganhei com o ‘Ciranda de amigos’, e 2005 com ‘Um novo dia em sua vida’”, alegra-se. 


ENCONTRO COM O PAPA 

Quando já estamos em seu ambiente, o estúdio de gravação, pergunto sobre o que mais o emociona depois de tanto tempo de profissão. “Uma das maiores emoções aconteceu em 1997, tempo em que atuava na Rádio Paiquerê AM, ao lado de J.B. Faria”. Após uma pequena pausa, continua: “Foi no Rio de Janeiro, no Segundo Encontro Mundial do Papa com as Famílias, Maracanã lotado. Ainda me emociona lembrar o momento da chegada do Papa, hoje São João Paulo II”, interrompe, com voz já embargada e lágrimas nos olhos. “Uma pena que a chuva tenha parado, pois ele passou tão perto de nós que eu teria lhe oferecido nosso guarda-chuvas”, termina, disfarçando as lágrimas com um sorriso. 


J.B. Faria, aliás, relembra esse momento e conta mais sobre o amigo que o rádio lhe deu. “O Godoy é um dos ícones da comunicação londrinense, me lembro com muito orgulho quando transmitimos a segunda visita do Papa ao Brasil, era uma emoção muito grande e o Godoy, justamente por esse elo com a igreja católica, conseguia colocar o ouvinte ali do nosso lado, sem dúvida nenhuma ele faz parte do mais alto nível do jornalismo londrinense”, conta o diretor da Rádio Paiquerê 91,7. 


Falar de emoção com Antonio Godoy é especial. Durante boa parte da conversa sempre faz questão de lembrar que a linguagem do rádio é além do som. Tocar a sensibilidade de seus fiéis ouvintes e falar ao coração são marcas registradas daquele que é conhecido como o comunicador da família. “Impossível dizer quantas vezes me emocionei conversando com os meus ouvintes. Aprendi que eles têm muito mais a comunicar que o próprio locutor. Quanta riqueza e benção em seus testemunhos”, enche-se de orgulho. 


MEMÓRIAS 

Ao longo de sua jornada, fatos alegres e tristes o acompanharam, mas são dos momentos de alegria que ele prefere se lembrar. “Todo ano eu transmitia a procissão da Sexta-feira Santa, na Catedral, mas em uma ocasião não estava bem preparado a contento, então rezei e torci muito para que chovesse no dia. Pois bem, choveu, mas a procissão foi dentro da catedral e eu tive que fazer do mesmo jeito”, diverte-se. 


Sua alegria em comunicar talvez seja o principal ingrediente de outra característica marcante. Carismático, Godoy se mostra um bom ouvinte também. Recebe de volta de sua audiência e colegas de profissão todo o carinho com o que há de mais sagrado e difícil no processo da comunicação: a escuta. Uma carreira forjada no respeito lhe deu bons amigos. Como ele próprio classifica, amigos novos e de longa data, amigos ouvintes e familiares. 

 

“Além de ter uma das vozes mais bonitas que o rádio dispunha em Londrina, é dono de um coração gigante. Eu o conheci ainda no início da minha carreira e depois tive o prazer de trabalhar com ele. Sempre muito simpático, alegre, além de ser um cara muito religioso”, resume o apresentador Carlos Camargo. “Ele é uma referência para todos nós, uma figura muito importante, voz marcante, um comunicador nato”, conta o técnico Luiz Carlos Guedes, companheiro de rádio de Godoy. 


Antes de me despedir, pergunto se tem algo que não abordamos e que ele gostaria de contar. “Obrigado por essa nossa gostosa conversa. Agradeço de modo muito especial meus ouvintes por essa caminhada. Obrigado pela agradável companhia, pelo carinho da sintonia e pelo fervor das preces. E, por falar em preces, agradeçam comigo esses 50 anos de comunicação. Que Deus continue abençoando nossos encontros, nossas famílias, nossas vidas. Um abraço do Antonio Godoy, o comunicador da família”, encerra. 


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