Paris- Termina hoje a Semana de Prêt-à-Porter de Paris. A cidade apontada como a capital da moda (da criação, não das finanças na atualidade) é a última a mostrar suas coleções, depois de um calendário internacional que incluiu Nova York, Londres e Milão. E ela ferveu. Cenas passadas aqui vão ser reproduzidas durante meses a partir de agora na mídia do mundo inteiro. Claro. É aqui que madame Anne Wintour, a editora da Vogue americana que foi classificada como o 'Diabo' por uma ex-assistente no livro que acaba entrar nas telas do mundo inteiro com filme homônimo, entra a partir de agora escoltada por dois guarda-costas. Uma novidade, já que até pouco tempo atrás, apesar da fama de má e exigente, ela não precisava de blindagem. A vida de Anne deve ter se tornado um inferno... Mesmo assim, ela anda com toda a classe que 'Deus' lhe deu e ganha a cena ao chegar no desfile de Valentino impávida. Somente depois que ela chegou é que a apresentação, ou show como se fala por aqui, pôde começar.
Corta...Voltando à moda... se NY é business, Londres laboratório, Milão qualidade, Paris é luxúria, futurismo, geometria, simplicidade, glamour e muita cena. É aqui que realmente os grandes criadores sempre viveram. Foram tantos... Madeleine Vionnet, Elsa Schiaparelli, Paul Poiret, um pouco mais tarde Mademoiselle Chanel, Christian Dior, Balenciaga, e por aí vão 100 anos da história de muita criatividade e verdadeiras revoluções, principalmente na maneira da mulher contemporânea se vestir.
Dentro de toda esta aura de criação, entra Paris 2006 mostrando o que há de novo para o verão 2007, uma influência que vai se refletir na nossa moda daqui a exatamente um ano, isso se a indústria da falsificação deixar. E esse verão parisiense não é assim tão fácil de decodificar. Os estilistas estão cada vez mais dando nós na indústria da cópia. Cansaram de colocar suas grandes invenções em voga e depois perderem milhões ao serem copiados por uma indústria chinesa arrasadora. Pequim ultrapassou a industria têxtil européia que agoniza com pequenas usinas de produção aqui e acolá.
Mas isso é assunto para gente grande e Paris tem festa. Jean Paul Gaultier comemorou 30 anos de carreira com um desfile meio retrospectiva, meio perspectiva. Ele apareceu em 1976, e já fez muito pela moda. Quem não se lembra de Madonna em sua turnê de 1984 com um bustiê de bicos dos seios pontudos? Quem não recorda do figurino bizarro de Victoria Abril no filme 'Kika' de Pedro Almodóvar? Gaultier tem muito disso em sua trajetória. Criou roupas, implementou conceitos que estão gravados até na memória de quem não está nem aí para o assunto. Em sua coleção 2007, shorts curtinhos, meio estilo boxeador, blusões de capuz em tecidos bem leves, transparências de tecidos e vestidos meio larginhos, bem esportivos... Nos pés, tênis tipo All Star. Uma proposta de renovação dentro do seu estilo, mas não dentro da moda. Não importa, Gaultier foi ovacionado. Já contribuiu e muito com a criação.
E se Gaultier comemorou, Viktor & Rolf, dupla de estilistas holandeses que tem uma loja incrível em Milão, onde tudo está de cabeça para baixo, deu o baile. O lugar escolhido? O Carrossel do Louvre, onde acontece a maioria dos desfiles, com exceção de Dior, Chanel e alguns outros que levam as passarelas para outros lugares de Paris.
Foi uma apresentação apontada como ''radical chic''. Sim, um corpo de baile, com cantor e tudo, dançou à la Fred Astaire e Ginger Rogers, somente que no final a dupla virava Fred e Fred. Conhecido por defender seus direitos de homossexual, Victor Horsting aproveita para dar seu recado. Se não teve muita conotação criativa com roupas já vistas antes (segundo a consultora de moda Constanza Pascolato) como calças e casacos franjados e vestidos curtos fazendo a linha maiô de patinadora americana, não importa. Em acerto com a L'Oréal a dupla aproveita para introduzir na Europa seu novo perfume: Anditote, um produto que carrega a bandeira da política anti-Aids.
Bom, e o que é moda daqui para frente? No desfile da inglesa Vivienne Westwood, ela já avisou: ''Eu sou cara. Eu sou financiada por pessoas pobres do planeta. Eu sou uma americana rica à procura de um marido....'' E por ai foi. Na verdade, ela desafia e mostra que a moda é tudo isso e mais um pouco. Sua boca de cena era cheia de pichações. As roupas? O estilo inglês, mistura de tudo o que fez a estilista ficar famosa. Foi ela quem levou o movimento punk para a moda. Ela tem saias e casaquinhos justinhos de cortes incríveis, tem calças largas, tem cores pesadas, essas sim uma tendência para o ano que vem.
Os tons fortes de amarelo e azulão apareceram bastante desde Milão e este de Paris, na coleção de Nicolas Guesquiére para Balenciaga. O estilista é o mais paparicado do momento. Sua última coleção era uma homenagem a coleções passadas do mestre espanhol e agora ele faz o caminho inverso e pega suas próprias referências de criança para lançar uma coleção robótica. O redondo das formas da coleção anterior acabou. ''Eu quero o futurismo real, a idéia da artificialidade para o corpo dos robôs e andróides'', avisou. Mas a gente já viu isso??? Claro, não há nada de novo, mas Guesquiére é a estrela da hora e todo mundo baba. As roupas vêm em calças douradas, articuladas nos joelhos, justas, coletes de materiais duros (difícil de usar, mesmo que depois saiam do conceitual quando forem para as lojas) e, sim, os vestidos em uma mistura de malha e vinil, sequinhos, com alguns recortes, na altura dos joelhos. Moda real, o resto é delírio, mas o show tem que chocar. Assim é Paris.
E se Paris é glamour, ele volta à cena na apresentação de Valentino. O estilista italiano quer uma imagem nova de luxo. Quer naturalidade. Sua mulher traz grafismos, plissados, formas fluidas, cores - ou bem fraquinhas como rosinha, malva ou bem fortes (sempre abrindo e fechando com o vermelho, marca-registrada dele) primeiramente em shortinhos curtinhos com camisas, babados estruturados, depois em vestidos deslumbrantes, tudo com toques de alta-costura. Luxo absoluto, uma faceta que não pode faltar ao mundo incrível da criação parisiense.

Gaultier: ao comemorar 30 anos de carreira, o estilista é ovacionado por já ter feito criações para Madonna e Almodóvar. Desfile meio retrospectiva, meio perspectiva com muitos shortinhos

Viktor & Rolf: mais show do que moda em uma coleção nada criativa e o lançamento do perfume Antidote, uma clara conotação à campanha de política anti-Aids



O que vai ser
- Dentre a cartela de cores das próximas estações uma mistura de tons neutros como bege, branco, com o preto e ainda o amarelo forte e o azul idem.
- Os comprimentos definitivamente encolheram. Os minis estão de volta em vestidos, shortinhos, saias. Tudo sem ser muito justo ou vulgar.
- O vinil. Quando Balenciaga faz a tendência se expande.

Mais sobre
- Os franceses chamam os chineses de malandros. E para afirmar a entrada da China no mundo da moda, nesta estação aconteceu a estréia do primeiro estilista chinês nas passarela francesas. Agora, eles vão investir em imagem, já que até o momento somente copiaram. O nome da figura? Frankie Xie.
- Nas noites da semana de moda, as festas acontecem levando todo o glamour do dia para boates. As megafestas foram feitas por Agnes B, no Olympia, com a banda de rock Placebo como atração.
- E depois Karl Lagerfeld fez uma VIP para lançar seu Cd. Sim, além de criar para Fendi, Chanel, ter sua própria grife, ele ainda faz mais coisas. Sua compilação, produzida Michel Gaubert, tem de Siouxsie a Stravinsky, de Xavier Cugat à Electralane.
- E claro, Gaultier comemorou também no Olympia ontem à noite seus 30 anos. Estavam sendo esperados grandes celebridades, como Boy George no comando do som.

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