O caminho da luz
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Foi por acaso que a fotografia entrou na vida do paranaense Valdir Cruz. Ele tinha partido de Guarapuava, região central do Paraná, para os Estados Unidos. Era o final dos anos 1970 e, assim como centenas de imigrantes, ele buscava condições de vida melhores na terra do Tio Sam. Trabalhando como torneiro mecânico e saindo à noite para conhecer os bares e pontos culturais do País, Cruz encontrou um passatempo peculiar: levava um fotógrafo da National Geographic a conhecer os bares de jazz de Nova York. O amigo acabou presenteando Cruz com um objeto que determinaria a carreira e a vida do brasileiro: uma pequena câmera 35 mm.
O primeiro cenário fotografado por ele foi um cemitério em Nova Jersey. Dias depois da experiência, Cruz avaliou o material junto ao amigo fotógrafo e teve o seguinte diagnóstico: tinha o olhar determinante para o sucesso de um profissional. Faltava-lhe a técnica, mas isso ele foi aprendendo com o tempo e hoje é considerado um dos melhores fotógrafos do mundo - suas obras estão espalhadas nas mais importantes galerias americanas. Estudou na Germain School of Photography e foi assistente do fotógrafo George Tice, em meados dos anos 1980. Também nos EUA, chegou a trabalhar com dois grandes mestres da fotografia, Horst P. Horst e Edward Steichen, antes dele próprio virar referência.
Cruz voltou ao Brasil no início de 1990, e morou em Curitiba até 1993. Seu primeiro projeto reconhecido foi feito na capital e ganhou o nome de Curitiba - Cidade Fantasma. Em seguida, publicou o livro com fotos da catedral da cidade. Ele fotografou a igreja durante 12 meses para fechar um ano de iluminação distinta. Esse cuidado precioso com a luz, aliás, é uma das características mais marcantes do fotógrafo. E apesar de estar há mais de 20 anos radicado no Estados Unidos, entre idas e vindas ao Brasil, são do Paraná as imagens mais conhecidas do fotógrafo.
Ele registrou por aqui o livro ''O caminho das águas'', que ganhou prefácio de Emanoel Araújo. A obra reúne imagens de 120 quedas d'água paranaenses, apenas durante o amanhecer e o entardecer. As imagens das cachoeiras já correram o mundo e devem em breve ganhar outra exposição em São Paulo. Ele também já havia publicado Faces da Floresta (2004), um retrato dos índios Yanomami no Brasil e na Venezuela.
Atualmente, o fotógrafo está temporariamente na capital paulista. Foi convidado pela Caixa Econômica e pelo governo do Estado a expôr o material do livro por lá, o que não reduz sua paixão pelo Paraná, embora com ressalvas. ''As imagens favorecem muito no Paraná, mas infelizmente existe um certo bairrismo que bane algumas pessoas que trabalham fora'', lamenta sobre a dificuldade que sente em encontrar respaldo financeiro para seus projetos no Estado em que nasceu.
Mas isso não é obstáculo para o fotógrado. Tanto que ele está finalizando um projeto que reúne imagens feitas nas últimas duas décadas e meia sobre a sua cidade natal, Guarapuava. O livro de 144 páginas traz fotografias da população e da paisagem da cidade e será lançado em 2010.
Sobre os seus mais de 25 anos de carreira, aliás, Cruz fala da mudança de tecnologia e do cenário da profissão. Conhecido por usar essencialmente equipamentos analógicos e não ter sucumbido à febre digital, ele revela que usa a tecnologia para favorecer o seu trabalho. Ele criou, por exemplo, com ajuda de especialistas, um equipamento capaz de imprimir, não com tinta, mas com pigmentos que se baseiam em suas fotos em prata e que conferem qualidade ímpar às imagens. É com essa máquina que vai imprimir o material de duas de suas exposições que vão abrir em São Paulo, em março e abril. Por isso, ele deve embarcar ainda este mês para Nova York. O retorno, no entanto, será breve.
Além de finalizar o livro sobre Guarapuava, Valdir Cruz está com mais dois projetos no Brasil: fotografar as árvores centenárias de São Paulo e registrar as paisagens de Bonito, no Mato Grosso. Este último é patrocinado por um banco francês. ''A vida tem me surpreendido generosamente'', fala sobre os projetos atuais. Máxima que pode ser levada também para a vida pessoal, independentemente da carreira das pessoas: ''A vida, aliás, nos surpreende diariamente, basta saber olhar''.


