Quem vê o homem grandão e risonho na calçada de uma rua do centro de Curitiba não adivinha tratar-se de um médico. Cláudio Paciornik aguarda a reportagem da FOLHA em frente a sua clínica, enquanto observa as imensas estações-tubo que a prefeitura acaba de instalar. Foi ali mesmo, na Rua Lourenço Pinto, que ele nasceu, cresceu, aprendeu o ofício e onde até hoje trabalha. Cláudio é filho de Moisés Paciornik, um dos médicos mais conhecidos no Paraná.
''Doutor Moisés'' criou os três filhos na casa da família, construída ao lado da clínica, mais tarde ampliada para Hospital Paciornik. Foi na sombra fresca do jardim interno que o obstetra, ginecologista e mastologista concedeu entrevista. Enquanto falava, Cláudio olhou muitas vezes para a nesga de céu azul e para o verde das folhas. Buscava lembranças de vida, viagens pelo mundo, pesquisas e descobertas.
Dos três irmãos, somente ele seguiu a carreira do pai. Juntos trabalharam e pesquisaram, mas o filho trilhou caminho próprio. O pai foi figura conhecida. Moisés Paciornik era propaganda viva do estilo de vida dos índios brasileiros, que ele estudou com Cláudio e serviu de base para a divulgação e prática do parto de cócoras. ''O parto de cócoras é parte de todo um processo. Índios não sentam em cadeiras. O móvel enfraquece a musculatura pélvica porque faz o serviço que nosso corpo deveria fazer, sustentar-se sentado sem apoio, abaixado, como sempre se fez nas aldeias'', esclarece Cláudio.
Entre outras coisas, foi graças aos exercícios que o pai se manteve ativo até os 94 anos. Não pegava elevador nunca. Várias vezes por dia praticava a ginástica ''dos índios'': agachava e levantava, lépido, para manter músculos fortes. Foi-se embora para sempre, e de repente, no final de 2008.
Cláudio se refere a ele com respeito e carinho. Mas o trata por ''Moisés'', não de ''meu pai''. ''Acostumei assim desde pequeno, ouvindo todo mundo chamar de doutor Moisés'', explica. A identificação com o ofício paterno veio cedo. ''Curitiba era uma província. Moisés ia visitar pacientes longe, em chácaras. Me catava, eu era moleque, ia junto. Passeava e também observava. Me fascinava aquele trato dele com as pessoas, o jeito de cuidar, conversando com as famílias'', relembra. Médico feito, Cláudio nunca esqueceu a lição. Procura enxergar e tratar a pessoa como um todo. Assim se interessou por alimentação integral, homeopatia, terapias orientais e uma visão holística, somando experiências aos conhecimentos da medicina tradicional.
Hoje com 59 anos, formado há mais de 35, Cláudio ingressou na Universidade Federal com apenas 17 anos. Era início dos anos 70, época de reviravoltas para jovens brasileiros inquietos como ele. No segundo ano da faculdade, botou a mochila nas costas e rodou: um ano pelas Américas, do Sul ao Norte. ''Isso de viajar, lá em casa, sempre foi estimulado. Conhecer outros países, outras culturas, para a nossa família era encarado como aprendizado'', conta. Na volta, o rapazinho retomou os estudos e já foi trabalhar com Moisés Paciornik.
''Comecei fazendo de tudo e logo botando o pé na estrada'', relata. O pai e um grupo de médicos faziam um trabalho pioneiro: viajavam nos finais de semana para o Interior, onde faziam campanhas de prevenção de câncer ginecológico. Assim começou a aproximação com os índios. Logo começaram a pesquisar como, e por que, as mulheres das aldeias tinham dez, doze filhos, em partos normais, e mantinham aparelho genital e musculatura em boas condições.
''Em Xanxerê conhecemos a primeira reserva indígena. Nos exames, ficava evidente a diferença das índias em comparação com as mulheres urbanas. Logo eu quis saber como era o parto nas aldeias, então, apareceu o óbvio: as índias dão a luz na posição vertical, que facilita tudo. Ao contrário dos 'nossos' partos, em que a mulher fica deitada. Além disso, as índias se movimentam, não usam cadeiras, dão de mamar assim que os bebês nascem, e os carregam nas costas de um jeito natural. Por isso a musculatura pélvica delas se mantém firme até a velhice''.
Cláudio passou grandes períodos em aldeias. ''Entre 1973 e 1977 examinei mil mulheres índias de todas as reservas do Sul. Apresentei o trabalho em um congresso no Rio de Janeiro. Foi muito bem recebido'', recorda. A partir daí, não parou mais de pesquisar e perceber o quanto certos hábitos da sociedade ocidental e urbana influenciam - negativamente - na saúde. Especialmente de mães e bebês. ''Muita coisas tidas como certas, na verdade, fazem perder a conexão do ser humano com seu próprio corpo''. Cláudio e Moisés conseguiram implantar, no Hospital Paciornik, uma sala de parto de cócoras. Orientavam as pacientes para praticar ioga durante a gravidez, fortalecendo os músculos da pelve e preparando o parto vertical. O hospital, assim como o nome dos obstetras, virou referência a partir de 1976.
Hoje Cláudio faz ''poucos partos''. Está mais focado na mastologia e prevenção. Pacientes antigas continuam indo ao consultório - muitas delas, levando as filhas adolescentes ou adultas. Quem optar pelo parto de cócoras não conta mais com a antológica sala do Hospital Paciornik, agora arrendado. Mas o ''doutor Cláudio'' consegue parcerias com hospitais para fazer o procedimento aprendido com índias.
De duas coisas o médico não abre mão. De falar com as pacientes sobre alimentação, porque ''cada vez mais'' comprova: o que se come faz muita diferença na saúde. E ''dar um respiro'', indo para o sítio ou praia. Há outra prioridade: ser pai. Passa do meio-dia, o filho adolescente telefona, lembrando o horário da viagem real - e o tira da ''viagem'' em que embarcou para dar a entrevista. ''Estou indo'', responde animado. E lá se vai doutor Cláudio, sorridente.

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